A saúde mental tem ganhado cada vez mais espaço na lista de prioridades de grandes corporações. O tema, que antes avançava de forma tímida, deu um salto em 2020 com a chegada da pandemia, quando 576 mil pessoas pediram afastamento do trabalho por transtornos mentais e comportamentais. O número revela uma alta de 26% em comparação ao ano de 2019, dizem dados da Secretaria Especial da Previdência e Trabalho.

Fazem parte desse movimento projetos de cuidados com a saúde mental e bem-estar para os funcionários. Pesquisa da consultoria Willis Towers Watson (WTW) apontou que, de 2015 para 2021, houve um aumento de 33% no interesse das empresas de implantar ações de saúde e bem-estar na rotina de seus colaboradores.

Em meio ao momento pandêmico, além de criar programas de cuidados com a saúde, as empresas estão elaborando estratégias para atuar na prevenção de doenças. De 186 empresas que participaram do estudo, 78% planejam, em três anos, personalizar as estratégias para a necessidade dos colaboradores em seus diversos momentos da vida.

Segundo Walderez Fogarolli,diretora de Gestão da Saúde da WTW, as empresas brasileiras precisam implantar ações que realmente atendam às necessidades dos funcionários.

“As empresas nos EUA, por exemplo, estão com um avanço muito maior do que as brasileiras em questões de saúde mental. As companhias nacionais ainda estão com o conceito de comprimento legal — com ações pontuais de bem-estar, mas parece que, agora, começaram a desenhar estratégias, diz Fogarolli.

 

Prevenção

O Grupo Votorantim, por exemplo, criou o programa online “Desafio VSaúde”, para estimular o engajamento e a participação dos funcionários em ações de exercício físico.

Também foi incentivado pela companhia que todos realizassem exames de rotina com frequência para manter uma vida saudável.

“Ao longo da pandemia, criamos o lado preventivo, para não esperar acontecer um problema para criar soluções, por exemplo. Não é necessário esperar que um funcionário peça afastamento por ansiedade para olhar essa questão com mais cuidado. Podemos prevenir o bem-estar do nosso colaborador com o incentivo de exames de rotina”, diz Vinícius de Holanda, gerente de Remuneração e Benefícios da Votorantim.

Com o isolamento social e o aumento de empresas aderindo ao modelo de home office, especialistas ressaltam também que ficou difícil para algumas pessoas separar os problemas pessoais dos profissionais, pois agora eles ocupam o mesmo espaço.

Avaliando questões como essa, em abril deste ano, o LinkedIn, que segue desde março de 2020 em trabalho remoto, decidiu conceder uma semana de folga remunerada para todos seus 15 mil funcionários pelo mundo.

Antes da pandemia, a empresa já oferecia sessões semanais de yoga e mindfulness gratuitas no escritório, além de 20 terapias ao logo ano. Em julho, a empresa deu mais um passo e anunciou que todos os colaboradores trabalhassem meio período nas sextas-feiras durante os meses de julho e agosto.

“Essa jornada mais curta tem o intuito de promover uma oportunidade maior de descanso e cuidado pessoal”, diz Alexandre Ullmann, diretor de recursos humanos do LinkedIn.

Além das adaptações feitas por conta da pandemia, a plataforma criou alternativas voltadas para os colaboradores que são pais de filhos com até 13 anos. Eles podem optar por mais flexibilidade de horário, redução de carga de trabalho ou tirar uma licença de até 60 dias para ajudar nos cuidados com as crianças.

A licença também vale para funcionários responsáveis pelos cuidados de pais idosos com necessidade de cuidados especiais. Os dias da licença podem ser contínuos ou intermitentes.

Para incentivar os cuidados com a saúde mental, a empresa tem disponibilizado acompanhamento de terapeutas de forma ilimitada e com a possibilidade da inclusão dos membros da família.

No final de setembro, a Nike também aderiu à folga coletiva. Matt Marrazzo, gerente sênior de marketing da empresa, compartilhou em seu perfil no LinkedIn a mensagem oficial da companhia em que diz que o período é para “relaxar, desestressar e passar um tempo com seus entes queridos” E finaliza dizendo: “Não trabalhe”.

Trabalho e saúde

As razões de um desequilíbrio psicológico podem ser várias, como uma saúde física ruim, traumas ou uma crise financeira. De acordo com o levantamento da WTW, o estresse é apontado como o fator que mais impacta a força de trabalho (83%), seguido pela depressão, ansiedade (82%) e sedentarismo (69%).

O adoecimento mental já afeta cerca de 1 bilhão de pessoas, diz a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em um momento como este, Andreia Girardini, diretora de pessoas e cultura da plataforma GetNinjas, aponta a importância das organizações escutarem mais seus colaboradores.

“Está cada vez mais urgente a necessidade de que as empresas comecem a olhar e a escutar quais são as dificuldades dos funcionários, pois a comunicação é a melhor ferramenta para auxiliar os colaboradores”, diz Girardini.

Andreia conta que, antes mesmo da pandemia, foi realizada uma pesquisa interna para saber quais eram os desejos dos ninjas – como são chamados os funcionários.

Com isso, disponibilizaram atendimento de tarólogos, manicures e massoterapeutas. Porém, com a chegada da pandemia, todos foram para o trabalho remoto e as atividades tiveram que ser repensadas.

Uma nova pesquisa indicou a demanda maior por cuidados com a saúde. Assim entram as aulas de yoga, ginástica laboral a distância, terapia e workshop de receitas.

O levantamento feito pela GetNinjas trouxe ainda outra questão: as finanças. Por isso, a plataforma passou a oferecer consultoria financeira. Além disso, os funcionários recebem ajuda de custo para gastos com energia e internet, e o vale-alimentação foi substituído por um cartão que pode ser usado não só com alimentos, mas com transporte e itens de educação e cultura.

Ao contrário de muitas organizações que tiveram que demitir os funcionários, a GetNinjas teve um aumento de 126% da equipe de 2019 para 2020. E como o time ainda não se conhecia, foi feito happy hour virtual com cupom de bebidas e petiscos para assistirem juntos a um Stand Up Comedy realizado especialmente para os ninjas.

Brinde

No grupo Movile, dono de empresas como iFood, PlayKids e Sympla, as iniciativas começaram pela capacitação de lideranças para identificarem possíveis sintomas entre a equipe e acionar ajudar quando necessário.

Tradições como a comemoração com champanhe a cada meta batida foram transferidas para a casa de um dos envolvidos, com envio de cesta com espumante e petiscos. “Essa é uma maneira de não perder a tradição e fazer com que todos da família possa celebrar com o funcionário uma nova conquista”, diz Natália Zeferino, gerente de Recursos Humanos da Movile.

E, além do auxílio com custos do home-office, o funcionário também pode solicitar, para receber em casa, material de escritório como post-it e canetas, por exemplo.

Para funcionários com familiares desempregados, a companhia tem um programa de apoio. A famílias com até três pessoas em que outras duas estejam sem trabalho, destina R$ 400 para cada. Já para grupo familiar com mais três ou quatro pessoas e uma sem emprego, o valor é de R$ 500 por pessoa. Com quatro familiares ou mais, o valor é de R$ 600 por membro.

“Nós acreditamos que, se o nosso colaborador estiver passando uma crise financeira, devemos ajudar, pois, dessa forma iremos cuidar da saúde emocional dele, diz Natália.