A situação é alarmante: cerca de 150 casas de repouso da região parisiense foram atingidas pela epidemia de coronavírus. Apesar das regras de reclusão máxima impostas aos residentes, dezenas de mortes vêm ocorrendo nos últimos dias e devem se multiplicar nas próximas semanas.

Segundo o presidente da Federação Hospitalar da França, Frédéric Valletoux, não há um número preciso de mortes nas milhares de casas de repouso do país.

Em entrevista à FranceInfo, ele indicou que, até o momento, estima-se que entre 100 e 150 dos 700 estabelecimentos que acolhem idosos na região parisiense foram atingidos pela epidemia de coronavírus, causando “várias dezenas de mortos”.

Valletoux afirma, no entanto, que não conhece a situação das residências de idosos em todo o país. “Não sabemos hoje medir a dimensão das perdas em toda a França, é preciso ter a lucidez de dizer isso. Entretanto, temos testemunhos que a situação nacional é muito tensa”, ressalta.

O presidente da FHF faz um apelo para que as pessoas que trabalham com idosos sejam equipadas o mais rápido possível para enfrentar a epidemia, em um momento em que as famílias estão proibidas de visitá-los nas casas de repouso. “É preciso informar os parentes, dar garantias a eles de que estamos tomando todas as medidas necessárias”, reitera.

Governo não informa número de idosos mortos

Raras são as casas de repouso que indicam a quantidade de vítimas relacionada ao coronavírus. Da parte do governo, nenhum relatório específico foi produzido até o momento. Em seus anúncios diários, o diretor-geral de Saúde da França, Jerôme Salomon, não menciona doentes ou mortos nas residências de idosos.

Algumas razões podem explicar essa atitude. Para apontar a quantidade de mortos nessas instituições seria necessário testá-los no momento em que apresentam sintomas ou que falecem.

No entanto, com o baixo número de exames de coronavírus realizados na França, a realidade será dificilmente quantificada. Além disso, mesmo quando idosos morrem nos hospitais, não há registro se eles viviam de forma independente ou em casas de repouso.

Por isso, geriatras multiplicam apelos ao governo para que leve em consideração a situação, que deve se deteriorar nas próximas semanas. A prioridade, segundo os especialistas que cuidam da saúde dos idosos, seria realizar os testes logo que eles começarem a apresentar os primeiros indícios de Covid-19.

O professor Hubert Blain, chefe do serviço de gerontologia do Hospital de Montpellier, alerta há semanas seus colegas sobre os sintomas atípicos que apresentam muitos idosos desde que a Covid-19 começou a se propagar na França : diarreia, perda de equilíbrio e problemas cognitivos.

Além disso, os especialistas apontam a necessidade de formar os profissionais das casas de repouso para detectar esses sintomas que aparecem antes da tosse e da febre. Desta forma, seria possível isolar rapidamente os casos suspeitos para que eles não contaminem os outros residentes.

Os geriatras também pedem que todos os empregados dessas residências utilizem máscaras. Questionadas pelo jornal “Le Monde”, a maioria das 18 Agências Regionais de Saúde da França afirmaram que não dispõem de estoques suficientes para equipar todos os profissionais de estabelecimentos que acolhem idosos no país, até mesmo aqueles que têm contato direto com os residentes.

Situação deve se deteriorar com a propagação da Covid-19

Segundo os médicos, a situação dos idosos é apenas a ponta de um iceberg e deve piorar nos próximos dias e semanas. A França registra uma aceleração da epidemia de coronavírus, principalmente na região parisiense.

O país contabiliza, até o momento, mais de 10 mil infectados, além de 2.516 pessoas hospitalizadas e 1.100 mortos em estabelecimentos hospitalares. O ministro francês da Saúde, Olivier Véran, reconheceu que esse balanço está subestimado, porque não é possível realizar testes com todos os casos suspeitos de coronavírus na França : apenas doentes graves e que necessitam de hospitalização urgente passam pelo exame.

O presidente da rede de 39 hospitais públicos da região parisiense, Martin Hirsch, fez um apelo à mobilização de voluntários e reservistas da saúde para dar suporte à enorme afluência de pacientes nas últimas horas.

Mil pessoas estão em reanimação na região parisiense. Segundo ele, nesse ritmo, em três dias faltarão aparelhos de respiração artificial.