No dia em que as forças de segurança retomaram os complexos da Penha e do Alemão, com tropas federais e estaduais de segurança, em novembro de 2010, o trabalho começou cedo para uma turma que não pega em armas, mas que há 26 anos tem papel fundamental no combate ao crime no Rio. Com os ramais telefônicos recebendo milhares de ligações, a equipe de atendimento do Disque-Denúncia (2253-1177) foi reforçada. No fim daquele dia, o serviço, que começou a funcionar em agosto de 1995, bateu seu recorde: recebeu 1.136 denúncias e mais de 2 mil ligações.

Hoje, com quase três décadas, o coordenador do Disque-Denúncia, o gaúcho José Antônio Borges Fortes, o Zeca Borges, comemora os números expressivos: foram mais de 2,7 milhões de denúncias e 218 mil horas de serviço em mais de 9 mil dias de trabalho. Agora, promete uma força-tarefa para monitorar a milícia e garante que poderia fazer mais com a ajuda do governo estadual.

Durante a pandemia, Zeca afirma que “caíram muito” os parceiros do canal. Antes, o programa chegou a contar com 35 funcionários em três turnos, 24 horas por semana. Atualmente, são 25 atendentes. O governo do estado deve quase R$ 2 milhões ao programa.

— Já conversei com quase todo mundo do alto escalão do atual governo atual e nada. Por isso, teremos que tomar medidas judiciais — lamenta Zeca: — Mesmo assim, estamos aqui. Ajudamos a polícia com o que recebemos da população. É isso que fazemos.

Aos 26 anos, o Disque-Denúncia vai aproveitar sua experiência e tecnologia para aprimorar o acompanhamento das atividades dos grupos de extermínio denominados milícias, que estão ameaçando a liberdade da população em diversas cidades do estado. Com um banco de dados “recheado”, o canal vai passar a destrinchar e “monitorar atentamente o recebimento, a análise e a difusão das informações anônimas enviadas por seus diversos canais de atendimento” em relação aos grupos paramilitares.

Zeca lembra também que a chacina da Baixada Fluminense, com 29 mortos, em 2005, que resultou em 975 denúncias, e a morte do menino João Hélio, de 6 anos, em 2007. Segundo Borges, o pai de um dos criminosos ligou e denunciou o próprio filho. A única frustração de Zeca é não conseguir ajudar na descoberta do sumiço de Priscila Belfort, em 2004.