A taxa de crescimento da disseminação da Covid-19 no Brasil está entre os 25% piores países do mundo e o aumento da letalidade é o pior da América Latina, segundo um estudo feito pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS) — um grupo de pesquisa formado por cientistas da PUC-Rio, do InCor, da Fiocruz, da Faculdade de Medicina da USP e do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, entre outras instituições.

A análise técnica do NOIS comparou períodos equivalentes nos países a partir do início da epidemia, usando como parâmetro de ‘dia 1’ o primeiro dia em que foram registrados 50 casos em cada país, acompanhando o padrão da base de dados universidade John Hopkins, nos EUA.

O estudo usou os dados de taxas de crescimento da doença e de letalidade entre os dias 14 de abril a 4 de maio no Brasil, que correspondem ao período entre os dias 33 e 53 da epidemia.

Comparados com os dados do período equivalente em outros 40 países, as taxas no Brasil são muito preocupantes, dizem os pesquisadores — as taxas de crescimento da epidemia brasileiras o colocam entre os 10 piores países (25% piores do total de 40) no dia 53 da doença.

“No período pesquisado, era esperada uma suavização das curvas de crescimento de novos casos e, consequentemente, a diminuição da taxa de crescimento”, diz o estudo, mas isso não aconteceu no Brasil.

No dia 33 desde o início da epidemia, a média de crescimento nos outros países era de 4,3% ao dia — crescimento que caiu para 1,6% no dia 53 desde o início da epidemia.

Já no Brasil, no dia 33 (14/04) desde o início da epidemia a taxa de crescimento era de 7,8% e essa taxa caiu para 6,7% no dia 53 (04/05).

“Ou seja, não houve uma redução significativa, como observada nos demais países e o número de casos no Brasil cresceu mais que a taxa mediana dos países”, afirma a análise técnica.

Entre os dias 44 (25/04) e 49 (30/04) desde o início da epidemia, o Brasil teve a maior taxa de crescimento entre os países comparados.

Taxa de letalidade

“No que diz respeito aos óbitos, a situação se repete: o Brasil apresenta taxas [de letalidade] dentre os piores países pesquisados”, diz o estudo.

Em comparação com os países da América do Sul, o Brasil se encontra em situação ainda pior: em 1º lugar na taxa de letalidade e em 2º em crescimento. Foram comparados outros nove países do continente: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

“Em crescimento da doença, o Brasil perde apenas para o Peru. Este país, no entanto, apresenta baixas taxas de letalidade como resultado do alto índice de testagem e, em consequência, a mais baixa taxa de subnotificação entre os países estudados”, diz a análise.

O país com as menores taxas de crescimento e um maior controle da doença é o Uruguai, segundo a análise.

“Compreender a progressão da covid-19 é fundamental para um planejamento racional da alocação de recursos e para o combate à doença”, diz o estudo.

Situação do Brasil piorou nos últimos dias

Ao analisar os estudos feitos anteriormente pelo NOIS no início da epidemia , os pesquisadores concluíram que a taxa de crescimento de casos confirmados de covid-19 no Brasil inicialmente estava muito próxima da de outros países, porém, passou a ser maior a partir de 15 de março.

“Como este fato poderia ter sido pontual em relação apenas aos países da cesta escolhida (no estudo anterior), fez-se uma análise comparativa com outros 40 países, o que corroborou a percepção de que a evolução da covid-19 no Brasil tem piorado”, diz a pesquisa.

“O país apresentou taxas de crescimento de casos confirmados e de letalidade superiores a 75% dos outros países. O crescimento diário de número de mortes do Brasil também é um dos piores entre os países analisados, posicionando-o entre os países onde a epidemia cresce mais rápido.”

Para entender a comparação

A taxa de crescimento é calculada conforme o aumento percentual ocorrido de um dia em relação ao dia anterior; quanto maior esta taxa, maior o acréscimo de casos confirmados entre os dois dias.

Além disso, o estudo considera somente os casos oficiais registrados, ou seja, os índices de crescimento podem ser ainda maiores devido à subnotificação.

Os pesquisadores comparam os períodos nos países a partir do início da epidemia, já que a doença chegou a cada região do mundo em datas diferentes.

O padrão de escolher o primeiro dia com 50 casos registrados como início da epidemia é adotado, segundo o NOIS, com o objetivo de permitir a análise do comportamento de cada país no mesmo momento da evolução doença — e é um padrão mundial que vem sido adotado por diversos pesquisadores.

“Como a doença apareceu em datas diferentes em diversos países, este parâmetro possibilita a comparação equivalente dos dados de evolução e letalidade da doença”, diz o grupo.

Nesta última análise técnica, uma de diversas que o grupo vem fazendo, o objetivo é entender a forma como o Brasil evoluiu nos últimos 20 dias.

“Antes desse período, o país não se encontrava na situação que se encontra hoje quando comparado com os demais países”, diz o grupo.

Segundo dados da universidade Johns Hopkins, nos EUA, os últimos 20 dias no Brasil correspondem aos dias 33 e 53 desde o início da epidemia.

Para análise das taxas de crescimento foram comparados 40 países: Brasil, Alemanha, Austrália, Áustria, Bahrein, Bélgica, Canadá, Catar, China, Coreia do Sul, Dinamarca, Egito, Emirados Árabes Unidos, Eslovênia, Espanha, EUA, Filipinas, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Índia, Irã, Iraque, Islândia, Israel, Itália, Japão, Kuwait, Líbano, Malásia, Noruega, Portugal, R. Tcheca, R. Unido, San Marino, Singapura, Suécia, Suíça e Tailândia.

Já a taxa de letalidade foi comparada com a de outros 30 países que tinham mais de 50 mortos no dia 33 desde o início da epidemia: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, China, Coreia do Sul, Dinamarca, Egito, Eslovênia, Espanha, EUA, Filipinas, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Índia, Irã, Iraque, Israel, Itália, Japão, Malásia, Noruega, Portugal, República Tcheca, Reino Unido, Suécia e Suíça.