Bíblias, pneus, colchões, esteira de praia, guarda-chuva, máquinas fotográficas, micro-ondas, geladeira, caixas de som, testes de gravidez, garrafas PET e de vidro, máquina de cartão de créditos e até dinheiro. Tudo isso, a Prefeitura do Rio tem encontrado dentro dos bueiros da cidade e pode explicar por que as ruas alagam tão rapidamente quando há chuva forte.

Após o temporal que deixou o Rio debaixo d’água no início de janeiro, nos sete meses seguintes a Secretaria municipal de Conservação retirou quase 81 mil toneladas de resíduos em ações de desobstrução em cerca de 70 mil metros de tubulações subterrâneas e mais de 22.242 bueiros. Diante do volume de lixo que entupia as galerias pluviais, a pasta decidiu antecipar a Operação Verão, que ocorreria só a partir de setembro. Criou, então, o programa Ralo Limpo, iniciado em julho com a meta de limpar os bueiros antes das tempestades que costumam ocorrer entre outubro e abril.

O foco é nos 50 pontos mais críticos mapeados ao longo do ano. Nesses locais — que incluem áreas de Jacarepaguá, Barra e Guaratiba, na Zona Oeste; Catete, Lagoa e Copacabana, na Zona Sul; Vila Isabel, na Zona Norte, e Centro — os órgãos de limpeza já retiraram dos ralos os objetos mais inusitados.

— Numa galeria da Rua 24 de Maio, encontramos um tronco de árvore de 4,5 metros, colchão, ar-condicionado, mochilas e roupas. Descobrimos isso após os alagamentos crônicos da localidade. Fazíamos a limpeza com o caminhão que drena a água, e de nada adiantava. Foi preciso quebrar a galeria pluvial para vermos o que estava acontecendo — conta a secretária municipal de Conservação, Anna Laura Valente Secco Freire.

Por dia, a Comlurb recolhe 9 mil toneladas de todo tipo de lixo da cidade. Do total, 3.500 toneladas são de sujeira em locais públicos, incluindo o que é retirado dos bueiros. Flávio Augusto da Silva Lopes, presidente da Comlurb, conta que, em áreas onde a criminalidade é maior, é comum achar armas brancas:

— Encontramos muitas facas em regiões onde os índices de assaltos são altos. Eles usam para fazer os assaltos e escondem nos bueiros para fugir do flagrante. Também encontramos tapetes em cima dos bueiros para que as autoridades não achassem o que foi roubado e o material usado no assalto.

Mas não é só sujeira que entope ralos e provoca os alagamentos no Rio. Em locais com histórico de enchentes, a Secretaria de Conservação, junto à Rio Águas, encontrou até galerias pluviais aterradas.

— A Rua Silveira Martins, no Catete, por exemplo, dá muito problema. Lá, concessionárias da cidade, ao fazerem reparos, foram aterrando as galerias pluviais. Abrimos e encontramos cimento em cima das caixas bloqueando a passagem da água. E na Avenida Armando Lombardi, no Jardim Oceânico, o metrô cortou a passagem das galerias pluviais e interrompeu tudo. Entregaram a obra e não finalizaram isso. Lá, se chove, alaga. Estamos tentando que o metrô conserte — diz Anna Laura.

Outra frente de combate a enchentes é a troca de grelhas e tampas de bueiros de ferro fundido pelas de concreto. É que as de metal são alvo de furto, deixando buracos abertos para a entrada de mais lixo.

— Já trocamos 2.239 grelhas e tampões. A maioria foi roubada e algumas estavam quebradas. A falta delas, além de causar graves acidentes, faz com que o lixo entre mais — destaca a secretária de Conservação.

— Como aumentou o número de pessoas em situação de rua, vão parar nos bueiros pratos, talheres, copos, colchões. Com a grelha, esses materiais seriam facilmente recolhidos e não precisaria cavar com máquinas para retirá-los — acrescenta o presidente da Comlurb.