Embaixador em Pequim entre 2004 e 2008 e hoje presidente do CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China), o embaixador Luiz Augusto Castro Neves afirma “não haver inocentes” na disputa pelo controle da rede de transmissão de 5G no Brasil. O leilão previsto para julho, em sua opinião, será uma espécie de “vale tudo” entre os concorrentes – todos capazes de capturar dados sensíveis.

“Inclusive a chinesa Huawei, que quase chegou a ser vetada pelo governo Jair Bolsonaro de participar da disputa, por influência do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos”, afirmou.

 “Alguns concorrentes chegaram a dizer que o sistema chinês teria o chamado ‘backdoor’, uma espécie de porta dos fundos, para extrair os segredos tecnológicos e de interesse da segurança internacional”, afirmou Castro Neves ao Poder360. “Ora, todo mundo tem backdoor. Quem deve prover a nossa segurança somos nós mesmos, em vez de achar que fulano é mais confiável que beltrano.”

Há dois anos, Castro Neves mencionou que a China sabe o que quer do Brasil, mas o Brasil não sabe o que quer da China. A máxima continua em vigor. Mas há fatos, para ele, que se impõem até mesmo quando as relações bilaterais são arranhadas por críticas do presidente Jair Bolsonaro: a China é maior parceiro comercial do país e a principal fonte de investimentos estrangeiros na última década.

“As frases mal pensadas se rendem à realidade”, disse.

Para o embaixador, não foram essas “frases mal pensadas” que causaram atraso nos embarques da China de vacinas e insumos para o Brasil. Ou seja, em sua opinião, não houve retaliação de Pequim. O que pesou foi a falta de competência do governo brasileiro em prever o tamanho da pandemia e assegurar os instrumentos para combatê-la.

“Quem atrasou a vinda das vacinas foi o lado brasileiro. Não só a China, mas outros países e empresas, como a Pfizer, já estavam oferecendo vacinas, e nós fomos adiando a decisão a respeito”, afirmou.

Castro Neves observa que, nas relações com a China, o Brasil “é um pouco improvisador” e não foi ainda capaz de traçar uma estratégia de médio e longo prazo. Novamente, os fatos estão escancarados diante dos formuladores de políticas do país.

O desempenho chinês nas últimas 4 décadas puxou o centro de desenvolvimento econômico mundial do Atlântico Norte para a Ásia. A China cresceu a 2 dígitos por cerca de 30 anos, seu PIB (Produto Interno Bruto) foi multiplicado por 25 no período e, mesmo crescendo a 1 dígito, sua economia se expande mais do que a dos 5 países mais desenvolvidos.

Para o presidente do CEBC, não é provável uma disputa pela hegemonia global entre China e Estados Unidos nos moldes da Guerra Fria (1945-1989), em que o jogo era de soma zero – quando um ganhava, o outro necessariamente perdia. Em parte, porque há cooperação e certa integração econômica entre os dois países – 95% da produção da Apple se dá na China, por exemplo.

A China tampouco será a mesma potência regida por um poder centralizado, onde as liberdades individuais são limitadas, e o direito à oposição inexiste. “O sucesso econômico e a geração de prosperidade pode ser uma das formas de angariar legitimidade política, e certamente o governo chinês leva isso em consideração”, afirma. “Mas o regime será muito diferente daqui a 30 anos.”