Além de Lula, 97 candidaturas foram barradas com base na Lei da Ficha Limpa

Além da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), outras 97 foram consideradas irregulares pela Justiça Eleitoral, com base na Lei da Ficha Limpa, para todos os cargos. Quase dois terços (63) para deputado estadual ou distrital. Apesar de terem tido as candidaturas indeferidas, 38 ainda estão aptos a participar da votação — terão, portanto, os nomes nas urnas eletrônicas —, porque entraram com recurso contra a decisão que negou o registro.

O senador Acir Gurgacz (PDT), por exemplo, conseguiu uma liminar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que lhe permite concorrer ao governo de Rondônia, apesar de ter sido considerado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral do estado (TRE-RO), na última quinta-feira. Assim, ele pode continuar participando normalmente do pleito, inclusive com propagandas no horário eleitoral gratuito. Gurgacz foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por crime contra o sistema financeiro. A defesa dele afirmou que o TRE não considerou os recursos apresentados no processo a que responde no Supremo.

O TSE precisa decidir, em plenário, se mantém ou não a candidatura daqueles que entraram com recurso. Em seguida, o candidato ainda pode recorrer ao Supremo, detalhou o especialista em direito eleitoral Marcellus Ferreira Pinto, do escritório Nelson Wilians e Advogados Associados. O mesmo trâmite pelo qual Lula passou. A diferença é que, no caso dos 38 que atualmente se ancoram em recursos para manter as candidaturas, acabou ontem o prazo para que os partidos lançassem outros nomes no lugar. Eles não poderão ser substituídos, caso a Justiça determine, em última instância, que o atual postulante não pode participar do pleito.

O problema pode ser ainda maior porque, se a decisão só for tomada depois do segundo turno, e um candidato que concorre nessas condições vencer, será necessário convocar outra eleição. “No caso do candidato a governador, por exemplo, se ele for eleito, tomar posse e tiver o registro negado depois, ele perde o diploma e vai ter outra eleição no estado”, explicou o advogado. O que não é impossível de acontecer em Rondônia, já que Gurgacz ocupa o segundo lugar na pesquisa de intenção de votos para governador divulgada ontem pelo Ibope.

Para Ferreira Pinto, o filtro deveria começar pelos partidos, que insistem em lançar candidatos ficha-suja por estratégia política. “O número surpreende, porque os requisitos de inelegibilidade são objetivos, conhecidos por toda a sociedade. Os partidos sabem disso e, mesmo assim, jogam com a regra eleitoral, porque muitos desses 98 são puxadores de votos”, acredita.

A não ser por Lula e Gurgacz, os nomes impugnados buscam uma vaga no Legislativo — distrital, estadual ou federal. Pelo levantamento do TSE, os partidos que mais tiveram candidatos barrados pela Lei da Ficha Limpa foram o MDB (dois deputados distritais, dois federais e quatro estaduais), o Podemos (seis deputados estaduais e dois federais), o PSD (sete estaduais) e o Patriota (quatro federais e três estaduais).

Oração da propina

Do Distrito Federal, sete candidaturas foram questionadas quanto à possibilidade de concorrer devido à mesma legislação que barrou Lula, todas para deputados distritais. Quatro já foram retirados das urnas e declarados inaptos a concorrer: Dr. Jair (MDB), Gurgel (PMN), Sgt. Jaidê (PSC) e Tales Recanto (PTC). Outros três entraram com recurso e, por enquanto, estão aptos: Professor Adimário Teodoro (PRB), Landim (PRB) e Brunelli (MDB). Rubens César Brunelli ficou conhecido pela Oração da propina, quando, ao lado do então presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, reza pela vida de Durval Barbosa, que havia repassado dinheiro para eles. “Somos gratos pela vida do Durval, por ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para nossa cidade”, orou Brunelli.

Outro candidato considerado inelegível, que também entrou com recurso, é Jurandir Marinho (PRTB-RN), único postulante ao Senado nessas condições. Ele foi enquadrado devido a um convênio firmado com a Funasa, entre 2000 e 2001, quando era prefeito de Canguaretama. E recorreu da decisão por entender que o cidadão só não pode ser candidato se tiver sentença condenatória julgada em segunda instância.

Os motivos para cassação da candidatura são vários. A Lei da Ficha Limpa é apenas um dos instrumentos para barrar candidaturas indevidas dentro do universo de 28,9 mil registros protocolados no TSE. O mais comum, segundo a Corte, é a ausência de requisito de registro. Foram 1.913 casos como esse. Houve, ainda, três impugnações por abuso de poder, duas delas com recursos em andamento.

Eleitores denunciam

Não foram apenas as denúncias contra a Lei da Ficha Limpa que chegaram ao TSE. Nas últimas três semanas, foram apresentadas 6.037 denúncias de infrações eleitorais ao tribunal. Do total, foram noticiadas 3.978 possíveis irregularidades relativas a propagandas eleitorais nas eleições 2018. Em seguida, aparecem denúncias contra crimes eleitorais (735) supostamente cometidos por candidatos.

As infrações foram denunciadas por eleitores por meio do aplicativo Pardal, desenvolvido pela Justiça Eleitoral para que os eleitores atuem como fiscais de candidatos e partidos. Entre os estados, São Paulo é recordista em denúncias no aplicativo, com um total de 789 registros. O maior colégio eleitoral do país também lidera as denúncias relativas a crimes eleitorais (103). O segundo estado com o maior número de denúncias é Pernambuco: 756 registros. Desses, 564 são referentes a propagandas.

As informações têm o objetivo de facilitar o trabalho de apuração dos TREs e do Ministério Público Eleitoral. Em 2016, a seis dias do segundo turno das eleições municipais, o TSE recebeu 61.961 registros de irregularidades pelo aplicativo. Mais de 29 mil foram denúncias sobre irregularidades em propagandas e 10.636 a respeito de crimes eleitorais.


Luiza Trajano lança app de política: "Mulher vota em mulher, sim"

O Grupo Mulheres do Brasil, presidido por Luiza Helena Trajano, dona da Magazine Luiza, lançou em 2016 uma plataforma digital para divulgar as candidaturas das vereadoras do estado de São Paulo. Esse ano, eles lançam o  Apartidárias 2.0: um aplicativo que mapeia e divulga às candidaturas de mulheres nas eleições deste ano – com foco nos projetos de deputadas.

"O objetivo da plataforma é verificar se as candidatas realmente estão fazendo campanha, se estão recebendo apoio, dinheiro do partido ou se estão apenas preenchendo cota, o que não queremos. Queremos candidatas de verdade e não apenas mulheres para preencherem cargos", afirma Luiza à Universa.

Para verificar se mulheres não estão sendo usadas de "laranja" nessas eleições, Luiza e Lígia Pinto Sica, líder do comitê de políticas públicas do Grupo Mulheres do Brasil, encaminharam um questionário (que detalhava o projeto de cada uma) para as 8500 candidatas e seguem aguardando as respostas. O documento tem como objetivo auxiliar os usuários a encontrar planos de governo que mais julgam importantes e, consequentemente, incentivar o voto nas candidatas do sexo masculino.

Sem marketing de inclusão

Como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou, em maio, que 30% do fundo de campanhas sejam gastos em candidaturas femininas, o grupo de Trajano quer checar se isso realmente está acontecendo. Caso percebam que o repasse não está sendo igualitário no partido ou que a candidata não está fazendo campanha, prometem enviar notificações via Twitter e também WhatsApp aos partidos. "Poucas mulheres saem com candidaturas fortes o suficiente para serem vistas. A gente enxerga a Marina Silva (Rede) porque ela tem dinheiro para investir na campanha, está na mídia, tem uma história na vida política. Muitas vezes o partido diz que está priorizando a candidatura de mulheres, mas não democraticamente. Então, encaminhamos notificação", explica Lígia, que também é coordenadora do Centro de Pesquisa em Direito, Gênero e Identidade da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Além de incentivar a participação de mulheres na política, as criadoras têm como objetivo acabar com a tese de que mulher não vota em mulher.

"Mulher precisa ser vista, afinal, representamos 53% dos eleitores, não faz sentido termos apenas 10% no Congresso. Queremos que o número das cadeiras femininas aumente, que seja um espaço de diversidade. Que sejamos representadas. É preciso ter representatividade de mulheres em cargos políticos, na verdade, em todos os lugares para que haja equilíbrio", defende Luiza, que acredita que o projeto tira um pouco a crença de que mulheres não são amigas. .

"Enxergamos poucas mulheres porque elas nunca foram apresentadas como modelos de políticas. O machismo está dentro de homens e mulheres", opina Lígia, que vê como marketing o fato de muitos candidatos terem escolhido mulheres como vice. "A ideia é a seguinte: não vamos abrir mão do poder, mas vamos compartilhar colocando mulher como vice. Aí a imagem fica melhor e passa a ideia de inclusão. Aos olhos daquele que é pouco crítico, e nossa sociedade é assim, a estratégia pega bem."

Sem combinações

Diferentemente de outras ferramentas já divulgadas, o Apartidárias 2.0 não faz match com candidata, recorte ideológico ou partidário. "Não estamos lançando candidatas", afirma Luiza. "Também não filtramos as pautas delas. Inclusive, queremos que elas falem, exponham seus projetos no site. E confesso que tem sido bem complicado acessá-las. Conseguimos contato com 35% até agora", lamenta Lígia.

Para auxiliar a sociedade na busca pelas candidatas, o Mulheres do Brasil criou alguns filtros que julga essenciais. Estão lá: economia, educação, corrupção, inclusão social, meio ambiente, segurança, saúde, cidadania, combate à fome, combate à gravidez na infância, creches, desemprego, educação anti-sexista, educação básica, educação política, educação sexual, empoderamento econômico da mulher, empreendedorismo feminino, inclusão social, inclusão de pessoas com deficiência, imigrantes, legalização do aborto, reforma política e transparência do gasto público.

Ser democrático é todo mundo estar representado

"Quando você olha no Congresso e só vê terno preto e um monte de cabecinha branca, alguma coisa está errada. Queremos ver homens e mulheres negros, todas as orientações homoafetivas, todos os modelos de família representados. Acreditamos em uma política inclusiva. É preciso dar voz para mulheres", diz Lígia, que conta com apoio da presidente Luiza Trajano.

"É preciso que a sociedade seja mais protagonista e pare de ficar só reclamando de política. Só acredito que o Brasil vai mudar quando assumirmos o país como nosso e lutarmos por programas que sejam bons para todos independentemente de partido. Não são só projetos contra violência a mulher ou de educação que devem ir para frente, mas programas de tecnologia e ciência também", finaliza a dona da Magazine Luiza, evitando revelar seu voto. "O primeiro turno ainda é muito global, mas vamos ver o que irá ocorrer no segundo.


Alckmin promete reativar 24 mil leitos de internação do SUS

O candidato à Presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin, promete reativar cerca de 24 mil leitos de internação do SUS (Sistema Único Saúde) que foram fechados ao longo dos últimos anos. A promessa não aparece no programa de governo do candidato, mas vem sendo feita pelo tucano ao longo da campanha, em entrevistas e nas redes sociais.

Qual é o contexto

Nos últimos oito anos, foram desativados 34,2 mil leitos de internação no SUS (Sistema Único de Saúde) em todo o país, segundo dados apurados pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) junto ao CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), do Ministério da Saúde.

Os leitos de internação do SUS são aqueles destinados a quem precisa permanecer num hospital por mais de 24 horas. Eles podem estar em instituições de administração pública, como hospitais estaduais e municipais, ou em instituições privadas - hospitais particulares e entidades sem fins lucrativos, como as Santas Casas. "Existem leitos que são de hospitais públicos, geridos diretamente pelos Estado, e leitos que são contratados pelo SUS em hospitais privados", observa Ana Maria Malik, coordenadora da GVSaúde, da Fundação Getulio Vargas.

Em maio de 2018, considerando todas as unidades de internação em funcionamento no SUS, havia 44% sob administração privada e 55% sob administração pública. Os leitos do SUS nos hospitais privados estão concentrados nas entidades sem fins lucrativos, como mostra o levantamento "Cenário dos Hospitais no Brasil", feito pela FBH (Federação Brasileira de Hospitais). Nos hospitais que visam lucro, apenas quatro em cada dez leitos tem vínculo com o SUS. Nos hospitais filantrópicos, como as Santas Casas, são nove em cada dez leitos para a rede pública.

Dados dos últimos oito anos até maio de 2018, disponíveis no DataSUS, mostram que houve uma perda de 42,9 mil leitos do SUS nas instituições privadas. Nos hospitais públicos, porém, a quantidade de unidades de internação subiu. Foram criados 8.670 leitos no período, com o saldo de 34,2 mil leitos de internação desativados. Isso significa que a queda no número de leitos se concentrou nos hospitais particulares que atendem pacientes do SUS.

"Esses leitos estão sumindo em hospitais privados que fecharam, ou que estão trabalhando com um percentual menor de oferta ao SUS", avalia Bruno Sobral de Carvalho, economista-chefe da FBH. O estudo da federação mostra que o país tinha 430 hospitais privados a menos em janeiro deste ano em comparação com janeiro de 2010.

Para o coordenador da Comissão Nacional Pró-SUS do CFM, Donizetti Giamberardino, essas instituições fecharam por problemas de financiamento e gestão. Boa parte dos hospitais que fecharam eram unidades com menos de 50 leitos sem sustentabilidade financeira. Esses estabelecimentos, segundo ele, não têm escala para se manterem funcionando sem quebrar. "Não houve um planejamento de rede hospitalar no país. Os hospitais foram abertos por critérios particulares ou políticos dos municípios. Nos hospitais menores há ociosidade, e nos de maior porte faltam leitos", diz.

O especialista alerta ainda para uma realidade que não aparece nos números. "Muitas vezes, principalmente nos hospitais públicos, o número de leitos não é real. Você pode ter um hospital de 600 leitos, mas somente 400 estão ativos", afirma Giamberardino. O sistema não considera um determinado leito fechado, mas ele não está funcionando, na prática, por falta de equipamentos, suprimentos ou equipe.

Como o candidato vai cumprir a promessa

Embora o país tenha perdido 34,2 mil leitos do SUS entre 2010 e 2018, de acordo com os dados compilados pelo CFM, a proposta de Alckmin, segundo sua assessoria, foi feita com base no levantamento anterior, que mostra a redução de 26,6 mil leitos do SUS entre 2010 e 2016.

Em visita ao Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro, na semana passada, Alckmin reforçou a promessa. Na ocasião, citou o número atualizado de leitos fechados e deu outros detalhes sobre a proposta, conforme publicou o jornal O Globo. "Nós temos muitos leitos fechados no Brasil. Mais de 30 mil que não funcionam estão ociosos por falta de custeio. Você tem prédios, equipamentos, recursos humanos e precisa ter custeio. A primeira tarefa é reabrir. O Rio de Janeiro, por exemplo, perdeu quase 10 mil leitos do SUS, seja dos próprios governos ou de entidades filantrópicas", disse o candidato. Os números estão corretos: o Rio, de fato, perdeu 9.569 leitos nos últimos oito anos, de acordo com dados do CFM.

A assessoria de Alckmin informa que o candidato pretende trabalhar regionalmente para reabrir os leitos fechados, utilizando as redes de hospitais existentes, que serão classificados como estruturantes, estratégicos, de apoio ou outros. A campanha não explica, no entanto, se seriam apenas públicos, ou também os privados.

"Os hospitais estruturantes vão atender demandas de alta complexidade. Os estratégicos, os casos de média complexidade. Os hospitais de apoio serão voltados à referência e contra referência com as UBSs e também de retaguarda para os hospitais estratégicos e estruturantes. Os hospitais na categoria "outros" poderão ser transformados em leitos de longa permanência, de retaguarda, de hospital-dia, etc.", diz a assessoria de Alckmin.

A campanha não informou quanto será preciso investir para cumprir a promessa. Disse apenas que, se eleito, Alckmin terá como prioridade o ajuste das contas públicas e a reativação da economia. Em consequência, o PIB (Produto Interno Bruto) voltará a crescer e a redução de desperdícios aumentará os recursos disponíveis. "Melhorando a gestão e a fiscalização, haverá mais dinheiro para o SUS", afirma.

O que dá pra fazer

A reativação dos leitos desativados do SUS poderá ser feita de duas maneiras, de acordo com Bruno Sobral de Carvalho, da FBH. "Depende de os hospitais privados reabrirem esses leitos de alguma forma ou de o setor público colocar mais leitos à disposição (do público)", diz.

O governo tem autonomia para investir na abertura de novos hospitais federais ou na ampliação de leitos nos estabelecimentos já em funcionamento. Também pode equipar os hospitais que têm leitos abertos, mas que, na prática, não funcionam. Porém, o governo não pode simplesmente mandar o hospital privado reabrir leitos, afirma Carvalho. "O governo federal pode sinalizar uma boa relação entre o SUS e os hospitais privados, mas isso também depende de estados e municípios", acrescenta.

O especialista lembra que as políticas públicas e as parcerias do SUS com os hospitais privados são feitas no âmbito estadual ou municipal. "Por definição, o SUS é descentralizado", afirma. Isso significa que a reorganização regional dos hospitais proposta por Alckmin pode ser sugerida e liderada pelo governo federal, mas dependerá do apoio das secretarias estaduais e municipais de saúde para ser implementada.

Pela Lei Orgânica da Saúde (nº 8.808/1990), a União formula as políticas nacionais, mas a implementação é feita por seus parceiros (estados, municípios, ONGs e iniciativa privada). A relação entre a União, estados e municípios não tem uma hierarquia. Os entes federados negociam e entram em acordo sobre ações, serviços, organização do atendimento e outras relações dentro do sistema público de saúde.

Os hospitais privados parceiros, que destinam uma parte ou todas as suas unidades de internação para uso do SUS, têm um contrato com o sistema e recebem pelos serviços que prestam à rede pública de saúde. Porém, as entidades privadas de saúde reclamam que a tabela de remuneração está defasada há anos. "Esse contrato, na maioria das vezes, não tem um equilíbrio financeiro. Há custeio de 60% a 65% das despesas. Ou seja,um prejuízo de 35%", afirma Donizetti Giamberardino, do CFM.

Na semana passada, Alckmin chegou a prometer a revisão da tabela SUS. "Vamos fazer um pente fino na questão da tabela do SUS, porque tem alguns procedimentos que estão menos defasados e outros que estão muito defasados. Então, vamos corrigir a tabela do SUS para que o serviço seja melhor prestado e o acesso mais rápido", afirmou o candidato.

Avaliação: Dá pra fazer, mas depende de estados e municípios.


Centrão se divide sobre estratégia para salvar campanha de Alckmin

Fiador da candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência, o bloco conhecido como Centrão está desnorteado com o imobilismo do tucano nas pesquisas de intenção de voto. Em conversas reservadas, aliados avaliam que, se Alckmin não reagir nem mostrar fôlego em uma semana, a campanha entrará em fase de agonia.

Formado por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade, o Centrão se divide agora sobre a estratégia a ser adotada, na tentativa de fazer o ex-governador de São Paulo decolar. A maior parte do grupo acha que é preciso concentrar o ataque no deputado Jair Bolsonaro (PSL), líder nas pesquisas de intenção de voto, e pregar o voto útil com mais vigor, deixando a artilharia pesada contra o petista Fernando Haddad para o final.

Os defensores dessa tática argumentam que Alckmin só chegará ao segundo turno se conseguir desconstruir Bolsonaro, mostrando também que o capitão reformado, se eleito, não terá governabilidade. Para eles, esse movimento deve ser reforçado, mesmo com o deputado internado. Desde que Bolsonaro sofreu um atentado e foi atingido por uma facada em Juiz de Fora (MG), no último dia 6, a equipe do PSDB deu uma trégua. Agora, no entanto, decidiu retomar a ofensiva.

Líderes do Centrão foram consultados para discutir mudanças no roteiro da campanha de Alckmin. Nos bastidores, porém, alguns dirigentes do bloco pedem que o tucano reforce as críticas a Michel Temer, para se descolar da imensa  impopularidade do presidente. Outros querem que o bombardeio na direção de Haddad seja feito o quanto antes.

Alckmin vai investir cada vez mais na mensagem de que é o único concorrente capaz de derrotar o PT no segundo turno. Sem conseguir avançar nas pesquisas de intenção de voto, e embolado com Ciro Gomes (PDT) e Haddad (PT), o tucano tenta, ainda, atrair votos do pelotão que está empatado com 3%, como João Amoêdo (Novo), Henrique Meirelles (MDB) e Álvaro Dias (Podemos).

Não são apenas os partidos do Centrão, porém, que mostram desconfiança em relação à capacidade de Alckmin chegar à segunda etapa da corrida. “Voto útil só pega se o candidato tiver credibilidade”, afirmou o senador Cristovam Buarque (PPS-DF), que concorre à reeleição. “Alckmin tem credibilidade para dizer que é o mais preparado, mas não para mostrar mais chance de ir para o segundo turno e derrotar Bolsonaro.”

O PPS está na coligação que apoia Alckmin, mas Cristovam faz críticas à campanha do tucano. Para o senador, a equipe do ex-governador não destacou a plataforma de governo para a Presidência e tem apresentado um programa sem emoção. “Agora, estamos caminhando entre a catástrofe e o desastre. Tudo indica que teremos de optar entre o furacão Florence e o tufão Mangkhut”, provocou o senador.  “A aposta feita para ganhar tempo de TV, fechando alianças que incomodam a população, termina sendo contraproducente”, emendou ele, em uma referência ao Centrão. Por ter obtido a adesão do grupo, Alckmin conquistou o maior tempo na propaganda de TV, de 5 minutos e 32 segundos por bloco, o que corresponde a 40% de todo o espaço do horário eleitoral.


De bitcoin a jegue, de iPhone a coleção de armas: veja bens dos candidatos nestas eleições

Enquanto 38% dos candidatos nas eleições deste ano declararam não ter nenhum bem, outros não pouparam detalhes na hora de enviar seus dados de patrimônio para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como a lei eleitoral não define o que deve ser informado, a lista está cheia de itens curiosos, inusitados ou mesmo inúteis. A relação tem de jegues a bitcoins, passando por jatinhos e 321 bens que valem menos de R$ 1.

Em linhas telefônicas fixas – que podem dar direito a ações das companhias telefônicas – 252 candidatos declaram ter R$ 671 mil.

Postulante a deputado estadual pelo PSDB de Minas Gerais, Mourão registrou R$ 40,4 mil nessa categoria. Logo depois aparece o candidato a deputado federal Adalberto Cavalcanti (Avante-PE), com R$ 20 mil, seguido pela também pleiteante à Câmara dos Deputados Angela Amin (PP-SC) e pelo candidato ao Senado Esperidião Amin (PP-SC), com R$ 16,8 mil cada um.

Mais de acordo com a realidade atual, 11 candidatos declaram seus aparelhos de smartphone ao TSE. Ao todo, foram declarados três iPhone: um modelo 8 Plus (R$ 5,3 mil), um 8 (R$ 3,4 mil) e outro 7 (R$ 2 mil). Outra marca citada foi a Samsung, com cinco aparições: dois aparelhos modelo J7 (R$ 1,2 mil e R$ 999), um A7 (R$ 1,3 mil), um J5 (R$ 799) e um S5 (R$ 600).

Animais variados

Mais de 50 candidatos informam ter animais em seu patrimônio. Vários outros dizem ser donos de fazendas, mas não detalham o rebanho. O maior da lista, avaliado em R$ 5 milhões, é de Cacildo (PP), que disputa uma vaga na Assembleia de Tocantins. São 5 mil cabeças de gado “entre bezerros(as), vacas, novilhas, touros, bois e animais de serviços”.

Entre as dezenas de milhares de cabeças de gado declaradas, destacam-se também outras espécies. Como os 50 cavalos da raça Manga Larga, no valor de R$ 150 mil, do deputado federal Arthur Maia (DEM-BA), candidato à reeleição. E as 60 cabeças de búfalos de Gentil Paske, candidato à Assembleia do Paraná pelo PV, avaliadas em R$ 100 mil.

Na lista, aparecem também as cabeças de asininos, equinos e muares de Vilmar de Oliveiras, candidato a deputado estadual no Tocantins pelo Solidariedade. São 58 jegues, cavalos e mulas avaliados em R$ 29 mil. Oliveiras é dono ainda de 2.592 bovinos e bufalinos (R$ 3,8 milhões), 163 caprinos e ovinos (R$ 16,3 mil) e 33 suínos (R$ 3,3 mil).

Arsenal

Candidato a deputado estadual pelo PHS no Pará, Dr. Allan Rendeiro declara ter 38 armas de fogo, avaliadas em R$ 101 mil, incluindo fuzis, carabinas, pistolas e revólveres. O arsenal tem peças para tiro esportivo e para colecionadores. Entre os itens estão os antigos fuzis Mauser alemães, as SKS chinesas e as carabinas Winchester norte-americanas.

Apenas cinco candidatos declaram ter armas. Além de Dr. Allan, os concorrentes a vagas de deputado federal Coronel Nilson Bezerra (PTC-PR) e Rodrigo Sousa Costa (Novo-RS) declaram ter uma pistola Taurus .40 e uma Glock 380, respectivamente. O candidato a deputado estadual Professor Reinaldo (PSC-PR) diz ter uma pistola calibre 380. Já o senador Roberto Requião (MDB-PR), que tenta a reeleição, declara ter uma “coleção de armas” no valor de R$ 10 mil.

Aviões, barcos e um drone

Ao todo, 71 candidatos declaram ter aeronaves, no valor de R$ 56,7 milhões. O maior valor é registrado pelo candidato a senador pelo PSDB de Tocantins Ataíde Oliveira: R$ 6,2 milhões. Ele não especifica, no entanto, os detalhes do avião. Em seguida, estão os candidatos a deputado federal Magda Mofatto (PR-GO) e João Gualberto (PSDB-BA).

Dos 190 candidatos que declaram ter embarcações, 51 têm mais de uma. Os concorrentes a vagas de deputado federal Marinaldo Rosendo (PP-PE) e deputado estadual Antonio Rocha (MDB-PA) têm cinco cada um. Rosendo tem motos aquáticas e lanchas avaliadas em R$ 355 mil. Já Rocha tem lancha, catamarã e barcos estimados em R$ 340 mil. Mas as frotas não chegam ao valor do barco mais luxuoso.

O candidato ao Senado pelo Paraná Professor Oriovisto Guimarães (Podemos) é o dono de um Intermarine 60, avaliado em R$ 4,9 milhões. Com comprimento de 60 pés (18,4 m) e capacidade para 21 pessoas, a embarcação tem três suítes e alcança velocidade máxima de 33 nós (61 km/h). O empresário paranaense é um dos fundadores do Grupo Positivo, que comandou por 40 anos.

Ele é seguido pelo advogado e político Sergio Zveiter (DEM), candidato à primeira suplência do Senado pelo RJ, que declara R$ 4,8 milhões em “embarcações”, mas não especifica quais. Em terceiro, está o presidenciável João Amoêdo, que declara R$ 4,1 milhões na categoria.

Oriovisto Guimarães é dono também do carro mais caro entre os citados nas declarações, um BMW X5 2014/2015, avaliado em R$ 559 mil.

O senador Fernando Collor (PTC) aparece em segundo lugar, com um Range Rover 2012, avaliado em R$ 497 mil. Os carros de luxo estimados em até R$ 3,9 milhões que foram apreendidos e depois devolvidos ao senador em 2016 não constam da declaração. Ele era candidato ao governo de Alagoas, mas desistiu nesta sexta-feira (14).

Entre os veículos há caminhões, carretas, tratores, motos e também um drone. Ícaro Francio Severo, candidato a deputado estadual pelo PSDB em Mato Grosso, declara um “Drone Mavic Pro Fly More Combo”, de R$ 5,6 mil.

Bitcoin e outros valores

Pelo menos sete candidatos declararam ter bitcoins. Desses, seis são do partido Novo e um do PSDB. O maior patrimônio em criptomoedas é do tucano Luiz Hauly Filho, candidato a deputado estadual no Paraná, com R$ 35 mil. Em seguida estão os candidatos a deputado estadual pelo Novo por Minas Gerais Luciana Lopes (R$ 23 mil) e por Sergipe Aurelio Barreto (R$ 12,2 mil).

As criptomoedas superam um investimento bem mais tradicional, o ouro. Apenas três candidatos declaram ter investido no metal, somando, ao todo 370 gramas, declaradas por R$ 20,4 mil. Os candidatos a deputado federal Diego Maia (Novo-DF), com 90 gramas (R$ 12,7 mil), e Professor Dionísio (PDT-PR), com 30 gramas (R$ 4,4 mil), encabeçam a lista. O candidato à primeira suplência do Senado pelo Ceará Gaudencio Lucena (MDB) declara ter 250 gramas em ouro, mas ao valor de apenas R$ 3,2 mil.

Já Professora Adriana, que disputa um cargo de deputada estadual pelo Pros no Paraná, declara uma coleção de moedas "em andamento", no valor de R$ 5 mil.

Baixo valor

Livros, cartas e aparelhos de som em geral têm valores baixos para serem declarados. Mas há exceções. O DJ Naldo, que concorre a uma vaga pelo PSB na Assembléia do Amapá, registra uma aparelhagem de som no valor de R$ 90 mil.

Já o candidato a deputado estadual pelo PPL no Maranhão Sanches informa ter 25 mil livros e outros itens bibliográficos no valor de R$ 250 mil. André Brito, que concorre à Assembleia do RJ pelo MDB, registra uma coleção de cartas de jogo por R$ 20 mil.

Na outra ponta, os candidatos declararam 3,8 mil itens que valem menos de R$ 100 - ao todo, foram registrados este ano 92,5 mil itens. Na lista, há ainda 321 bens que valem menos de R$ 1, incluindo poupanças e contas correntes com saldo de centavos, participações em empresas e ações.

Entre eles, está a “participação com 30.000 cotas de CR$ 1,00 (um cruzeiro), no capital social da Radio Cabugi do Serido LTDA”, do candidato a senador pelo MDB no Rio Grande do Norte Garibaldi Filho. Convertidas para real, as cotas são avaliadas pelo político em R$ 0,01.


TSE concede liminar autorizando candidatura de Garotinho

O ministro Og Fernandes, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), concedeu liminar  no último domingo (16/9), suspendendo a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) que indeferiu o registro de candidatura de Anthony Garotinho (PRP), que concorre ao governo do Estado. A decisão, válida até que o mérito seja julgado, garante que o nome de Garotinho esteja nas urnas e que seus votos sejam considerados válidos.

No último dia 6/9, o TRE-RJ indeferiu o registro atendendo a pedido do Ministério Público Eleitoral (MPE). O órgão considera que Garotinho é inelegível em função de uma condenação do Tribunal de Justiça.

A suspeita recai sobre desvios de R$ 234,4 milhões na área da Saúde nos anos de 2005 e 2006, quando o atual candidato era secretário de Estado. Ele nega envolvimento no caso.

No recurso apresentado ao TSE, a defesa de Anthony Garotinho argumentou que houve falhas no processo que levou a sua condenação. Na peça, também pediu efeito suspensivo da decisão do TRE, “uma vez que a execução do acórdão regional lhe trará (a Garotinho) irreparáveis prejuízos, pois lhe impedirá de efetuar todos os atos relativos à campanha eleitoral, inclusive utilizar o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão e ter seu nome na urna eletrônica”.


Em campanha, candidato do PT ao governo do Paraná é alvo de bomba

O candidato ao governo do Paraná pelo PT, Dr. Rosinha, foi alvo de um ataque a bomba enquanto panfletava no centro de Curitiba, no final da tarde desta quinta-feira, 13. Um vídeo divulgado pela sigla mostra o momento em que a bomba explodiu a poucos metros de Rosinha, que estava acompanhado de outros membros do partido. Ele não ficou ferido.

Na sequência das imagens, o candidato dá um depoimento em que afirma que “um sujeito jogou uma bomba caseira contra o grupo”. “A responsabilidade disso é do ódio que estão construindo no País. É impossível fazer uma campanha eleitoral com esse tipo de coisa. Sou contra qualquer tipo de violência, seja contra candidatos de direita, como ocorreu, ou qualquer outro. É triste isso”, declarou no vídeo.

Este não é o primeiro ato de violência contra petistas no Paraná em campanha para as eleições de 2018. Na segunda-feira, 10, durante ato de campanha do partido no final da tarde também no centro da capital, Jessica Teodoro da Silva, que trabalha panfletando para a sigla desde o início do mês, foi atingida por supostos resquício de rojão. Segundo Jessica, o suspeito de soltar o artifício fugiu. O PT informou que registraria Boletim de Ocorrência sobre a ação.

Na noite de domingo, 9, o advogado Renato Freitas, candidato à deputado estadual pelo PT, foi atingido por balas de borracha da Guarda Municipal (GM) de Curitiba enquanto panfletava numa praça no centro. Os tiros o atingiram na mão esquerda, na barriga e nas costas. Ele também quebrou um dos dedos da mão direta em consequência dos estilhaços das balas.

Renato foi hospitalizado, prestou depoimento na Central de Flagrantes de Curitiba e liberado no mesmo dia. Segundo o candidato expôs em um vídeo no Facebook, ele foi abordado pelos guardas enquanto fazia campanha e, questionado, revidou dizendo que tinha direito de estar ali. Logo na sequência, um dos guardas teria disparado contra ele sem explicações.

Em nota, a GM admitiu o uso do armamento contra o candidato, mas afirmou que Freitas fazia parte de um grupo que “avançou contra os guardas municipais”. A Guarda teria sido acionada por moradores do entorno da praça, “que reclamavam de pessoas fazendo racha de veículos, consumindo e promovendo perturbação do sossego”. Seis guardas atenderam a ocorrência.

Após ser questionado em sua página no Facebook sobre o caso, o prefeito da capital Rafael Greca (PMN) defendeu a atuação da GM e afirmou que Freitas “é reincidente em atos de desacato e de perturbação do sossego”. Em 2016, quando candidato à vereador de Curitiba pelo PSOL, Freitas já havia sido detido pela Guarda por desacato e perturbação de sossego.

No vídeo, Freitas acusou a Guarda Municipal de represália sobre o processo administrativo que corre contra dois guardas em relação à ação de 2016. Ele afirmou ter prestado depoimento na quinta-feira, 6, na condição de vítima em uma sindicância que apura eventuais abusos na abordagem. Ele alega que, na ocasião, apanhou e sofreu humilhações dos guardas.

Na sexta-feira anterior, 7, Edna Dantas, outra candidata petista à Assembleia Legislativa do Paraná, e outros dois ativistas foram detidos por policiais militares enquanto manifestavam pela libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o desfile cívico-militar da Independência, em Curitiba. A PM não se pronunciou sobre o caso. As informações são do Estado de São Paulo.


Ciro promete federalizar crimes de narcotráfico e de formação de facções

Durante sabatina realizada pelo UOL, Folha de São Paulo e SBT, Ciro disse que irá federalizar os crimes de narcotráfico, facção criminosa, corrupção, desvio e lavagem de dinheiro. Ou seja, a PF (Polícia Federal) ficaria responsável pela investigação desses crimes. Ciro disse ainda que os presos que tenham ligações com organizações criminosas irão para presídios federais que, de acordo com ele, têm hoje quase metade das vagas desocupadas.

A proposta é semelhante à que ele fez na campanha de 2002, quando Ciro disputou a presidência pelo PPS. Naquela eleição, o candidato disse que iria federalizar crimes de roubo de cargas, além de "destroçar o crime organizado, fortalecendo os recursos humanos, técnicos e financeiros de que dispõe o governo federal para fazer guerra ao grande crime".

Qual é o contexto

A Polícia Federal é responsável pela prevenção e repressão ao tráfico ilícito de drogas e ao contrabando, além de apurar crimes contra bens, serviços e interesses da União. Já as polícias militares fazem o patrulhamento ostensivo nos estados, enquanto as civis cuidam da investigação dos crimes. Essa repartição de tarefas está prevista no artigo 144, da Constituição Federal, que trata da Segurança Pública.

Em alguns casos, a PF pode ser chamada para investigar crimes que não são de sua competência. O artigo 109 da Constituição Federal diz que, em casos de delitos graves contra os direitos humanos, o STJ (Superior Tribunal de Justiça), convocado pela Procuradoria-Geral da República, pode deslocar as atribuições.

A Lei 10.446, de 2002, prevê também que, quando houver repercussão interestadual ou internacional, a PF poderá ter a prerrogativa de investigar crimes de sequestro, formação de cartel, furto de carga e corrupção. Mas isto é decidido caso a caso.

Com efetivo atual de 11,2 mil agentes, de acordo com a Federação Nacional dos Policiais Federais, a PF já destina 77% do seu orçamento anual para a folha de pagamento. Segundo dados do Siga Brasil, portal do Senado que acompanha a execução do Orçamento da União, em 2017, a PF recebeu R$ 6,1 bilhões. Desse montante, apenas 17% foram gastos em investigações e operações.

Em junho do ano passado, por exemplo, a PF suspendeu, por falta de dinheiro, a emissão de passaportes em todo o país. O governo federal teve que enviar ao Congresso Nacional um repasse adicional de R$ 103 milhões para normalizar a impressão dos documentos.

Sobre a proposta de Ciro Gomes de mandar detentos para presídios federais, que estariam subutilizados, dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) confirmam que essas prisões operam abaixo da capacidade. Das 832 vagas, 492 estavam ocupadas no final de 2017. Esses presídios nunca registraram fugas ou rebeliões, segundo o Ministério da Justiça.

Atualmente, são quatro unidades: Porto Velho (RO), Mossoró (RN), Campo Grande (MS) e Catanduvas (PR). O presídio de Brasília, com 208 vagas, tem previsão de entrega no final deste ano. Em 2017, as despesas com os presídios federais somaram R$ 26 milhões, segundo o Portal da Transparência. Para este ano, o governo empenhou R$ 25 milhões. Até agosto, foram executados R$ 14 milhões.

Os presídios federais recebem presos condenados de alta periculosidade, líderes de organizações criminosas, além daqueles que tentaram fugir reiteradas vezes no sistema prisional de origem. É o caso, por exemplo, de Fernandinho Beira-Mar, que está no presídio de Mossoró (RN) desde 2017, após passar por várias prisões. Detentos que colaboraram com a Justiça ou que fizeram delação premiada podem ser transferidos para uma unidade federal, já que correm risco de vida.

Como o candidato vai cumprir a promessa

Na sabatina do UOL, o candidato disse que o combate ao crime organizado se dará com "inteligência policial". Ele acrescentou que irá "mapear, infiltrar, integrar e cortar a cabeça do crime organizado uma, duas, três vezes. Toda cabeça dessas facções que comandam o crime de dentro da cadeia." Se for eleito, Ciro promete transferir esses criminosos para presídios federais. O candidato afirmou também que defenderá alterações na lei de execução penal para impedir todo tipo de comunicação com essa categoria de presos, inclusive com advogados.

Ao federalizar o combate a esses crimes, Ciro disse que poderá usar forças policiais de estados diferentes do local de atuação dos criminosos para evitar represálias contra familiares dos agentes. Hoje, esse é um obstáculo, segundo o candidato, para combater o crime, já que muitos soldados moram em comunidades ocupadas por bandidos. "A inteligência mapeia, vem um comando de fora, retira o investigado, forma a culpa dele, e o sistema jurídico (pune)", disse Ciro, explicando seu projeto em debate na Universidade Regional de Blumenau (SC).

Há pelo menos 70 facções criminosas que atuam em presídios no país atualmente, segundo o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou em debate na Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de Ciro Gomes, para obter mais detalhes sobre a proposta, mas não houve resposta.

O que pode ser feito

O presidente da Comissão de Direito Penal do IAB (Instituto dos Advogados Brasileiros), Marcio Barandier, diz que, para mudar as competências e atribuições da Polícia Federal, será preciso alterar o artigo 144 da Constituição Federal, que trata da Segurança Pública. Para isso, será necessário aprovar uma proposta de emenda à Constituição, o que exige dois turnos de votação com apoio de 308 deputados e 49 senadores. A coligação do candidato, composta pelo PDT e Avante, tem hoje 24 parlamentares na Câmara e três no Senado, o que evidencia o grau de dificuldade para aprovar o projeto.

Do ponto de vista jurídico, Barandier diz que a proposta é viável, embora dependa do aval do Congresso. E, mesmo assim, corre o risco de, após aprovada, não ter orçamento suficiente para sua implantação. Até porque a Emenda Constitucional 95, que estabeleceu um teto para os gastos, é um limitador para novas despesas. Ciro vem repetindo que derrubar essa emenda é prioridade para viabilização de suas promessas de campanha.

"As polícias estaduais têm dificuldades, porque contam com poucos recursos e têm uma quantidade de casos grande. Isso se resolve com apoio a essas polícias e não retirando suas atribuições para deslocar para a Polícia Federal, que vai ficar congestionada", avalia Barandier.

A professora de Políticas Públicas Camila Nunes Dias, da Universidade Federal do ABC, afirma que a Polícia Federal vem denunciando há anos falta de pessoal e de orçamento. "A PF tem condições de dar conta dessa demanda? Imagina aumentando substancialmente as responsabilidades que vão recair sobre ela", indaga a especialista.

Para Camila Dias, autora do livro "PCC - Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência", o combate às facções vai além de federalizar crimes e jogar os detidos em presídios. "Todas essas políticas nos últimos 30 anos tiveram como foco a punição e repressão. O Estado nunca se preocupou com segmentos da população que vivem em comunidades pobres. É preciso um plano que envolva a prevenção."

Avaliação: Dá para fazer, mas é preciso mudar a Constituição

 


Analistas respondem: até que ponto o voto útil será importante na eleição?

Esta eleição presidencial pode ser a do eleitor do contra. O pleito tende a ter participação recorde do voto útil, que ocorre quando se escolhe não o candidato de preferência no primeiro turno, mas o postulante que se julga ter maior capacidade para vencer quem ele não gosta. A razão para isso é a alta taxa de rejeição de dois candidatos: Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Para complicar as coisas, existe ainda um terceiro tipo de eleitor: o que tem ojeriza a ambos. Embora saiba quem tem sua preferência, esse cidadão topa qualquer candidato no lugar desses dois nomes.

Bolsonaro tem vaga praticamente garantida no segundo turno — ainda que as dificuldades em torno da campanha enquanto ele permanece internado dividam analistas e até aliados do candidato. Quanto a Haddad, apontam as pesquisas, tende a crescer nas intenções de voto com o apoio de Lula, apesar de o ex-presidente estar preso em Curitiba.

Os adversários mais próximos de Haddad, porém, também vão ganhar muitos votos de quem não quer vê-lo no segundo turno. Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB) estão atentos e já modularam suas campanhas com vistas a isso. Eles podem ficar com o eleitor anti-PT, herdando votos que hoje são de outros candidatos, mas também tirando eleitores uns dos outros. Isso faz com que as pesquisas tendam a apresentar grande oscilação nas próximas semanas. “A marca desta eleição é a incerteza”, destaca Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política na Universidade de Brasília (Ipol/UnB).

Calmon afirma que o voto útil, ou voto estratégico, como se prefere chamar na academia, existe em todas as eleições, mas isso se acentua com a alta taxa de rejeição de alguns candidatos e o fato de que há vários postulantes em patamar semelhante de intenção de votos, entre o segundo e o quinto lugar. “Muitos eleitores deixam para fazer a escolha nos últimos dias. Mas, a esta altura, já têm certeza sobre quem não querem votar”, explica Calmon.

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, destaca que o eleitor leva muito a sério a escolha em uma eleição presidencial. “Ele se esforça, faz cálculos para que a escolha possa ter peso no resultado. É um voto de opinião. Nesse caso, não entra voto de cabresto — a influência do prefeito, por exemplo —, algo que pode ter peso na escolha do deputado, ou, no máximo, para governador”.

Para o cientista político Marcio Ianoni, professor da Universidade Federal Fluminense, Marina está perdendo votos para Ciro de eleitores que não querem que o PT nem Bolsonaro saiam vitoriosos. “Ciro tenta abocanhar o eleitor de esquerda e o de direita”. Mas Melo acha que Marina tem potencial de ganho pelo mesmo motivo. “Para o eleitor de centro, que quer política econômica ortodoxa, André Lara Resende (assessor econômico dela) pode ser tão convincente quanto Persio Arida (assessor de Alckmin)”.

No pelotão seguinte das pesquisas estão Alvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) e João Amoêdo (Novo). A tendência é de que os votos desses três candidatos, que somam 10% do total, sejam transferidos para Alckmin, Ciro ou Marina. Antonio Augusto de Queiroz, diretor de documentação do Departamento Intersindical de Análise Parlamentar (Diap) acha que Haddad pode ganhar força pelo apoio de Lula, mas também pelo voto útil. “A polarização entre os petistas e os antipetistas continua sendo algo muito forte”, diz.

Dois turnos para evitar distorções

O voto útil era comum no país antes da criação do segundo turno eleitoral pela Constituição de 1988. O objetivo do mecanismo é evitar que alguém ganhe o pleito com um percentual pequeno de votos — era comum vencer com apenas 30% do total, em campanhas muito disputadas. E também permitir que o eleitor escolha quem prefere de fato, e deixe o voto de segurança para o segundo turno. Mesmo assim, muita gente tenta ficar com uma opção que considera não a melhor, mas a menos ruim, para que tenha mais chances de vencer, no segundo turno, o candidato que não quer que vença de jeito nenhum.

O cientista político Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política da UnB, destaca o fato de que as pessoas têm grandes expectativas em relação ao resultado de uma eleição presidencial. “O que está em jogo para as pessoas não é tanto uma questão de esquerda e direita, mas, de um lado, políticas distributivas e, de outro, ênfase em medidas que possam trazer maior crescimento econômico. Outro fator é a vontade de que se substitua tudo o que está aí. Há também a preocupação solidária com minorias. O eleitor busca quem pode promover essas coisas, mas também quer tirar quem se opõe a isso”, disse.

Na eleição passada, o voto útil transferiu apoio de Marina Silva (PSB) para Aécio Neves (PSDB) em um movimento às vésperas do primeiro turno. Já era um sinal da clivagem que se acentuou no país. “Desde 2013, o país está dividido entre o petismo e o antipetismo”, nota o cientista Carlos Melo, professor do Insper. O agravamento dessa situação resultou no quadro atual. “Nos países emergentes há hoje um risco econômico muito alto. Mas o risco político no Brasil consegue ser ainda mais elevado pela indefinição do quadro eleitoral”, avalia Calmon.


PT faz perfil com informação falsa sobre trajetória escolar de Haddad

A campanha de Fernando Haddad (PT) à Presidência da República publicou um perfil com informação falsa a respeito dos estudos do candidato, que foi oficializado no pleito pelo partido na última  terça-feira (11/9) em substituição ao então cabeça de chapa Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato.

No texto Você já conhece Fernando Haddad?, publicado no site da coligação O Brasil Feliz de Novo – que reúne PT, PCdoB e Pros –, foi divulgado que Haddad sempre estudou em escola pública. Uma informação incorreta e que já não aparece mais no site. A assessoria de imprensa da campanha confirmou à reportagem a publicação da informação errada e disse ter providenciado imediatamente a correção. O equívoco foi apontado primeiro pelo Blog do Josias, do UOL.

 “Mesmo tendo estudado sempre em escola pública, Haddad se formou em direito pela Universidade de São Paulo, depois se tornou mestre em economia e doutor em filosofia”, informava a primeira versão do perfil, publicada no dia 22 de agosto. A versão corrigida omite os estudos do candidato anteriores ao ingresso na universidade.

Haddad estudou de 1970 a 1977 no Ateneu Ricardo Nunes, uma instituição privada, no bairro Planalto Paulista, em São Paulo. Entre 1978 a 1980, Haddad fez o segundo grau (equivalente ao atual ensino médio) no Colégio Bandeirantes, na Vila Mariana, uma das mais tradicionais escolas privadas da capital paulista. Em 1981, o ex-prefeito de São Paulo ingressou no curso de direito da Universidade de São Paulo, pública, e lá também faz mestrado em economia e doutorado em filosofia.