A diretora da Anistia Internacional no Brasil e coordenadora do movimento Alerta, Jurema Werneck, e o epidemiologista Pedro Hallal, da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), apresentaram à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado estimativas sobre quantas mortes pelo novo coronavírus poderiam ter sido evitadas no Brasil que variaram de 120 mil a 400 mil óbitos.

Os cálculos usaram metodologias distintas e não se debruçam sobre recortes de tempo idênticos, mas ambos partem da premissa de que a condução do enfrentamento da pandemia pelo governo federal falhou tanto ao ter resistido à adoção de medidas restritivas mais amplas e duradouras quanto ao não conferir a devida agilidade à compra de vacinas.

Werneck apresentou à CPI um estudo que estima que 120 mil mortes pelo novo coronavírus poderiam ter sido evitadas no Brasil até 25 de março de 2021, ou seja, nas 52 semanas seguintes à 1ª morte pelo vírus no país. Naquele dia, o total de óbitos chegou a 303.726.

A análise leva em conta cálculos considerando o “excesso” de mortes, que diz respeito a uma comparação com o número esperado de óbitos de acordo com o histórico no Brasil de 2015 a 2019. No primeiro ano de pandemia o “excesso”, tanto por covid quanto por todas as outras ditas causas naturais, foi de 305 mil óbitos.

A possibilidade de evitar 120 mil desses 305 mil óbitos, portanto, reflete, segundo o estudo Mortes Evitáveis por Covid-19 no Brasil, um cenário em que o país tivesse adotado medidas não farmacológicas como distanciamento social e restrições às aglomerações, fechamento de escolas e do comércio “de maneira ampla, duradoura e suportada por medidas de apoio social”.

“Os senhores podem perguntar: todas as 305 mil mortes são por Covid? Eu vou responder: tem casos de covid, mortes causadas diretamente por covid, mas mortes causadas indiretamente pela presença da pandemia. Isso significa que pessoas ou retardaram a busca de ajuda e morreram antes de ter ajuda e pessoas buscaram ajuda, mas o serviço estava sobrecarregado e não foi capaz de dar a atenção necessária e vieram a óbito também, ou seja, são todas as mortes que a pandemia provocou direta ou indiretamente”, disse Werneck à CPI.

O outro especialista convocado é o epidemiologista Pedro Hallal, que, por sua vez, declarou que até 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Ele joga luz sobre os efeitos da demora da chegada de vacinas.

“São 4,5 milhões de doses que teriam chegado caso o governo tivesse respondido a um dos 101, eu acho, e-mails [da Pfizer] a que não respondeu naquele 1º momento. No caso da CoronaVac, o Dr. Dimas disse aqui: seriam 100 milhões até maio. O que nós fizemos? Já tinham, até aquele momento, chegado 51 milhões de CoronaVac no Brasil. Então, nós só consideramos as 49 milhões a mais que teriam chegado. É exatamente por isso que nós chegamos a esse número. Então, é um número composto, são 400 mil vidas que poderiam ter sido salvas por diferentes mecanismos de ação que o Brasil poderia ter adotado.”