Do total de 27 mortos na favela do Jacarezinho durante operação policial realizada na última quinta-feira, apenas quatro eram alvo da chamada operação Exceptios. Além disso, dois dos mortos não tinham qualquer anotação criminal, o que contradiz a Polícia Civil, que declarou na semana passada que todos morreram em confronto com os agentes de segurança e tinham antecedentes. As informações constam em um relatório sigiloso da Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil, ao qual o GLOBO/Extra teve acesso, e que foi realizado três dias após a ação. De acordo com o documento, dos 27 apenas 12 tinham anotações por crimes relacionados ao tráfico.

A operação da polícia no Jacarezinho, que teve a participação de 200 agentes, terminou com apenas seis presos e 23 armas e 12 granadas apreendidas. Ela tomou por base um processo por associação ao tráfico da 19ª Vara Criminal. A Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) teria ido à favela, com o apoio de outras unidades, para cumprir o mandado de prisão contra 21 pessoas denunciadas pelo Ministério Público do Rio (MPRJ), sob a suspeita de aliciar menores. No entanto, orelatório da ação traz outra justificativa para a operação, considerada a mais letal da história do Rio: o fato de o local ser considerado um dos quartéis-generais de uma facção criminosa da cidade.

“Em razão da dificuldade de se operar no terreno, em razão das barricadas e das táticas de guerrilha realizadas pelos marginais, o local abrigaria uma quantidade relevante de armamentos, os quais seriam utilizados nas retomadas de favelas perdidas por facções rivais ou para se reforçar de possíveis investidas policiais”, diz trecho do documento, que em momento algum cita a questão de aliciamento de menores.

Ainda de acordo com o relatório da polícia, a investigação começou a partir da apreensão de fotografias de traficantes por Policiais Militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Jacarezinho. Com isso, foi iniciado um trabalho de inteligência pelo Setor de Busca Eletrônica da polícia para analisar diversos perfis das redes sociais vinculadas ao tráfico de drogas da comunidade.

Raian de Oliveira Lopes, o ‘Nego Velho’, vestido de colete e portando rádio de comunicação: criminoso também era investigado na operaçãoRaian de Oliveira Lopes, o ‘Nego Velho’, vestido de colete e portando rádio de comunicação: criminoso também era investigado na operação Foto: Reprodução do Relatório

No relatório constam algumas dessas publicações, como uma feita no dia 14 de agosto de 2020 por Guth Miller Baiano Ribeiro, o ‘GU da VASCO’, um dos indiciados, que aparece portando um fuzil e escreve “Jacaré melhor gestão”. Em outra, no dia 15 de junho de 2020, Raian de Oliveira Lopes, o “NEGO VELHO”, outro alvo da Operação, posta um tweet dizendo que quem usa farda é seu inimigo e coloca uma foto portando um fuzil.

Guth Miller, o ‘GU do Vasco’, portando fuzil em foto que deu partida à operaçao no JacarezinhoGuth Miller, o ‘GU do Vasco’, portando fuzil em foto que deu partida à operaçao no Jacarezinho Foto: Reprodução do Relatório

Direitos humanos

Organizações de proteção aos direitos humanos e da sociedade civil, como a Anistia Internacional, consideram que houve na favela uma chacina. A Polícia Civil, por sua vez, sustenta que todos os mortos pelos agentes eram suspeitos de integrar o tráfico de drogas. Em entrevista à CNN Brasil, o subsecretário Operacional da Polícia Civil do Rio, Rodrigo Oliveira, defendeu a atuação dos policiais, mas admitiu que não se pode “considerar um sucesso uma operação que termina com tantas vítimas”.