Nascida com paralisia cerebral em uma aldeia natal na Índia, Kuli Kohli teve sorte de sobreviver. É que vizinhos disseram aos pais dela que deveriam jogá-la no rio — em vez disso, eles a levaram para o Reino Unido. Ao longo da vida, escrever se tornou seu meio de fuga — e transformou sua vida de maneiras que ela nunca esperava.

Esperando ser chamada ao palco em sua cidade atual, Wolverhampton, na Inglaterra, Kuli Kohli sentiu-se mal por ansiedade. Ela estava petrificada por suas palavras não saírem e preocupada que pudesse cair de cara no chão. Seu coração disparou e a dúvida surgiu. “Por que estou me submetendo a isso?”, ela se perguntou.

O anfitrião deu as boas-vindas a Kuli e a convidou a sentar na cadeira que a esperava. Estava escuro, um holofote iluminou o palco e uma pequena onda de aplausos percorreu a sala.

Kuli nervosamente se aproximou do microfone do palco. Ela respirou fundo e alguns segundos de silêncio se passaram antes de compartilhar um de seus poemas com o público pela primeira vez. Leia o original acompanhado por tradução livre.

Mine (Meu)

I have a dream; please don’t influence it, (Eu tenho um sonho; por favor não o influencie,)

It belongs to me. (Ele pertence a mim.)

I have a delicate heart; please don’t break it, (Eu tenho um coração delicado; por favor não o quebre,)

It belongs to me. (Ele pertence a mim.)

I have peace of mind; please don’t disturb it, (Eu tenho paz de espírito; por favor não perturbe,)

It belongs to me. (Ela pertence a mim.)

I have to follow a path; please don’t obstruct it, (Eu tenho que seguir um caminho; por favor não o obstrua,)

It belongs to me. (Ele pertence a mim.)

I have an amazing life; please let me live it, (Eu tenho uma vida incrível; por favor me deixe vivê-la,)

It belongs to me. (Ela pertence a mim.)

I have a choice; please don’t choose for me, (Eu tenho uma escolha; por favor não escolha por mim,)

It belongs to me. (Ela pertence a mim.)

I have freedom; please don’t capture me, (Eu tenho liberdade; por favor não me prenda,)

It belongs to me. (Ela pertence a mim.)

I have incredible feelings; please don’t hurt me, (Eu tenho sentimentos incríveis; por favor não me machuque,)

They belong to me. (Eles pertencem a mim.)

I have a lot of love; please don’t hate me, (Eu tenho muito amor; por favor não me odeie,)

Love is mine to share. (O amor é meu para compartilhar.)

I’m on my material journey; don’t follow me (Estou em minha jornada; não me siga)

It won’t be fair. (Não será justo.)

So… I have a dream; it’s my dream to be free. (Então… eu tenho um sonho; é meu sonho ser livre.)

Kuli tinha mais motivos do que a maioria para sentir medo do palco. Ela nasceu com paralisia cerebral, uma condição neurológica que afeta sua fala, seus movimentos, sua postura, coordenação e equilíbrio.

Subir no palco e declamar sua poesia foi sua vitória contra aqueles que lhe diziam que sua vida não valia a pena por causa de suas restrições, que diziam que ela nunca seria nada ou atingiria seus objetivos. Ela estava abraçando e possuindo uma parte de sua identidade, algo pelo qual se sentiu envergonhada durante toda a sua vida.

Em 1970, quando Kuli nasceu em um vilarejo remoto em Uttar Pradesh, no norte da Índia, logo ficou claro que ela era diferente das outras crianças.

A mãe de Kuli tinha por volta de 15 anos quando deu à luz. Ela era a primogênita e muitos na comunidade ficaram desapontados por ela não ser um menino (as filhas primogênitas costumavam ser vistas de forma negativa). Mas seu gênero não foi a única coisa que os moradores notaram.

“As pessoas achavam que eu era uma garota estranha, porque eu era diferente. Assim que nasci, as pessoas diziam à minha mãe para se livrar de mim porque ninguém se casaria com uma garota assim”, diz ela.

“Ninguém sabia o que estava acontecendo comigo. As deficiências não eram compreendidas em minha aldeia na época, e ninguém sabia o que era paralisia cerebral. As pessoas diziam à minha família que eu era um castigo de uma vida anterior”, ela diz.

“Eu era muito jovem para lembrar, mas minha tia, que morava conosco, me disse que meu corpo era como o de uma boneca de pano.”

Alguns moradores argumentaram que ela deveria ser jogada no rio e deixada para se afogar.

“Mas fui literalmente salva por meu pai. Ele teve que intervir fisicamente para impedir que meu corpo fosse retirado de nossa casa e descartado como um objeto”, diz Kuli. “Ele salvou minha vida e me defendeu.”

Não demorou muito para que sua família decidisse que seu futuro não estava naquela aldeia.

Na década de 1970, houve um fluxo de migrantes do sul da Ásia para o Reino Unido e a família de Kuli juntou-se a eles. Ela tinha dois anos e meio quando eles chegaram a Wolverhampton, em 1973, onde seu pai encontrou trabalho como motorista de ônibus.

Mas Kuli também enfrentou preconceito no Reino Unido. A narrativa de que sua condição era uma punição ainda era mantida por muitos ao seu redor.

“Mesmo aqui, algumas partes da comunidade asiática consideram a deficiência com aversão. Isso resulta em pessoas com deficiência sendo ignoradas, usadas e abusadas”, diz ela.

“Eles lutam para realizar as atividades que as outras pessoas fazem sem hesitação, como sair, dirigir e usar o transporte público, ir à universidade, ter relacionamentos, encontrar um parceiro para a vida e casar, ter uma casa, cozinhar e trabalhar tarefas diárias, ter filhos, ter hobbies e interesses, conseguir um emprego.”

A ONG britânica Asian People’s Disability Alliance diz que alguns daqueles que acreditam que a deficiência é uma punição por um pecado em outra vida também temem ser punidos por se associarem a uma pessoa com deficiência. Assim, essas acabam no ostracismo.

Kuli frequentava uma escola para crianças com deficiência e, fora de seus muros, sentia-se isolada.

“Outras crianças me chamaram de ‘aleijada’ — uma palavra que desprezo. Eu seria observada e apontada. Ir para o Gurdwara (templo Sikh) foi uma provação. Eu odiava porque as pessoas costumavam me olhar fixamente, fazendo eu me sentir sem importância, alienada e inválida”.

Ela se lembra de crianças perguntando a ela: “Por que você anda assim e fala assim?”

Conforme ela ficava mais velha, ficava mais difícil para Kuli se comunicar.

Mas o que ela não conseguia expressar por meio de sua fala, ela começou a expressar por escrito. Foi na Penn Hall Special School que Kuli descobriu a poesia.

“Os professores costumavam ler poesia para nós e eu gostava de ouvir”, diz ela. “Então comecei a escrever poesia como uma forma de alívio e uma espécie de terapia. Gostava de fazer rimas e escrever sobre minhas emoções e sentimentos.”

Aos 13 anos, ela foi matriculada em uma escola secundária regular. As coisas começaram a melhorar conforme ela se misturava com seus novos colegas de classe. E ela continuou escrevendo.

“Escrevi tanto por prazer quanto por alívio”, diz ela. “Podia não ser fisicamente capaz, mas era capaz. Sentia, pensava e via como todo mundo. Isso me fez sentir poderosa.”

A escola era um refúgio seguro para Kuli, mas ela sente que não conseguiu atingir objetivos. Ela foi reprovada na maioria dos exames e deixou a escola aos 16 anos. Ficou desapontada por não poder ir para a universidade, embora, de qualquer maneira, seus pais sempre tivessem duvidado que ela conseguiria se virar sozinha lá.

Quando ela concluiu a escola, a família de Kuli tentou arranjar um casamento para ela.

“Lembro-me de quando famílias vinham até nossa casa para verificar se eu seria adequada para seu filho”, diz ela. “Eu me vestia com roupas tradicionais e me sentava em nossa pequena sala de estar. As famílias que vieram ver minha condição disseram à minha família: ‘Você espera que nosso filho se case com isso?’ E então saíam. “

Toda a sua vida ela tinha ouvido pessoas dizerem que nenhum homem iria querê-la, e agora aquelas palavras ecoavam em sua mente.

Ninguém sabia que ela despejava seus sentimentos no papel.

Ela escreveu sobre como tinha sido a vida dela, com a ideia de que talvez um dia alguém lesse. Ela queria que as pessoas soubessem como é ser uma mulher asiática com paralisia cerebral — não buscando simpatia, mas empatia.

E então ela conheceu o homem que eventualmente se tornaria seu marido.

Desta vez, o jovem e sua família estavam entusiasmados com o casamento. Mas Kuli não estava.

“Não gostei dele no início, não gostava muito dele”, diz ela. “Mas depois que o tempo passou e eu comecei a conhecê-lo, me apaixonei por ele e ele me amou também.”

A aceitação dele a surpreendeu.

“Ele não tem nenhuma deficiência e não teve nenhum problema com a minha”, diz Kuli. “Não importava para ele.”

Determinada a encontrar um trabalho, Kuli se inscreveu em um programa de treinamento para jovens, o que a levou a uma colocação no Conselho Municipal de Wolverhampton, um emprego que ela manteve nos últimos 30 anos.

Há alguns anos, agora na casa dos 40, Kuli é uma mulher feliz no casamento, mãe de três filhos e trabalha em tempo integral. Ela provou que todos estavam errados. Mas a vida estava longe de ser perfeita.

Kuli lutou para corresponder às expectativas colocadas em uma mulher asiática.

“Espera-se de mim como mãe, esposa, nora e trabalhadora em tempo integral que deve dar à sua família e trabalhar o seu melhor todos os dias”, diz ela. “É uma provação, porque não sou como as mães saudáveis ​​e não posso fazer muitas coisas que se esperam de mim, como fazer cozinhar refeições completas e fazer compras.

“Não posso trançar o cabelo dos meus filhos. Há muitas tarefas que gostaria de poder realizar; essa falta de independência causa frustração e raiva.”

No entanto, ela continuou escrevendo, e um dia no Conselho Municipal ela conheceu Simon Fletcher, o oficial de desenvolvimento de literatura nas bibliotecas de Wolverhampton.

Kuli revelou a ele que escrevia e decidiu mostrar-lhe alguns trechos de poesia e um romance. Ela achava que, como Simon também era escritor, ele poderia lhe dar conselhos valiosos. Afinal, ele era gerente de uma pequena gráfica chamada Offa’s Press.

Simon ficou impressionado com o que leu: a emoção, a honestidade e a dor.

Ele se tornou o mentor de Kuli, encorajando-a a escrever uma coleção de trabalhos que a Offa’s Press pudesse publicar. Ele sentiu que mais pessoas precisavam ouvir sua história porque haveria muitas outras mulheres como ela, e que não tinham voz. Ele acreditava que ela poderia ajudá-las com sua poesia e histórias.

Kuli concorda que muitas mulheres de sua geração e origem acham muito difícil expressar como se sentem, e tornou-se seu objetivo empoderar essas mulheres por meio da escrita.

“Eu conheço algumas mulheres (da região) Punjabi que vivem no Reino Unido, como eu, que têm desejos e sonhos, e os sonhos de algumas mulheres foram suprimidos pelo sacrifício de serem esposas, mães, avós, filhas e noras obedientes”, ela diz.

Kuli criou um grupo de mulheres Punjabi escritoras em Wolverhampton, que se encontra uma vez por mês na Biblioteca Central da cidade.

Ela conta que as mulheres escrevem sobre como se sentem e o que veem em sua comunidade. Por exemplo, maridos ou pais alcoólatras e violência doméstica, mas também sobre o lado bonito e engraçado da vida.

Enquanto Kuli ganhava confiança, sentiu que havia chegado a hora de superar mais um obstáculo. Subir ao palco para apresentar sua poesia era uma ideia que fazia seu estômago embrulhar. Mas ela sentiu que precisava superar isso, para finalmente abraçar quem ela é mostrar seu trabalho com confiança.

Então, em 2017, ela fez a primeira apresentação ao vivo de seu trabalho, começando com as palavras, “Eu tenho um sonho.”

“Eu li em voz alta com um microfone uma série de poesias de 15 minutos para uma audiência de cerca de 40 pessoas”, diz Kuli. “Falei o mais claramente que pude, mas escorreguei algumas vezes. Eu sabia que poderia ter feito melhor. Mas o público foi muito paciente e me apoiou e recebeu meu trabalho com grande entusiasmo.”

“Eu entendo que para muitas pessoas deve ser alarmante ver uma pessoa como eu no palco lutando para interpretar e articular minhas palavras. Sei que não sou fisicamente comum, mas meu coração, alma e mente são. Sei que nunca serei uma artista ‘perfeita’, mas com prática e orientação, sei que vou crescer e ser melhor.”

Também cresceu o grupo de mulheres punjabi que ela guia. O Punjabi Writers Group apresentou seu trabalho como um coletivo em 2019 no The Festival of Imagination em Ironbridge.

Aos 49, Kuli já percorreu um longo caminho.