Mais de uma semana depois do terremoto que atingiu o Haiti, as autoridades do país anunciaram que de agora em diante o envio de ajuda humanitária aos sobreviventes será feito por helicóptero.

A medida visa evitar os saques de caminhões e, principalmente, auxiliar os vilarejos isolados.

Enquanto a ajuda internacional não chega, muitos vilarejos e municípios tentam se virar como podem. Depois do terremoto de 14 de agosto, o prefeito de Corail, Alex Maxcia, criou o que ele chama de “locais de acolhimento”.

Ele explica que esses locais são “escolas, escritórios ou casas de família que devem respeitar algumas normas” (de segurança). Trata-se de prédios que não foram muito danificados pela catástrofe na cidade do departamento da Grand’Anse, no oeste do Haiti.

Julie Gerthy se refugiou em um desses locais, o centro da Cruz-Vermelha de Corail. A casa dela foi destruída pelo tremor e ela ficou com medo de dormir na rua. “Aqui, nós temos mais segurança. Dormir na rua, no centro da cidade, é muito perigoso porque há muitos vagabundos”, afirmou à RFI.

Além de acolher os sobreviventes durante a noite, os centros também favorecem a ajuda mútua.

“Somos muito numerosos aqui e cada um traz alguma coisa. Nos organizamos como podemos. Eu, por exemplo, posso trazer alguns ingredientes para a refeição e aquela senhora pode trazer outra coisa. Somos como uma família. Nos apoiamos mutuamente”, conta Julie Gerthy.

Segundo o prefeito de Corail, os centros de acolhimento do município abrigam atualmente metade dos 20 mil moradores da cidade.

Vilarejos isolados

Para melhor distribuir a ajuda humanitária nas zonas rurais, as autoridades haitianas decidiram privilegiar a partir de agora o envio dos produtos de primeira necessidade por helicóptero.

O ritmo das entregas se acelera, mas o abastecimento por via aérea não acontece sem dificuldades. A chegada da ajuda a Corail é um exemplo da complexidade da operação.

O helicóptero CH47 Chinook do exército americano sobrevoa a cidade buscando um lugar onde pousar. Ele desce em voo estacionário a um metro do solo, ao lado de um bairro popular e do mar.

Quando o bagageiro traseiro se abre, uma multidão corre em direção do aparelho, criando uma grande confusão. Para impedir que os moradores subam a bordo, os soldados americanos jogam alguns pacotes da carga para a multidão antes de decolarem com urgência.

A população ficou enfurecida. Ela esperava receber água e alimentos. “Consegui pegar uma sacola. É um macacão. Não sei para que serve”, disse um morador.

O macacão em questão é uma roupa anticovid que não é destinada aos sobreviventes. Ela integra o equipamento de um hospital de campanha enviado pela Argentina, juntamente com dez médicos, entre eles Marina Cardelli, presidente dos capacetes brancos argentinos.

“Nós vamos ficar em Corail cerca de 20 dias para reforçar a capacidade da resposta sanitária do hospital local. O estabelecimento foi danificado pelo terremoto e não pode, hoje, funcionar de maneira adequada. Viemos apoiar os esforços pessoal (hospitalar)”, detalhou a médica.

Finalmente, o helicóptero Chinook pousou no campo de futebol da cidade e distribuiu toda a sua carga. Durante esse tempo, os dois únicos policiais de Corail tentaram conter os moradores ainda tensos.

Duzentos soldados americanos mobilizados no Haiti

Os Estados Unidos anunciaram o envio de 200 soldados ao Haiti. De acordo com as autoridades americanas, os militares devem apoiar os esforços humanitários para ajudar os sobreviventes da catástrofe.

“Não tenho certeza de que isso faça uma grande diferença na nossa situação atual. Penso que socorristas ou médicos seriam mais úteis do que militares após um terremoto”, salienta Rolphe Papillon, ex-deputado de Corail.

“Ver americanos no solo nacional não choca mais os haitianos do que ver dominicanos ou colombianos. Há algum tempo, perdemos o sentido de soberania nacional”, indica.

O que mais choca o ex-deputado é ver muita conversa e poucas ações concretas sobre a crise.

“Penso que o internacional pode querer ajudar, mas existe o que chamamos de responsabilidade regaliana do Estado! A resiliência tem que ser local. Temos que desenvolver localmente as capacidades de resposta. Elas não dependem nem do internacional nem de Porto-Príncipe”, critica Rolphe Papillon.