O artista e ativista cubano Luís Manuel Otero Alcántara foi retirado de casa por agentes da polícia, no oitavo dia de greve de fome em protesto contra o confisco de suas obras, e levado para um hospital em Havana. Desde então, são 24 dias em que está incomunicável e sob custódia do regime, o que levou a Anistia Internacional a considerá-lo, pela terceira vez, um prisioneiro de consciência.

Aos 33 anos, Otero Alcántara é o representante mais notório do Movimento San Isidro, criado em 2018 em resposta ao Decreto 349, que regulamenta, com duras restrições, as atividades culturais do país. O grupo tem sido alvo de perseguições pelas performances e greves que chamam a atenção para a censura e a repressão em Cuba.

O regime manifesta o incômodo e a irritação com a popularidade do movimento entre os cubanos, mantendo, com frequência, seus integrantes em prisão domiciliar, sob a vigilância de agentes.

No dia 26 de abril, o artista iniciou uma nova greve de fome, depois que sua casa — também sede do movimento — foi invadida por policiais. Ele reivindicava a devolução de suas obras. Em 2 de maio, os agentes entraram novamente em sua casa e o levaram, contra a vontade, para o Hospital Universitário Calixto García.

Um comunicado oficial, dias depois, dava conta de que o artista estava assintomático e sem sinais de desnutrição, negando também que estivesse em greve de fome. Ativistas cubanos questionam por que ele não recebeu alta hospitalar e encontra-se isolado, sem direito a visitas ou acesso a telefones.

Vídeos mostram Otero Alcántara sentado numa cama, muito magro, com uma bandeja repleta de alimentos sobre o colo, num indício de que ele está sendo alimentado. “O que eu vi não foi Luis Manuel”, resumiu a ativista Omara Ruiz Urquiola, sobre a deterioração física do artista, ao site CiberCuba Notícias.

Como defensor dos direitos humanos e como artista que luta pela liberdade de expressão, Otero Alcántara “não pode ficar mais um dia sob custódia do Estado”, conforme observou Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional para as Américas, ao pedir a sua libertação.

O governo cubano, por sua vez, tacha o ativista “de mercenário a serviço dos EUA” e o movimento “um espetáculo de reality show imperialista”, como definiu em novembro pelo Twitter, o presidente Miguel Díaz-Canel.

O discurso oficial parece descolado da realidade, e os rappers do grupo se mostram bastante conectados com a população jovem. Versão do slogan “Pátria ou morte”, propagado durante a Revolução Cubana, a canção “Pátria e vida”, ganhou rapidamente a adesão popular com uma mensagem bem direta: o desejo de liberdade e mudança na ilha.