O Sudão foi palco, nesta segunda-feira (25), de mais um golpe de Estado. O chefe do governo de transição do Sudão, general Abdel Fattah al-Burhane, dissolveu o governo e o Conselho de Soberania que visava implantar um regime democrático e declarou estado de emergência em todo o país, um dos mais pobres do mundo.

O país africano tem uma trajetória de décadas de instabilidade e conflitos internos, que começam antes mesmo do fim do período colonial britânico, na década de 1950. Duas longas guerras civis que duraram de 1955 a 1972 e de 1983 a 2005, aliadas à ditadura de Omar al-Bashir, de 1989 a 2019, resultaram na guerra em Darfur, que dura até hoje, na separação do Sudão do Sul em 2011 e na ausência de infraestrutura e condições mínimas para a população.

 

O ditador al-Bashir, que tomou o poder em 1989 após derrubar o último presidente eleito democraticamente, governou o país com mão de ferro durante três décadas. Nesse período, o Sudão não teve Parlamento ou Suprema Corte e o presidente era “reeleito” em eleições que disputava sozinho. 

Ditadura e crise

No fim de 2018, durante uma grave crise econômica, milhares de sudaneses protestaram contra uma medida que triplicava o preço de muitos bens de consumo, como o pão. A situação se arrastou até 6 de abril de 2019, quando centenas de pessoas que acamparam diante do quartel-general do exército na capital, Cartum. Cinco dias depois, al-Bashir foi deposto.

Em seguida, foi criado um conselho militar que iria supervisionar uma transição para uma democracia civil, mas quando isso não foi levado adiante, os protestos foram retomados. Em 3 de junho, mais de 100 pessoas foram mortas quando homens armados das forças de segurança usaram gás lacrimogênio e munição real para dispersar uma multidão, no evento que ficou conhecido como ‘massacre de Cartum’.

Em julho, o poder foi dividido entre civis e militares, para a criação de um Conselho Soberano que deveria encaminhar o país para a democracia em um prazo de 3 anos. A entidade foi formada em agosto, sob o comando do general Abdel Fattah al-Burhane. Abdallah Hamdok, ex-economista da ONU, torna-se primeiro-ministro.

No fim de 2019, foi aberta uma investigação no Sudão sobre os crimes em Darfur contra o ex-presidente, procurado por mais de uma década pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por “genocídio”, “crimes de guerra” e “crimes contra a humanidade”. Em agosto desde ano, o governo sudanês e o TPI fizeram um acordo de cooperação para entregá-lo.

Já no último dia 3 de outubro, o Sudão e os grupos rebeldes e movimentos políticos que atuam em Darfur assinaram um acordo de paz que pode encerrar a guerra após 17 anos.

Ao mesmo tempo, a situação interna foi se tornando cada vez mais instável. Em 17 de setembro, manifestantes bloquearam Porto Sudão, o principal porto do país. Quatro dias depois, o governo anunciou que impediu uma tentativa de golpe, que envolveria militares e civis que teriam vínculos com o regime de al-Bashir.

Em 16 de outubro, uma passeata a favor de um governo militar foi realizadas em Cartum. Em reação, grandes manifestações em todo o país aconteceram no dia 21, pedindo que fosse instaurado um governo civil.

Nesta segunda, a junta militar mandou prender a maioria dos líderes civis, incluindo o primeiro-ministro Abdallah Hamdok, no que os pró-democracia descrevem como um “golpe de Estado”.