O sobrepeso ou a obesidade são apontados como indícios de que uma pessoa está fora de forma. No entanto, o organismo conta com uma série de indicadores que podem revelar que a saúde está longe do ideal – mesmo quando o espelho mostra uma silhueta magra. Especialistas  explicam quais são esses sinais e como buscar um estilo de vida mais saudável.

 1. Falta de força muscular

Um dos parâmetros utilizados para avaliar o peso ideal é o índice de massa corporal (IMC), que faz uma relação entre peso e altura. No entanto, os especialistas ressaltam que, além do IMC, é preciso observar a composição corporal para dizer se alguém está em forma ou não.

“Uma pessoa magra pode ter o peso considerado adequado para sua altura, mas o índice de massa corporal ideal não quer dizer que ela esteja saudável. Importa mesmo ver como está a composição corporal”, afirma o endocrinologista Filippo Pedrinola.

Segundo o especialista, a avaliação da condição física deve considerar o percentual de gordura e de massa muscular (ou massa magra) de cada indivíduo. “Uma pessoa que está magra, mas tem um percentual de massa magra muito baixo, não está saudável. É preciso trabalhar um programa de alimentação, eventualmente suplementação, além de musculação e atividade física regular”, diz.

Para o professor e preparador físico Marcio Atalla, um dos sinais de que o índice de massa muscular está inadequado é a falta de força física. “Se você é magro, mas não tem força física, é sinal de que você tem muito pouca massa muscular e seu percentual de gordura está elevado”, diz.

Segundo o médico endocrinologista Clayton Macedo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a perda de massa muscular é agravada pelo sedentarismo e pela alimentação inadequada.

“A dieta precisa ter um aporte adequado de proteínas. Às vezes as pessoas consomem muito carboidrato e gordura e perdem a massa muscular. O maior patrimônio é a massa muscular, pois é partir do músculo que você tem toda a sua saúde metabólica e cardiovascular. A perda de músculo leva à fragilidade dos ossos”, diz Macedo.

2. Você se cansa com facilidade

Tarefas simples, como subir escadas ou andar alguns quarteirões, são motivo de cansaço? Isso também pode ser um sinal de que você está fora de forma, segundo os especialistas.

“O cansaço relacionado a atividades corriqueiras é muito comum até mesmo em pessoas que não estão com excesso de peso. Isso significa que o pulmão tem uma eficiência pequena e que o coração precisa bater muitas vezes por minuto para levar mais sangue, oxigênio e nutrientes para o corpo. Então a condição cardiorrespiratória é ruim”, diz Atalla.

O endocrinologista Filippo Pedrinola destaca que o cansaço excessivo também pode estar associado a uma má absorção de nutrientes pelo organismo. Segundo o especialista, o intestino é composto por bactérias boas e ruins, sendo o equilíbrio dessa microbiota fundamental para a saúde.

O aumento de bactérias nocivas no intestino – chamado de disbiose intestinal – pode levar à absorção inadequada dos nutrientes. Entre as causas da doença estão o estresse, o uso prolongado de antibióticos, a baixa imunidade e o uso excessivo de álcool.

“Essa situação piora a absorção de nutrientes, como minerais, proteínas e vitaminas. Além disso, passa a entrar na circulação o que não deveria, como restos de comida e microrganismos, o que leva a uma inflamação e aumenta o risco de uma série de doenças, como diabetes, obesidade, síndrome metabólica e câncer”, explica Filippo.

Segundo o especialista, a disbiose pode ser melhorada com uma dieta equilibrada e o uso de suplementos com orientação médica.

3. Você dorme mal

Segundo os especialistas, dormir mal ou pouco é um sinal vermelho em relação à saúde. Filippo Pedrinola alerta que a qualidade do sono não deve ser negligenciada. “Se a pessoa tem poucas horas de sono ou tem o sono interrompido várias vezes à noite, com a presença de ronco e de apneia, ela não tem um sono reparador e isso é causa frequente de cansaço e fadiga”, afirma.

O médico recomenda a criação de ambientes propícios para dormir, com redução de ruídos, baixa iluminação e evitar o uso de telas, como televisão e celular, nas horas mais próximas de ir para a cama. “Estamos dormindo menos tempo do que há algumas décadas, e nossos ambientes estão muito claros, com luzes de diversas fontes que interferem na liberação do hormônio melatonina, indutor do sono”, acrescenta.

4. Dificuldade para realizar movimentos

A dificuldade para realizar movimentos alongados, como calçar uma meia ou amarrar o tênis, pode indicar problemas nas articulações, segundo o preparador físico Marcio Atalla. “Quando você não movimenta as articulações, elas vão ficando mais rígidas e você vai perdendo a amplitude articular, que é aquele alongamento. Ao movimentar, você lubrifica bastante suas articulações e a tendência é que elas tenham uma sobrevida maior”.

5. Você é uma pessoa irritada

Segundo Filippo Pedrinola, o estresse foi “feito” para ser agudo e não crônico. O especialista utiliza como exemplo o ataque de um leão: diante dessa situação de estresse, o organismo libera uma série de substâncias, como a adrenalina e o cortisol, que vão permitir uma resposta mais ágil do corpo como mecanismo de defesa.

“Hoje em dia, não é mais o ‘leão’ o fator relacionado ao estresse, são questões do cotidiano como preocupações relacionadas a família, relacionamento, dinheiro, trabalho. Tudo isso pode gerar uma situação de estresse crônico, que passa a ser tóxico porque aumenta muito a produção do cortisol”, afirma.

O endocrinologista explica que o aumento do hormônio pode influenciar o funcionamento do sistema imunológico. “O cortisol tem efeito imunossupressor. A pessoa estressada cronicamente está mais suscetível a gripes, resfriados, herpes, por causa da redução dos glóbulos brancos. Em situação crônica, o cortisol vai debilitando o nosso sistema imunológico e começa a impregnar uma região do cérebro chamada hipocampo, que é o centro da memória recente”, afirma.

Na contramão do estresse crônico, o exercício físico contribui para a produção de hormônios relacionados à sensação de bem-estar no organismo. “O músculo é o maior órgão endócrino, ele produz uma série de mensageiros químicos e de hormônios chamados de miocinas que têm uma função de bem-estar e energia, além de ajudar na formação de neurotransmissores cerebrais”, explica Filippo.

6. Sua saúde mental não vai bem

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a atividade física regular ajuda a reduzir os sintomas de depressão e ansiedade, diminuir o declínio cognitivo e pode trazer melhorias para a memória e a saúde do cérebro.

“Quando você fala em ansiedade e depressão, qualquer psicólogo e psiquiatra vai falar sobre a importância do movimento. Se você está se sentindo mais triste, se está muito ansioso, saiba que fazer atividade física vai ser poderosíssimo para a sua saúde mental”, diz Atalla.

7. Colesterol e triglicérides altos

Segundo o médico endocrinologista Filippo Pedrinola, pessoas magras também podem apresentar altos índices de colesterol e triglicérides. A presença de níveis elevados de lipídios, ou gorduras no sangue, é chamada dislipidemia. As placas de gordura podem se acumular nas artérias, provocar a obstrução do fluxo sanguíneo e levar ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

“São situações silenciosas, em que normalmente a pessoa não tem nenhum sintoma e só vai descobrir quando fizer um exame de sangue. Por isso, considerar o histórico familiar é muito importante. A maioria dessas dislipidemias tem um componente genético”, afirma Filippo.

Segundo o endocrinologista, os cuidados estão relacionados principalmente a mudanças no estilo de vida. “A alimentação tem um impacto importante nos níveis de colesterol e triglicérides no sangue. É importante o acompanhamento com um nutricionista para orientar a dieta que possa reduzir esses níveis. O exercício físico regular aumenta o colesterol bom, que é o HDL, e diminui o colesterol ruim, que é o LDL”, diz.

8. Falta de interesse sexual

Segundo o endocrinologista Filippo Pedrinola, o aumento do cortisol, principalmente relacionado ao estresse crônico, diminui a produção dos hormônios sexuais, como a testosterona e o estradiol.

“O principal hormônio da libido é a testosterona, tanto em homens como em mulheres. Temos visto cada vez mais homens jovens se queixando de libido baixa, dificuldade de ereção e queixas das mulheres relacionadas à diminuição do desejo ou dificuldades para atingir o orgasmo. Isso tem a ver com hormônios, fazemos a dosagem e vemos níveis baixos de testosterona”, explica.

Segundo o médico, as causas podem ser a má qualidade do sono, questões de saúde mental, como ansiedade e depressão, e o uso de medicamentos que diminuem a libido. O tratamento pode ser feito por meio de reposição hormonal, acompanhamento psicológico ou mudanças no estilo de vida.

9. Você tem pressão alta

A hipertensão, ou pressão alta, pode ser uma doença silenciosa que se desenvolve sem apresentar nenhum tipo de sintoma. Segundo o endocrinologista Filippo Pedrinola, dois tipos de hipertensão não estão associados diretamente com quadros de obesidade. A hipertensão essencial, uma pressão elevada (superior a 140/90 mmHg), que não apresenta causas identificáveis, e a hipertensão renal, relacionada a alterações no funcionamento dos rins.

“É importante medir a pressão regularmente, pelo menos uma ou duas vezes ao ano. A maior parte dos casos é descoberta em pessoas que não tinham nenhum sintoma. A doença aumenta o risco de infarto, derrame e problemas circulatórios com o passar do tempo”, diz.

Segundo o endocrinologista, a doença pode atingir pessoas jovens e sem doenças pré-existentes. O controle pode ser feito com a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis, como alimentação variada, redução no consumo de sal e de alimentos com quantidade elevada de sódio, exercícios físicos moderados e controle do estresse.

10. Você sente dores com frequência

Para algumas pessoas, o convívio com dores recorrentes passou a ser algo comum. Pode ser uma dor de cabeça, aquele incômodo nas costas ou uma pressão grande sob os ombros. Segundo os especialistas, a mudança de rotina provocada pela Covid-19 e a adaptação aos novos ambientes de trabalho, como o aumento de pessoas trabalhando em casa, tem prejudicado a postura.

“A tensão muscular é uma das causas das dores, não somente no músculo, como também dores de cabeça. Uma pessoa tensa, ansiosa, que não dorme muito bem, favorece a contratura muscular e a tensão. O estresse crônico tem um grande impacto nisso”, diz Filippo.

Por onde eu começo?

Para os especialistas, a busca pelo condicionamento físico deve começar pelo exercício físico moderado e regular. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 a 300 minutos de atividade aeróbica por semana para adultos, e uma média de 60 minutos por dia para crianças e adolescentes.

“Seriam 150 minutos, divididos preferencialmente em cinco dias. Durante a semana, tentar acumular 150 minutos de movimento – 30 minutos de caminhada por dia, se for uma atividade mais vigorosa, como uma corrida, esse tempo cai para 90 minutos por semana”, afirmou Atalla.

“Não importa tanto a intensidade, o que mais importa é a regularidade. Sem os exercícios, as pessoas vão perdendo condicionamento e massa muscular com o passar dos anos”, complementa Filippo.

Para o preparador físico Marcio Atalla, o exercício físico deve fazer parte da rotina de cada um e não precisa necessariamente ser uma atividade programada. “Mesmo que  a pessoa não corra ou não faça musculação, se ela for ativa, der 10 mil passos por dia, ela colhe os benefícios do movimento. Sabemos que 12 andares de escadas, por exemplo, têm os mesmos benefícios de uma caminhada de meia hora, não precisa fazer de uma vez, pode ser ao longo do dia”, diz.