O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado  que o presidente Jair Bolsonaro atrapalhou as negociações do acordo de fornecimento de vacinas contra a covid-19 para o Ministério da Saúde e também o desenvolvimento da Coronavac.

Em 21 de outubro, Bolsonaro disse que não compraria a “vacina chinesa” mesmo que ela fosse aprovada pela Anvisa. Segundo Covas, essa declaração pública mudou “a perspectiva do próprio ministério”. “Não houve mais progresso nessas tratativas até 7 de janeiro, quando o contrato foi de fato assinado”, disse. Segundo Covas, havia um documento em 19 de outubro em que o ministério se comprometia a incorporar a Coronavac ao Programa Nacional de Imunização.

O presidente disse também que não compraria a “vacina do Doria”, em referência ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu adversário político. O Butantan é vinculado ao governo paulista.

Em depoimento à CPI na última semana, Eduardo Pazuello disse que as declarações de Bolsonaro contra a Coronavac não atrapalharam nas negociações com o Butantan.

Antes da manifestação do presidente, o Butantan chegou a fazer uma nova oferta, em 7 de outubro, de 100 milhões de doses, sendo que 45 milhões seriam produzidas até dezembro de 2020, 15 milhões de doses até fevereiro e 40 milhões até maio.

“Essa inflexão nos causou frustração, mas voltamos ao Butantan e continuamos nosso projeto. Isso não foi um impedimento, mas nos gerou dificuldades”, disse. Covas afirmou que o instituto fez a 1ª oferta de vacinas ao Ministério da Saúde em 30 de julho, de 60 milhões de doses até o final de 2020. Como não houve resposta, o órgão reenviou a proposta em agosto.

Nesse novo contato, o Butantan pediu ajuda financeira no valor de R$ 80 milhões para os estudos clínicos da vacina no Brasil e recursos para a reforma de uma fábrica. Porém, esses pedidos não tiveram resposta concreta, apenas sinalizações de que o ministério analisaria os pedidos.

Questionado pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), sobre se as declarações contrárias à China por integrantes do governo atrapalharam na liberação de insumos, Covas disse que “cada declaração que ocorre no Brasil repercute na imprensa da China”. “Isso reflete nas dificuldades burocráticas, que eram resolvidas em 15 dias, agora demoram mais de um mês. Nós sentimos isso. A Fiocruz também”, disse. Ele lembrou que a China é o maior exportador de vacinas do mundo.

Covas afirmou que a troca no Itamaraty, com a saída de Ernesto Araújo e chegada de Carlos França, melhorou a relação com os chineses.

Covas disse também que a campanha de desinformação feita nas redes sociais contra a Coronavac atrapalhou o recrutamento de voluntários para os testes clínicos do imunizante. O próprio presidente chegou a apoiar mensagens nesse sentido.

De acordo com o diretor do Butantan, o desenvolvimento da vacina foi viabilizado com ajuda do governo de São Paulo. Covas disse ainda que em dezembro, o instituto já tinha produzido 5,5 milhões de doses e havia outras 4 milhões em processamento. “Poderíamos ter começado a vacinação antes e muitas vezes declarei em público que o Brasil poderia ter sido o 1º a começar a vacinar. Para nós, era um pouco inusitado ter uma vacina não incorporada ao PNI”, disse.

Com o atraso na assinatura do contrato com o Ministério da Saúde, o cronograma de vacinação com a Coronavac passou de maio para setembro. Covas, no entanto, disse que os atuais problemas que o Brasil e outros países têm enfrentado para aquisição dos insumos básicos para a produção dos imunizantes podem atrasar essa previsão. Ele disse que não há ainda a programação de entrega de vacinas para junho e que não é possível garantir que o contrato de fornecimento de 56 milhões de doses será cumprido até setembro.

Covas disse à CPI que o Butantan já havia iniciado conversas com o laboratório chinês Sinovac em 2019, antes mesmo do início da pandemia, para o desenvolvimento de outros tipos de vacina. Porém, com o aparecimento do coronavírus, começaram as tratativas para estabelecer parceria no desenvolvimento de um imunizante para o novo vírus.