Dados inéditos apontam que 14,2% das crianças brasileiras de até 5 anos de idade apresentam insuficiência da vitamina B12, que auxilia no funcionamento do metabolismo. A diferença entre as regiões do país é grande, com maior prevalência no Norte (28,5%), em seguida no Sudeste (14%), no Centro-Oeste (12%), no Nordeste (11,7%) e no Sul (9,6%).

Os resultados, que nunca foram explorados em âmbito nacional, estão no Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) e foram divulgados nessa terça-feira (19). Os pesquisadores visitaram mais de 12 mil domicílios, entre fevereiro de 2019 e março de 2020, e cerca de 14.550 crianças participaram da pesquisa em todos os estados e no Distrito Federal.

A desigualdade entre a população é evidenciada no recorte econômico e na divisão por cor. A proporção de crianças com deficiência da B12 é maior nas famílias mais pobres (18,85%) e que são pretas (16,7%) ou pardas (15,2%).

O coordenador nacional do ENANI e professor da UFRJ, Gilberto Kac, destaca que os dados corroboram o cenário de insegurança alimentar.

“Os dados refletem a situação socioeconômica das famílias brasileiras e corroboram o resultado divulgado em setembro, que revela que quase metade das famílias brasileiras com crianças menores de 5 anos vive algum grau de insegurança alimentar. As fontes de vitamina B12 são exclusivamente alimentos de origem animal, principalmente carne bovina, suína, fígado, vísceras e peixes. A dificuldade de acesso a esses alimentos pode estar relacionada à alta prevalência de deficiência de vitamina B12 nessa faixa etária”, afirma Kac.

À CNN, o pediatra Renato Kfouri afirma que a B12 é uma vitamina essencial para as funções do corpo e que, no caso das crianças, essa falta pode prejudicar o crescimento e comprometer o sistema imune.

“A B12 tem implicação no crescimento, na resposta imune, e na formação dos glóbulos vermelhos. Ou seja, ela auxilia nas principais funções do corpo humano. A falta dela pode provocar anemia e muitas vezes compromete uma fase de desenvolvimento que pode ser difícil recuperar”, afirma Kfouri.

Já em relação a insuficiência de vitamina D, que se desenvolve no nosso organismo apenas com a exposição à luz do sol, a porcentagem diminui consideravelmente, com 4,3% de insuficiência nessa faixa-etária. Nesse caso, a maior falta da vitamina está no Sul (7,8%) e no Sudeste (6,9%), e na população acima dos 2 anos. Os pesquisadores apontam, no entanto, que nem todas as crianças necessitam da suplementação do micronutriente, e que casos específicos devem ser acompanhados e avaliados individualmente.

A pesquisa, coordenada por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal do Rio (UFRJ), também leva em conta outras insuficiências que já haviam sido estudadas anteriormente, como a anemia. Essa condição é definida como falta da proteína hemoglobina no sangue, causando redução do fluxo de oxigênio para os órgãos.

Nos últimos treze anos, a quantidade de crianças anêmicas foi reduzida à metade no Brasil. O percentual passou de 20,9% em 2006 para 10,1% em 2019.

O cenário de melhora foi registrado em todas as regiões, exceto a Norte, que apresentou aumento de 6,6% no período analisado, ficando com um índice anêmico de 19%. A professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Marly Cardoso, destaca que esse cenário pode ser ainda pior, já que comunidades rurais remotas da região não foram incluídas na pesquisa.

“Apesar desse declínio importante, ainda tem alguns grupos mais vulneráveis. Queria destacar a importância do grupo dos menores de 2 anos, e da região Norte, que permanece com valores altos em relação a estimativa do Brasil como um todo. E vale lembrar que a amostragem para a região Norte não contemplou comunidades rurais remotas e nem área endêmica de malária. Nesses locais, o cenário pode ser ainda pior”

A deficiência da vitamina A, responsável por fortalecer o sistema imunológico, encontrada em alimentos de origem animal como gemas de ovo e derivados do leite, também apresentou queda. Em 2006, a prevalência foi de 17,4% e, em 2019, 6% das crianças estudadas apresentaram insuficiência dessa vitamina.