Ninguém sabe quando foi a última vez que choveu nesta área remota da Terra.

Por estar localizado a 3.216 metros de altitude na região do Ártico, com temperaturas abaixo de zero quase o tempo inteiro, o pico da Groenlândia normalmente não apresenta condições atmosféricas para gerar precipitação.

Por isso, o que aconteceu surpreendeu os pesquisadores da estação Summit, da agência americana National Science Foundation, que monitora o clima nesta parte do planeta.

Choveu “por várias horas”, de acordo com as informações do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos Estados Unidos (NSIDC). Nada parecido tinha sido observado desde que os registros começaram a ser feitos em 1987, conforme as informações compartilhadas pelo cientista Martin Stendel em suas redes sociais.

Conforme o relatório, “a temperatura do ar ficou acima de zero por cerca de nove horas”. O aumento nos termômetros criou condições de degelo que só foram vistas anteriormente em três ocasiões: 1995, 2012 e 2019.

Mais um exemplo de como o aquecimento global está afetando lugares tão remotos como o pico da Groenlândia, de acordo com especialistas.

“Isso não é um sinal saudável para um manto de gelo”, disse à agência de notícias Reuters Indrani Das, glaciologista do Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade de Columbia.

“Água no gelo é ruim… Torna o manto mais propenso a derreter na superfície.”

‘Choveu o dia todo’

Embora muitas vezes chova na superfície congelada da Groenlândia, o fenômeno nunca tinha sido observado no ponto mais alto.

Na estação de pesquisa, os cientistas ficaram surpresos ao verem gotas de água escorrer pelas janelas do alojamento — e chegaram a compartilhar imagens nas redes sociais.

“No sábado, choveu basicamente o dia inteiro, a cada hora em que a equipe fazia observações do tempo”, disse a engenheira Zoe Courville ao The Washington Post.

“E é a primeira vez que se vê isso na estação.”

A temperatura chegou a 0,48°C — a quarta vez nos últimos 25 anos que ela ultrapassa zero naquela área.

Os termômetros ficaram acima de 0°C durante várias horas, o que, combinado com a chuva, criou condições para o degelo na superfície do pico e arredores, segundo dados do NSIDC.

No total, o derretimento atingiu 872 mil quilômetros quadrados no dia 14.

“Somente em 2012 e 2021 houve mais de um evento de derretimento de 800 mil quilômetros quadrados”, destaca o relatório do NSIDC.

A região do Ártico está esquentando duas vezes mais rápido que o resto do planeta devido às mudanças climáticas, explica Steve Turton, pesquisador de geografia ambiental da Universidade Central de Queensland, na Austrália, em um artigo no site The Conversation.

Enquanto no resto do planeta a temperatura aumentou em média em 1°C, na região esse ritmo chegou a quase 2°C.

“Esta chuva preocupante no topo da Groenlândia não é um evento isolado”, ressaltou Twila Moon, cientista do NSIDC.

Junto com o aumento de enchentes, incêndios e outros eventos extremos, é um dos muitos “sinais de alarme” que apontam a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.