A obesidade infantil é uma ameaça crescente ao bem-estar de crianças em todo o mundo e tende a ser agravada com a pandemia, devido ao confinamento, ao sedentarismo e à má alimentação, segundo especialistas ouvidas pela CNN. O excesso de peso está relacionado a diversas doenças e pode ser um fator de risco para a Covid-19 em todas as faixas etárias. 

Dentro dessa perspectiva, tornou-se urgente apoiar ações que previnam o ganho de peso em crianças. Por esse motivo.

“Os números de obesidade infantil só crescem, e a doença já foi relacionada à forma mais grave de Covid-19 até em crianças”, afirma Maria Edna de Melo, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a obesidade deve atingir 2,3 bilhões de pessoas no planeta até 2025. Atualmente há 340 milhões de jovens no mundo com excesso de peso na faixa dos 5 aos 19 anos – destes 40 milhões menores de cinco anos. No Brasil, dados da última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que uma em cada três crianças com idade entre 5 e 9 anos está acima do peso. 

A endocrinologista afirma que a obesidade é uma doença que deve ser controlada nos mais jovens para evitar problemas metabólicos como diabetes, hipertensão e colesterol alto, entre outros, na juventude e na vida adulta e prolongar a longevidade. No entanto, não deve ser considerada mórbida, porque é tratável.

Além de aumentar a chance de problemas crônicos de saúde, a obesidade pode trazer prejuízos psicológicos severos para algumas crianças e adolescentes, principalmente devido à pressão social pela magreza e por serem constantemente alvo de bullying, reitera Melo.

“Há estudos que demonstram que crianças obesas têm qualidade de vida pior do que as que têm câncer, porque enquanto estas são acolhidas, as obesas são estigmatizadas e culpadas por sua condição”.

Obesidade na pandemia      

O confinamento causado pela pandemia e a consequente privação de brincadeiras na escola e com vizinhos foram determinantes para um notório ganho de peso nas crianças neste último ano. Caroline Peev, pediatra do Hospital Infantil Sabará, conta que houve um aumento de quase 20% no número de crianças obesas atendidas por ela no hospital e em seu consultório na capital paulista no período.  

Fernanda Rabello, nutricionista infantil do Hospital Infantil Sabará, disse também ter detectado um aumento de peso em crianças e adolescentes . “Sem a rotina de alimentação imposta pela escola, elas estão com mais acesso a lanchinhos fora de hora ingeridos em frente a telas, ou seja, paradas”.

A ingestão deste tipo de alimento tem uma razão específica: eles causam bem-estar, explica a endocrinologista da SBEM. “Para compensar a ausência de liberdade, as crianças passaram a consumir mais alimentos ultra processados, como biscoitos, bolachas recheadas, salgadinhos de pacote e alimentos fritos, que dão sensação de prazer”, afirma.

Quando uma criança é considerada obesa?

Enquanto a obesidade no adulto é medida somente pelo índice de massa corpórea – um IMC igual ou maior que 30 indica obesidade – em crianças há outros fatores de classificação. O pediatra examina o IMC relacionado à curva de crescimento (percentil), a idade e o sexo da criança (escore-z). “Uma criança até cinco anos de idade é considerada obesa se tiver percentil acima de 99; e acima dos cinco anos se tiver um percentil de 97 e IMC entre 35 e 40”, afirma a pediatra.

Fatores genéticos, de ambiente e comportamentais também podem causar o aumento de peso infantil e devem ser investigados. O pediatra é o profissional que geralmente terá acesso a essas informações, e ao detectar a obesidade deve orientar a família a mudar a alimentação da criança. 

“Nestes casos é necessário conversar com a família para entender a rotina alimentar na casa e saber se a criança tem uma vida ativa, para então fazer um plano de ação”, conta.

Como tratar a obesidade infantil?

Constatado o sobrepeso ou a obesidade na criança, é importante considerar uma mudança de hábitos para evitar que ela desenvolva doenças metabólicas ainda na juventude ou na vida adulta. Mas essa alteração deve ter apoio de uma rede multidisciplinar e ser feita de forma gradual, sem “fazer cobranças ou falar em dietas”, explica a nutricionista infantil Fernanda Rabello, do Hospital Infantil Sabará.

Segundo a nutricionista, o momento de intervir é quando se percebe um ganho de peso diferente do comum, um aumento grande de peso de um mês para o outro. Essa mudança de hábitos não deve ser focada no emagrecimento e em padrões estéticos, e o ideal é que seja adotada por toda a família.

Em casos de obesidade de grau mais avançado, no qual a criança ou o adolescente está com peso muito elevado, podem ser indicados tratamentos específicos por um endocrinologista. No Brasil, a cirurgia bariátrica é autorizada a partir dos 16 anos. Entretanto, só é recomendada se não houver mudança significativa no peso após reeducação alimentar, exercícios e medicações, explica a endocrinologista da SBEM.

O que a família pode fazer?

1- Mexam-se dentro de casa: crie brincadeiras que façam as crianças deixarem as telas de lado e saírem do sofá: vale esconde-esconde; pular corda ou obstáculos; dançar; brincadeiras mais calmas como jogos de tabuleiro para os maiores. Isso ajuda a gastar energia e a ter momentos mais alegres. Pedir ajuda em tarefas domésticas como colocar e retirar itens da mesa e arrumar o quarto também ajudam e ainda dão senso de responsabilidade.

2- Peça ajuda no preparo de alimentos: seu filho pode montar uma salada e separar alimentos na geladeira, por exemplo. São atividades que possibilitam à criança interagir com os adultos e conhecer mais os alimentos. Segundo a nutricionista do Sabará, aumenta muito a chance de ela querer comer um alimento que ajudou a preparar e está vendo os adultos consumirem.  

3- Converse sobre as novidades: explique de maneira tranquila sobre a reeducação alimentar para que não gere trauma e dificuldade de aceitação, respeitando a faixa etária da criança. Evite frases como “Não pode comer isso”; “Você precisa emagrecer”. Fale que algumas coisas na rotina serão modificadas, inclusive a alimentação.

4- Incorpore as mudanças: a chave para o sucesso do tratamento da criança é o envolvimento da família, sobretudo nas alterações alimentares. A chance de ela aceitar um alimento novo ao ver os pais consumindo é muito maior do que se somente se ela for obrigada a comê-lo. 

5- Melhore o acesso a comidas saudáveis: deixe ao alcance da criança (fácil de alcançar na geladeira e no armário) alimentos como frutas e legumes. 

6- Crie uma rotina: estipule horários para todas as refeições. Isso evita que a criança belisque alimentos menos saudáveis como ultra processados. Inclua uma rotina de sono que também evite que ela acorde muito tarde e pule o café da manhã, por exemplo. 

7- Faça a criança ter ao menos uma refeição em família: isso faz com que ela observe o exemplo dos adultos e pode estimulá-la a aderir aos novos alimentos.

8- Evite telas: manter a criança distraída com telas durante as refeições impede que ela observe e goste do que está comendo. 

9- Crie momentos para a comida pouco saudável: a introdução de comidas mais saudáveis não quer dizer que doces ou biscoitos precisam ser banidos. O segredo é criar situações que lhes permitam saborear os alimentos que estavam acostumados. No fim de semana, pode ser oferecido um brigadeiro ou outro doce. O ideal é não deixar a criança se empanturrar.

10- Evite comparações: crianças obesas estão mais propensas a distúrbio de imagem, por isso evite compará-las a outras crianças ou pessoas famosas.