O Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren-RJ) afirmou que já recebeu denúncias de problemas em vacinações em 45 cidades sdo estado, incluindo enfermeiros coagidos a darem vacina e tentativa de compra de doses. No Miguel Couto, funcionários reclamaram de falhas na fiscalização e de estudantes furando fila. O Ministério Público do Rio (MPRJ) afirmou que está acompanhando relatos e que, a partir das denúncias, vai tratar de “estratégias de atuação ministerial”. Por enquanto, só foram abertos procedimentos para apurar a vacinação de idosos e pessoas com deficiência, em asilos e abrigos.

Segundo o planejamento da Secretaria estadual de Saúde (SES), a fase atual de vacinação contemplará 34% dos profissionais de saúde. Na capital, a prefeitura afirmou que, dentro desse corte, serão vacinados todos os profissionais que estão na linha de frente de combate contra o Covid-19, os trabalhadores de grupos de risco, que agora poderão retomar ao trabalho, e aqueles que estão atuando na campanha de vacinação, o que significa quase a totalidade das equipes de Atenção Primária.

Nesta quarta, a vacinação se concentrou, além dos asilos, nas clínicas da família e postos de saúde. Assim, nos próximos dias a campanha se dedicará mais às unidades de emergência. Mas, no feriado de São Sebastião, já houve três hospitais priorizados: os hospitais municipais Ronaldo Gazzolla e Miguel Couto, e o Instituto Nacional de Infectologia (INI). Até o início da noite desta quinta, já haviam sido vacinados, na cidade, 39.417 pessoas.

No Miguel Couto, funcionários relataram problemas de comunicação e falta de controle na fila da vacina. Segundo uma médica anestesista, que falou sob anonimato, as chefias dos plantões não sabiam da vacinação no local com antecedência e foram pegos de surpresa. Com a desorganização, pessoas fora do grupo prioritário se aproveitaram e furaram a fila, diz.

— Desde cedo falaram que diversos estudantes de medicina, que acompanham alguns serviços no hospital, mas não atendem na linha de frente, estavam sendo vacinados. Na parte da tarde, eu vi pelo menos sete deles. A fila estava super desorganizada, não pediram meu CRM físico (registro do Conselho Regional de Medicina), nem minha matrícula no hospital. Basta dar o nome e os números de CPF e CRM — afirma ela. — O problema é que estudante não tem CRM, então não sei como eles conseguiram vacina.

As denúncias colhidas pelo Coren-RJ motivaram uma reunião, na noite desta quinta, com o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz. Na sexta, haverá encontros com autoridades da secretaria estadual. Além dos problemas relatados sobre enfermeiros e técnicos de enfermagem sendo preteridos na vacinação, a presidente do Coren Lilian Behring disse que já recebeu denúncia de tentativa de compra de vacinas, e de enfermeiros sendo coagidos, com violência, a vacinar pessoas fora do grupo prioritário.

Segundo ela, a maioria dessas denúncias foi na Baixada Fluminense e no interior do estado.

— É uma situação nova e que evidencia o desespero populacional com a vacina. Mas estamos orientando para, nesse tipo de caso, profissionais acionarem força policial — explicou Lilian, que também vai cobrar das autoridades medidas contra a não vacinação de enfermeiros. — Muitos profissionais estão sendo preteridos. Temos relatos de funcionários da central de materiais, que são muito expostos porque mexem com material contaminado, que foram preteridos. Alguns hospitais não receberam doses suficientes.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) respondeu que as pessoas vacinadas “têm seus nomes e CPFs registrados” e que, caso seja comprovada aplicação indevida, tomará “medidas rigorosas”. A direção do Hospital Miguel Couto complementou que “está se empenhando em reforçar as orientações sobre as regras da vacinação prioritária e, caso constate qualquer tentativa de burlá-las, as medidas administrativas cabíveis serão tomadas”.

Falta de transparência

Outra situação que chamou a atenção nesta quina foi durante a vacinação na UFRJ, que possui um hospital universitário com leitos para Covid, além de laboratório de virologia molecular e pesquisadores que contribuíram para o combate à pandemia. Nesse contexto, um dos vacinados foi Marcos Maldonado, prefeito da UFRJ, mas que não é médico.

Procurada, a UFRJ respondeu que a vacinação de Maldonado se justificou pelo fato de ele estar atuando “na linha de frente de uma equipe multiprofissional e interdisciplinar de servidores” na UFRJ, auxiliando, pessoalmente, na transferência de “estudantes suspeitos e contaminados que moram na Residência Estudantil da UFRJ” e contribuindo para “o êxito na logística” dos campi. A universidade explicou que foi considerado ” o grau de exposição” a que os servidores vacinados estão submetidos.

Profissionais de saúde também vêm reclamando sobre a falta de informações mais detalhadas. Apesar do início da campanha estar bem disseminada, os funcionários dizem não saber com antecedência quando sua unidade será contemplada, e se precisa se locomover fora do horário de plantão. Em entrevista ao GLOBO na quarta, o secretário municipal de Saúde Daniel Soranz afirmou que os plantões serão respeitados e todos profissionais da linha de frente serão atendidos, até a próxima semana.

Até a tarde desta quinta, funcionários do INCA, que possui leitos de enfermaria e CTI para tratamento de COVID-19, temiam que não receberiam a vacina, pois não conseguiam respostas sobre o assunto. Mas, à tarde, veio a confirmação da Secretaria Municipal de Saúde de que as três unidades do INCA retiraram suas cotas e iniciariam a vacinação ainda nesta quinta.

O estado do Rio recebeu 487 mil doses e a previsão é de imunizar 232 mil pessoas. O número de imunizados não é exatamente a metade do total de vacinas pois a SES realiza um cálculo, a partir da média histórica em campanhas de vacinação, de perda de 5% de doses, por problemas em transportes e manipulação dos frascos. Até aqui, porém, a SES diz que não há informações de ocorrências com perdas substanciais, mas ainda não possui um balanço sobre a situação.