Uma técnica que começou a ser utilizada na epidemia da Gripe Espanhola, em 1918, pode ser a esperança para o tratamento da Covid-19, principalmente em casos leves e moderados. O Hemorio, instituto de hematologia ligado à Secretaria estadual de Saúde, começa esta semana uma pesquisa para utilizar o plasma de pessoas já vacinadas contra o coronavírus para tratar pacientes idosos ou com comorbidades, mas que ainda estão no início dos sintomas. Esta é a primeira pesquisa no país que usará a técnica do plasma convalescente de pessoas já imunizadas contra a Covid-19.

A técnica parte da premissa de que, quando uma pessoa se recupera ou é vacinada contra a Covid-19, os anticorpos produzidos por ela e que ajudam a combater a doença são armazenados pelo corpo no plasma — que é a parte líquida do sangue. A coleta é feita por uma máquina chamada de aférese, parecida com a de hemodiálise, que consegue captar somente o plasma do sangue, devolvendo para o doador as plaquetas e os glóbulos vermelhos. Em cada coleta, são produzidos 750ml de plasma, que podem ajudar até três pessoas.

Com a expectativa de que a pesquisa termine em dois meses, a primeira etapa será a convocação para doar plasma de voluntários que já completaram o ciclo de imunização com as duas doses de vacinas há mais de 14 dias. O uso apenas do sangue de quem já foi imunizado é devido ao fato de que as vacinas produzem um tipo específico de anticorpo que é muito eficaz no combate ao coronavírus, mas nem todos que apenas tiveram a doença conseguem produzir.

Estudo será em UPAs

A pesquisa vai ocorrer em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da rede estadual de Saúde do Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. A previsão inicial é que participem 380 pacientes que possuem comorbidades ou são idosos, não tomaram vacina contra a Covid-19, estão até no terceiro dia de sintomas e possuem quadros leves ou moderados, sem necessidade de internação. Será feito um sorteio por um sistema que escolherá aleatoriamente os voluntários que irão participar. Apenas metade receberá o plasma com anticorpos e vai passar por uma sessão de duas horas para a aplicação. O grupo retornará para casa para continuar o acompanhamento.

Desde o início da pandemia, mais de 300 pessoas fizeram transfusão com plasmas doados no Hemorio. Os dados preliminares obtidos até agora apontam que a técnica é eficiente nos pacientes em estágios iniciais de infecção, ao neutralizar o vírus. Os pesquisadores acreditam que com o tratamento seja possível diminuir a taxa de internação de pacientes com o coronavírus.

— Veremos qual será a proporção dos que se internaram e desenvolveram a doença grave nos dois grupos. Como são pacientes ainda no início dos sintomas e que têm grandes chances de se agravar, apostamos muito que funcione. Mas é um estudo e pode ser que não funcione. A prática às vezes desmente a gente — explica o médico hematologista Luiz Amorim, diretor-geral do Hemorio.

Caso seja comprovado que o tratamento funciona, o Hemorio tem hoje a capacidade de produzir 25 bolsas de plasma por dia com a técnica da máquina aférese, com a possibilidade de dobrar caso tenha a necessidade. Também há a possibilidade de separar o líquido da doação comum de sangue que é feita sob a coordenação do órgão.

Esse será o terceiro estudo de que o Hemorio participa com o uso do plasma convalescente. O mais recente, em parceria com cientistas do Canadá e da Universidade de Cornell, de Nova Iorque, analisou a eficácia da técnica em pacientes já internados mas com quadros moderados, sem a necessidade de intubação e até o 12º dia de início dos sintomas. A fase clínica da pesquisa, que teve mil pacientes nos três países, já se encerrou e, agora, está ocorrendo a análise dos dados.

Já no início da pandemia, houve uma pesquisa do uso do plasma com pacientes graves, mas que não foi observada uma grande diferença entre o grupo que utilizou em detrimento daqueles que não foram tratados com a técnica. Os pesquisadores acreditam que isso foi porque foram pacientes que estavam há muito tempo já com a doença.

O primeiro a doar para a pesquisa foi o médico hematologista Ruddy Dalfeor. Assim como ele, diversas pessoas procuraram o Hemorio para doar, e a busca foi tão grande que hoje há mil bolsas de plasma nos estoques — que podem ficar armazenadas por até um ano — e um número maior de pessoas na fila de espera para doação.

— É algo plausível, porque sabemos que o plasma é rico em anticorpos. Quando surgiu a ideia da pesquisa, para mim fez total sentido e resolvi ajudar — diz o médico.

O uso do plasma é permitido pela Anvisa, mas de forma ainda experimental. Para ser utilizado fora das pesquisas, é preciso o consentimento de médicos e do paciente, chamado de “uso compassivo”. Um deles foi o empresário Bruno Libderman, de 44 anos. Ele começou a sentir os sintomas no fim de janeiro e, após alguns dias de em casa, teve uma piora súbita e foi internado no CTI de um hospital particular do Rio. Como ele estava inconsciente, os médicos e a família optaram pelo tratamento do plasma. Ele admite não saber se a recuperação teve influência ou não do tratamento.

— Até acordar e saber que eu tinha tomado o plasma, não sabia muito bem o que era, mas a equipe médica explicou e eu entendi do que se tratava — recorda-se.