Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, é responsável pela política monetária da maior economia do mundo. Por isso, suas decisões, e sinalizações, têm um amplo impacto.

Na última quarta-feira (5), por exemplo, as bolsas ao redor do mundo apresentaram queda e o dólar valorizou após a ata da última reunião da autarquia. Só no Brasil, o Ibovespa caiu mais de 2% e a moeda norte-americana subiu, fechando na casa dos R$ 5,71 naquele dia.

O motivo foi a percepção do mercado de uma postura mais dura do Fed ante a inflação, chamada de contracionista ou hawkish, com a chance de acelerar as altas de juros no país já previstas para 2022.

Por trás disso, está a percepção dos diretores da instituição de que a inflação não é tão passageira quanto previsto anteriormente, e que a recuperação do mercado de trabalho já permite iniciar o abandono da política expansionista, de compra de títulos, juros baixos e injeção de dinheiro, adotada durante a pandemia.

Para especialistas consultados, o impacto negativo nos mercados é natural nesse processo, e tende a se repetir conforme o Fed continua seu movimento mais contracionista.

A intensidade, porém, pode não ser tão grande, e fatores internos de cada mercado, incluindo o brasileiro, devem ser levados em consideração.

As causas do impacto

Simão Silber, professor da FEA-USP, afirma que o dólar ainda é a moeda mais importante do mundo, e os títulos do tesouro emitidos nos Estados Unidos, chamados de Treasuries, possuem “muita credibilidade”.

“Isso significa que qualquer aumento de taxa de juros aumenta a atratividade de comprar títulos americanos. E o dinheiro sai de algum lugar para ir pra lá, particularmente dos países emergentes, como o Brasil”, diz o professor.

Mas o movimento não atinge apenas esses mercados. Silber afirma que o Japão, com uma taxa zerada de juros, e a Europa, que aumentou a cautela ante a inflação mas não elevou os juros, também perdem investimentos. Não à toa, na semana passada as bolsas europeias caíram após a ata do Fed. As próprias bolsas norte-americanas recuaram no dia, com a atratividade maior dos Treasuries.

Ao mesmo tempo, ele afirma que, com os juros baixos em todo o mundo durante o período da pandemia, e com o mercado financeiro recebendo mais dinheiro de bancos centrais como estímulo, o mercado acionário global “disparou nesses anos”.

“As bolsas estavam muito elevadas, mas se os juros sobem, elas despencam, isso é padrão. A postura do Fed [de retirar estímulos e subir juros] não é uma surpresa. O que a gente não sabia era a hora que iria acontecer”.

Após a ata, o “quando” ficou um pouco mais claro. A expectativa majoritária, agora, é de quatro altas de juros em 2022, com a primeira podendo ocorrer já em março. Atualmente, a taxa está entre 0% e 0,25% ao ano.

Para André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, o Fed fará muito mais um processo de encerrar as injeções que estava fazendo na economia, já que a taxa de desemprego, hoje em 3,9%, está chegando ao nível desejado pelo banco central, enquanto a inflação começa a se afastar das metas, demandando uma mudança de postura.

A comunicação do Fed

Entretanto, o Fed já vinha comunicando a perspectiva de mudança de postura desde 2021. Os próprios diretores da autarquia foram gradualmente passando da visão de apoio às medidas de estímulo para sua redução e, então, eliminação. O processo de recompra de títulos do tesouro já estava sendo reduzido desde o fim do ano passado.

Para Perfeito, o movimento mais lento, e comunicativo, do Fed, ocorre porque a maior parte dos títulos emitidos estão com empresas privadas, principalmente bancos. “Se sobe muito os juros, o preço dos títulos perde valor, e pode levar a um choque no balanço dos bancos. Seria um caos”.

Nesse sentido, ele afirma que o próprio Federal Reserve parece estar querendo “gerar um ajuste no mercado”, ou seja, explicar o que pretende fazer no futuro e deixar os investidores se preparem, remanejando investimentos, para só então concretizar o prometido.

É uma postura diferente da de 2013, quando o presidente da instituição à época, Ben Bernanke, pegou os mercados de surpresa ao anunciar que o banco central poderia reduzir a compra de ativos iniciada após a crise de 2008.

A reação do mercado foi negativa. Um levantamento da XP aponta que, entre maio e dezembro de 2013, o Ibovespa caiu 10,4%, e o dólar subiu 13,7%.

O Fed, depois, melhorou a comunicação e conseguiu aliviar um pouco as perdas, mas o episódio ficou conhecido como “taper tantrum”, resumindo uma “birra” pelo fim dos estímulos (o processo de tapering).

Silber afirma que o Fed tem sido mais comunicativo dessa vez, algo que faltou na crise de 2008, para evitar variações grandes e bruscas nos ativos e moedas de outros países, mas é impossível que o mercado precifique totalmente os efeitos das ações do banco central antes que elas ocorram.

No caso do movimento da semana passada, a análise do professor é a mesma, por mais que o mercado já pareça ter precificado em ações e câmbio uma parte razoável dos efeitos de uma futura alta de juros.

“Ninguém tem bola de cristal. Se aparece notícia boa, o dólar cai, se aparece ruim, ele sobe. Não é um caminho linear, é uma estrada cheia de buraco. Não existe nada que o Fed possa dizer que é uma previsão definitiva, pode ser muito pior ou muito melhor”, diz.

A própria reação dos mercados mundiais, com quedas do Ibovespa ao bitcoin, melhorou nos últimos dias, conforme falas do atual presidente do Fed, Jerome Powell, e o dado de inflação dos Estados Unidos vieram em linha com o esperado e acalmaram os investidores.

Nesse sentido, o movimento nos últimos dias, com a bolsa subindo e o dólar caindo, “pode ser um ajuste diante de uma reação excessivamente negativa”.

Já o economista-chefe da Necton diz que houve “muito desse frenesi” em torno disso porque o mercado lá fora está com receio de que a bolsa vá cair  —e muitos já apostam nisso—, o que leva a essa queda.

Na visão dele, a volta dos juros norte-americanos ao patamar anterior à pandemia não é algo excepcional, e pode ser até mais acelerada. “Eu acho que o mercado está tentando descobrir uma desculpa para realizar lá fora os ganhos durante a pandemia, e daí vem esse exagero. O mercado vê que ocorrerá essa alta, devido à inflação, mas o que Fed fará é tímido em relação ao temor que está se tendo”.

Efeitos no Brasil

No caso dos efeitos no Brasil, André Perfeito afirma que é importante levar em conta o processo de alta da taxa básica de juros, a taxa Selic, que começou em 2021 e deve continuar em 2022 devido à inflação elevada, com a previsão de um encerramento entre 11% e 12% ao ano.

“O conjunto disso pode tornar não tão agudo esse processo de valorização do dólar em relação ao real. Tem espaço até para apreciação do real devido aos juros e a expectativa de superávit na balança comercial”, afirma.

Ao mesmo tempo, os juros maiores afetam ações, em especial a dos chamados setores alavancados, que tomam empréstimos cujo valor sobe com conforme os juros se elevam. O setor de tecnologia é um dos mais alavancados, e as ações tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos caem conforme altas de juros são sugeridas.

Perfeito avalia, porém, que a elevação da Selic pode não ser tão ruim assim para a bolsa de valores. “A gente viu uma taxa disfuncional de 2%. Acho que agora, com um patamar mais razoável na percepção de risco, os preços já se ajustaram. Mesmo com eventuais altas, o risco está mais precificado. De um lado é ruim, cria um problema de fluxo de caixa, mas o preço dos ativos já estão corrigidos, e tem percepção de risco mais equilibrada”.

Ou seja, na visão do economista, por mais que a alta de juros no Brasil e nos Estados Unidos afete o mercado de capitais, o cenário “é mais condizente ao real risco do Brasil”.

“A alta de juros aqui pode segurar investimentos que sairiam para os Estados Unidos. Pode ajudar o dólar a cair por mais que haja uma alta agora”.

Para o professor da USP, porém, a alta dos juros pelo Banco Central não impede uma fuga de capital estrangeiro. “Na verdade, coloca mais pressão em cima do Banco Central, porque não tem uma política para juro acima de 0% nos Estados Unidos, e pode fazer com que os juros aqui talvez precisem subir mais, em meio a essa pressão no câmbio”.

Ele diz que fatores inflacionários, como alta de combustíveis e preços de energia, ainda não parecem estar resolvidos, e a questão dos juros norte-americanos apenas se soma nesse ambiente de pressões inflacionárias.

As eleições presidenciais em 2022 também devem pesar, em um cenário de discussões sobre âncora fiscal, PEC dos Precatórios, a criação do Auxílio Brasil e pressão por aumentos salariais.

Por isso, ele afirma que o cenário de ações e câmbio em 2022 =vai ser de sobe e desce. “É como se fosse uma serrinha, com períodos em que o dólar sobe, aí desce. Vai depender do humor do mercado, tentando precificar o futuro. O grande problema do futuro é que ele é incerto”.

Para a próxima reunião do Fed, entre 25 e 26 de janeiro, Perfeito espera que o banco central busque “deixar o processo mais claro”. “O mercado está precificando, esse é ruído, é o Fed convidando o mercado a fazer esses ajustes. Deixar o sistema se arrumar. Se antecipa, pode pegar mercado despreparado”.

“Quanto mais certeza melhor, e o Fed está falando, insinuando, há um bom tempo já, dando esses alertas para os investidores”.