Os  seis irmãos Taborda dos Santos e suas famílias farão a colheita e prepararão um caminhão para a entrega de quarta-feira. Neste dia, um deles, Eliseu, de 34 anos, vai despertar por volta de 4h30 e não voltar antes das 20h: a missão será entregar frutas, legumes e verduras cultivados em Paty do Alferes para a Central de Abastecimento, a Ceasa, na cidade do Rio de Janeiro. Em mais de 50 anos, no Sítio Cordeiro, iniciada pelas mãos do pai Raimundo e da mãe Marlene, a produção nunca parou. E a responsabilidade de alimentar tantos lares no estado, além das necessidades financeiras dos donos, mais uma vez não deixou isso acontecer, mesmo ficando expostos ao risco de contágio pelo novo coronavírus.

— Cada irmão tem sua família, e todas estão envolvidas na produção, que é vendida junta. Na semana passada, entregamos de três a cinco toneladas de alimentos como aipim, abóbora, mamão, pimentão, berinjela, chuchu, maracujá, banana-prata, pepino — conta Eliseu.

Na Ceasa, a entrega será para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) — pelo qual o governo compra da agricultura familiar, com dispensa de licitação, e destina às pessoas em situação de insegurança alimentar ou atendidas pela rede socioassistencial, como escolas.

Em outro dia da semana, os alimentos do sítio serão destinados a mercados de Petrópolis, na Região Serrana do estado. A família Taborda dos Santos representa os agricultores, no segundo capítulo da série “Os Essenciais”, na qual o EXTRA mostra a rotina e os desafios dos que precisam seguir trabalhando durante o combate à pandemia.

Como moram no mesmo terreno, embora cada núcleo familiar tenha sua casa, e se encontram nas atividades diárias, eles sabem que a exposição de um coloca todos em perigo. Temem principalmente pelo pai, de 67 anos, e pela mãe, de 58, mesmo afastados da colheita. Para a proteção deles, o álcool em gel ganhou espaço garantido no caminhão, assim como o sabão. Na ida e na volta das entregas, Eliseu conta que o transporte é lavado:

— Os clientes estão exigindo muito mais cuidados, e nós também. Antes, envolvíamos mais pessoas nas entregas, para agilizar. Íamos quatro no caminhão para Petrópolis, por exemplo. Hoje, vão só dois.

Descarte forçado: 7 toneladas

A família Taborda dos Santos também está na linha de frente de uma cooperativa de agricultores em Paty do Alferes, a CoopaRio, por meio da qual todos se juntam para suprir demandas maiores, como a de escolas de cinco municípios do entorno. O trabalho deles não parou, mas o coronavírus trouxe prejuízo no fim de março.

Com as aulas suspensas nas redes, as entregas foram adiadas por cinco dias e, quando o pedido foi cancelado oficialmente, segundo Eliseu, não havia mais tempo para buscar outro comprador.

— O estado dos alimentos já não era bom. Ninguém ia querer comprar. Tivemos que descartar quase sete toneladas de alimentos em um dia: quatro toneladas de banana, duas de abóbora e 900kg de beterraba — afirma o produtor: — Estamos há 20 dias sem vender para esses compradores que eram certos. Toda semana precisamos procurar alternativas.

Agricultura familiar abastece o país

De acordo com o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agricultura familiar representa 77% dos estabelecimentos agrícolas do país, e mesmo com apenas 23% da área agrícola, tem grande participação na mesa dos brasileiros: nas culturas permanentes, responde por 48% do valor da produção de café e banana; nas temporárias, por 80% do valor de produção da mandioca e 42% do feijão. Ainda, ocupam 10,1 milhões de pessoas, 67% do total de trabalhadores nos estabelecimentos agropecuários.

Os irmãos Claudia, Valdete, Valcir, Eliseu, Jefferson e Silas, maridos e mulheres, e em alguns casos filhos, fazem parte dessas estatísticas importantes, que também se refletem na Ceasa do Rio.

— Oitenta por cento do que chega ao Rio vêm de produtores da agricultura familiar — estima Rosana Moreira, engenheira autônoma e responsável pela divisão técnica da Ceasa.

Não houve queda nas entregas por enquanto. Do contrário, isso seria sentido rapidamente:

— Se a Ceasa para, em uma semana, há desabastecimento nos mercados — diz Rosana.