O Comitê de Política Monetária (Copom), colegiado do Banco Central responsável por gerir os juros do país, anuncia ao fim da tarde desta quarta-feira (22) a nova Selic, a taxa básica de juros do país.

É bem amplo o consenso entre os analistas de bancos, corretoras e consultorias de que a Selic ganhará um novo aumento de 1 ponto percentual, igual ao da última reunião, em agosto, e conforme o BC já havia sinalizado que faria. É um dos maiores aumentos em anos já feitos pelo Banco Central, que costuma ajustar a Selic em degraus de 0,25 a 0,75.

A crise global que se sucedeu fez o BC brasileiro acompanhar o resto do mundo e derrubar a Selic para 2% no ano passado, em um super-estímulo à economia.

“Desde a última reunião do Copom [em agosto], o cenário da Covid melhorou, os números sobre a atividade foram mistos, mas com um viés negativo [com o PIB fraco segundo trimestre], a inflação surpreendeu negativamente (…) e o real perdeu força frente ao dólar”, escreveu o banco Goldman Sachs em relatório aos clientes, reforçando a aposta no aumento de 1 ponto agora e na continuidade da escalada dos juros até o final deste ano.

A cotação da moeda norte-americana saiu de R$ 5,15 a R$ 5,20 no início de agosto para os R$ 5,30 atualmente.

Presidente do BC acalma ânimos

Com a piora rápida da inflação – em agosto ela foi a mais alta para o mês em duas décadas e chegou a 9,7% em 12 meses -, alguns economistas até chegaram a acreditar que o aumento da Selic neste mês poderia ser maior, de 1,25 ou 1,5 ponto, ou seja, para até 6,75%.

Mas um alerta do presidente do BC, Roberto Campos Neto, na semana passada, reafirmando que a autoridade monetária “não alteraria seu plano de voo”, jogou um pouco de água fria na fervura dos ânimos do mercado. Isso colocou praticamente todas as projeções de volta nos 6,25% para esta quarta-feira.

“Em parte, a atividade mais fraca (…) pode se tornar um vetor desinflacionário adiante”, disse o economista-chefe da XP, Caio Megale, em relatório.

“O cenário externo também dá espaço para o Copom ser mais cauteloso na implementação do ajuste monetário [aumento de juros]. Os juros seguem bastante baixos no cenário global, e as incertezas na China representam um risco à atividade econômica global e à evolução dos preços das commodities.”

Todas essas pressões negativas, explicam os economistas, colocam um peso sobre a decisão do BC de não subir os juros muito rapidamente, já que juros muito altos já são um elemento que deprimem o crescimento.

Rumo aos 9,75%?

Com o novo aumento desta quarta-feira, a Selic já começa a se reaproximar do ponto que os economistas chamam de “neutro” – aquele em que os juros não estão nem estimulando e nem freando a economia, e que, atualmente, é calculado perto dos 6,5% para o Brasil.

Como a perspetiva é que ela siga subindo nos meses seguintes, o Brasil já deve começar a viver muito em breve – em 27 de outubro, mais precisamente, data do próximo encontro do Copom – com juros acima do neutro.

Quer dizer, a Selic já estará colocando um peso recessivo sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e a geração de empregos do país.

Alguns bancos já falam até em uma Selic a 9,75% até o início do ano que vem – caso do Credit Suisse, que divulgou recentemente suas revisões para este e o próximo ano.

“Nós mantemos nossa avaliação de que acelerar [o ajuste] não é o ideal, dado que o ritmo de aperto atual já é alto. Entretanto, acreditamos que a autoridade monetária terá que fazer novos aumentos na taxa de juros à medida que o cenário inflacionário piora”, escreveu o banco.

A XP estima que os juros cheguem aos 8,5% até lá e, a equipe de pesquisa econômica do Itaú, fala em 9%.

“A nosso ver, o Banco Central está correto ao indicar que a taxa de juros deve ser elevada para patamar restritivo”, escreveram os economistas do Itaú em relatório, mencionando que há ainda vários riscos que pairam sobre o horizonte dos juros e os pressionam para continuar subindo.

“O cenário inflacionário continuou se deteriorando e os riscos permanecem elevados. A situação hídrica gera pressão sobre a inflação corrente, via aumento das contas de luz, e também sobre a dinâmica de preços do ano que vem (…). Adicionalmente, as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas, em especial no que diz respeito ao cumprimento do teto de gastos em 2022, resultam em pressão mais duradoura sobre a taxa de câmbio”, diz o texto.