Minutos após o Instituto Igarapé publicar uma nota técnica com críticas aos decretos que flexibilizam as regras de posse e porte de armas no Brasil, Jair Bolsonaro bloqueou a cientista política e especialista em segurança pública Ilona Szabó. Ela atua como diretora-executiva do instituto, que estuda questões de segurança e desenvolvimento, e informou pelo Twitter que o presidente foi “rápido no gatilho”. Ilona comparou a atitude de Bolsonaro com a liberdade de expressão e abertura de diálogo “como na Venezuela”.

Rápido no gatilho: menos de um minuto após eu publicar nossa nota técnica sobre os novos decretos de descontrole de armas e munições nos comentários do post do presidente, fui bloqueada. Liberdade de expressão e abertura de diálogo como na Venezuela. — Ilona Szabó

Em outra postagem, Ilona Szabó criticou o bloqueio de contestações à narrativa oficial e afirmou que “isso só acontece em ditaduras”. Ao responder a comentários de seguidores sobre o bloqueio recebido da conta oficial do presidente, a especialista declarou que “esse comportamento vai reelegê-lo” e que o país está “cansado dessa polarização tóxica que só vê dois lados”.

Impressionante ver como a máquina do ódio é eficiente e está aparelhada para bloquear qualquer contestação à narrativa oficial. Isso só acontece em ditaduras. Já vivemos tempos de exceção.— Ilona Szabó

Esse comportamento vai reelegê-lo. Antes de me julgar e condenar saiba quem sou, e o que defendo e faço por favor. O Brasil tá cansado dessa polarização tóxica que só vê dois lados. Fiz tudo o que estava a meu alcance para que 2018 fosse diferente. Se informe…— Ilona Szabó

Em nota divulgada à imprensa, o Instituto Igarapé afirma que os decretos assinados pelo presidente mostram que é “prioridade continuar com o desmonte da já combalida política de controle de armas e munições do Brasil”. Segundo a avaliação do Igarapé, o aumento na circulação de armas de fogo tem efeitos colaterais para o aumento da violência e “reforça possíveis ameaças à democracia”.

Entre as medidas determinadas pelos decretos está a ampliação de quatro para seis no limite de armas que cada cidadão pode ter. Também foram alteradas diversas regras envolvendo o grupo de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), incluindo o limite de armas que cada pessoa pode comprar e a desclassificação de uma série de itens da lista de Produtos Controlados pelo Exército (PCEs). Parlamentares do PSOL e PCdoB já informaram que vão contestar as medidas no Supremo Tribunal Federal (STF).

Modus operandi nas redes

Esta não é a primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro bloqueia opositores no Twitter, rede social utilizada por ele como plataforma para anúncios e declarações oficiais da maior autoridade do país. Em outubro de 2020, o GLOBO publicou um levantamento que localizou ao menos 15 perfis com mais de dez mil seguidores bloqueados pelo presidente. Entre as personalidades sem acesso ao perfil oficial de Bolsonaro estão políticos, jornalistas, pesquisadores, influenciadores tanto do campo da esquerda quanto da direita, e um youtuber.

Nos Estados Unidos, quando ainda governado por Donald Trump, a mesma atitude foi considerada uma prática inconstitucional. A corte que analisou o caso contra Trump entendeu que, como Trump usava o Twitter para anunciar decisões relacionadas ao governo, não pode impedir cidadãos de terem acesso às suas mensagens.