Em meio à pandemia do novo coronavírus, que já matou cerca de 206 mil pessoas no Brasil, o Ministério da Saúde lançou nesta semana um aplicativo que visa incentivar o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19. Chamado de “TrateCOV”, o aplicativo ajuda a diagnosticar a doença, após o médico cadastrar sintomas do paciente e comorbidades, como diabetes. Em seguida, a plataforma sugere a prescrição de medicamentos como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina, o conhecido kit-covid.

O ministério diz que as sugestões são de “opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada”, e ressalta que o objetivo é aprimorar e agilizar os diagnósticos da covid-19. Não há, entretanto, comprovação de que os referidos medicamentos que vêm sendo reforçados pelo governo federal no decorrer da pandemia (como ivermectina e cloroquina) tenham eficácia contra a covid-19.

Segundo a pasta, a plataforma é “um novo método científico na Atenção Primária à Saúde (APS)” para detectar a doença. “Por um aplicativo de celular — batizado de TrateCOV, profissionais de saúde irão utilizar um protocolo clínico para fazer um diagnóstico rápido da doença através de um sistema de pontos que obedece rigorosos critérios médicos”, relatou.

No aplicativo, são incluídas também informações sobre lugares frequentados pelo paciente ou contato com pessoas que tenham testado positivo para covid-19. Ao final, é apresentada uma pontuação de gravidade. Se for seis pontos ou mais, é dado o diagnóstico da doença.

Em seguida, surge a opção de receber ou não tratamento precoce. Caso a resposta seja afirmativa, aparecem os nomes dos medicamentos, junto com as doses e quantidade de dias a serem administrados. Caso a resposta seja não, o médico precisa indicar o motivo: recusa do paciente, falta de medicamento, contra indicação médica ou outros.

Na avaliação da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde da pasta, Mayra Pinheiro, os sintomas e sinais da covid-19 são “muito bem definidos”, o que permite a estratégia. “A adoção do protocolo é segura. Para muitas doenças em todo o mundo, a gente adota protocolo. Se o paciente preenche três critérios para a doença, ele tem a doença. Estamos apenas validando um protocolo científico, mostrando que ele é um forte indicador da doença, que ele pode ser usado para tomada de decisão”, destacou em texto publicado no site do ministério.

Manaus

Manaus foi palco do lançamento do aplicativo em meio aos graves aumentos da doença na capital amazonense. O estado lida com 11 linhagens do novo coronavírus circulando, segundo levantamento feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na segunda-feira (11), o ministro Eduardo Pazuello participou do lançamento, em visita à cidade, e afirmou que a prescrição de uma medicação pode ser feita pelo médico antes dos resultados dos testes, somente com o diagnóstico clínico, já que exames laboratoriais ou de imagem são complementares.

“O diagnóstico é do médico, não é do exame, não é do teste, não aceitem isso. (…) o exame laboratorial, o teste é complemento do diagnóstico médico, até porque a medicação pode e deve começar antes desses exames complementares. Caso o exame lá na frente, por alguma razão, dê negativo, ele reduz a medicação e tá ótimo. Não vai matar ninguém, pelo contrário, salvará no caso da covid”, indicou Pazuello.

Apesar da incorporação dos medicamentos nas prescrições pelo aplicativo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não existe fármaco com eficácia comprovada contra a covid-19. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da OMS, afirma que “não há evidência científica até o momento de que esses medicamentos (cloroquina e hidroxicloroquina) sejam eficazes e seguros no tratamento da covid-19”. A organização ressalta, apesar disso, que todo país é soberano para decidir protocolos clínicos de uso de remédios.