Após meses de isolamento, o refúgio dos sonhos de quem deseja viajar combina, quase sempre, vida ao ar livre, contato com a natureza e a certeza de que protocolos contra a Covid-19 serão cumpridos. São anseios que cidades do estado trabalham para satisfazer numa retomada gradual do turismo. Uma vez que as rotas aéreas devem demorar a se restabelecer, a aposta é atrair um visitante que se deslocará de carro, para destinos até 600 quilômetros de sua casa. Espera-se, assim, que os primeiros a botar o pé na estrada sejam os próprios fluminenses, além de paulistas, mineiros, brasilienses e capixabas, que poderão fazer funcionar as engrenagens de uma das atividades mais afetadas pela pandemia.

No interior do estado, alguns atrativos seguem fechados, como os museus de Petrópolis e parte das cobiçadas praias de Arraial do Cabo, entre elas a do Forno e as do Pontal do Atalaya. Mas também são vários os recantos já liberados aos visitantes, de acordo com as regras estabelecidas em cada município.

O economista Fernando Starling, morador de Belo Horizonte, escolheu o sossego e o friozinho da pacata Visconde de Mauá, no Sul Fluminense. Ele se diz surpreso por ter encontrado a região melhor do que em 2019, quando a conheceu.

— Sou aficionado por fotografar pássaros, e aqui há grande diversidade de espécies. É fácil de chegar pela estrada, e a gastronomia é espetacular. Um lugar fantástico para quem quer fugir das aglomerações — afirma Starling.

Em dois meses e meio sem visitantes, Visconde de Mauá e seu entorno deixaram de arrecadar R$ 82 milhões. Contudo, com baixos índices da Covid-19, a região foi uma das que reabriram mais cedo, em junho. Agora, as pousadas locais já estão autorizadas a funcionar com 80% da capacidade, embora banhos de cachoeira e música ao vivo em bares e restaurantes continuem proibidos.

— As pessoas não vêm em busca de badalação. Querem passeios românticos, fazer caminhadas na natureza, ler um livro sob as árvores… O resultado é que as reservas para o feriado de 7 de setembro, por exemplo, estão quase esgotadas — comemora Paulo Gomes, presidente do Convention & Bureau da região.

Mudanças

Em qualquer lugar, o viajante vai se deparar com adequações ao “novo normal”. Entre máscaras e termômetros, muita coisa mudou: o bufê self-service de café da manhã, por exemplo, foi substituído por pedidos à la carte e entregas no quarto.

Patrimônio Mundial da Unesco, Paraty iniciou esse processo de adaptações no último dia 1º. A cidade só recebe quem chega em carros de passeio, e os meios de hospedagem estão limitados a 50% de ocupação. Neste fim de semana, o município vive mais uma experiência do “novo normal”: o tradicional Festival da Cachaça acontece com programação online.

— A Flip será em novembro, num formato ainda em definição — antecipa Nena Gama, secretária de Turismo de Paraty.

Ainda na Costa Verde, Angra dos Reis reativou anteontem o turismo, inclusive na Ilha Grande. Mas com a travessia autorizada exclusivamente nas viagens da CCR Barcas ou nos flexboats que saem do Centro — o transporte por Conceição de Jacareí segue suspenso.

QR Code em Búzios

Os passeios náuticos, por sua vez, retornaram em Angra e Paraty, em embarcações que operam com metade da capacidade. A atividade é uma das que estão na fila de espera em Arraial do Cabo. Búzios investiu em tecnologia para realizar esse controle. É um QR Code, emitido por hotéis e pousadas habilitadas, que os turistas devem apresentar na entrada da península, comprovando a reserva. Cada código, explica o secretário de Turismo, Armando Ehrenfreund, é válido para um veículo de passeio com até quatro passageiros. Ônibus de excursão e o chamado day use continuam vedados. As praias estão abertas só para caminhadas ou para esportes náuticos individuais.

— Queremos evitar que tenhamos de voltar atrás na retomada, como ocorreu na Europa — diz Ehrenfreund.

Segundo Adriana Homem de Carvalho, secretária estadual de Turismo, foi criado um manual com dez mandamentos da reabertura e um site (turismoconscienterj.com.br) com o status da retomada nos 92 municípios fluminenses. Em paralelo, algumas perspectivas vêm sendo estudadas.

Hotéis com escrtórios para home office

A secretária estadual de Turismo do Rio, Adriana Homem de Carvalho, acredita que o modelo de home office veio para ficar e pode levar hotéis a terem escritórios para o trabalho remoto dos hóspedes. Ela quer aproveitar o momento de reorganização do setor aéreo para atrair mais voos para o estado.

Presidente da Associação de Hotéis do Rio, Alfredo Lopes antecipa que, em outubro, será lançada a campanha “Mais Rio por menos”, com descontos nos setores de hospedagem e comércio.

— O foco agora é o mercado nacional. Estimamos que ai levar de dois a três anos para o turismo internacional voltar ao patamar anterior ao da pandemia de Covid — Comenta Lopes.