A maior facção do tráfico de drogas de São Paulo formou um cinturão no interior do Estado do Rio. Um levantamento feito pelo EXTRA com base em processos judiciais, investigações das polícias Civil e Federal e dados da Secretaria estadual de Administração Penitenciária revela que o grupo tem bases em dez cidades no estado — espalhadas pela Costa Verde, Região dos Lagos, Sul e Centro-Sul. Em pelo menos três dos municípios, o grupo instalou bocas de fumo. Nos outros, mantém uma estrutura logística para venda de drogas a facções parceiras.

Para policiais que investigam o bando, a facção de São Paulo ocupa, no interior do Rio, vácuos de poder deixados pelas quadrilhas do estado. O interesse dos paulistas é tanto estabelecer novas rotas para a capital do Rio e para Minas Gerais quanto abastecer mercados de cidades de porte médio.

Três Rios, no Centro-Sul Fluminense, é a cidade do estado com maior penetração da facção. A proximidade do município com Minas Gerais facilitou a entrada do grupo criminoso, que também tem braços em Juiz de Fora, a apenas 60 quilômetros de distância. Segundo a investigação da PF que culminou na Operação Fluvial, de 2019, mesmo preso em São Paulo, o paulista Marcelo Araujo da Silva, o MM, fornece a droga que é vendida nos bairros da cidade dominados pela facção.

Desde 2018, o pacato município é palco de uma guerra entre o grupo paulista e a maior facção do Rio. Os homicídios em Três Rios explodiram com a disputa: foram 47 em 2019, contra 17 no ano anterior. O episódio mais sangrento da guerra foi uma chacina num bar no bairro Vila Isabel — localidade dominada pelos paulistas — em agosto do ano passado. Na ocasião, quatro homens da facção de São Paulo foram mortos por rivais.

No último dia 25, a Operação Expurgo, da PF, teve como alvo um traficante de Três Rios, Jordi de Souza — que já havia preso pela PM na cidade, em junho, com um revólver e pequenas quantidade de cocaína e crack. Mensagens de aplicativos obtidas pela PF revelam que Jordi era batizado e contribuía com a “caixinha” da facção, para ajudar membros presos ou em dificuldade.

Já em Barra do Piraí, no Sul do estado, o chefe do tráfico foi cooptado pela grupo paulista dentro da cadeia. Zandonaide dos Santos Rodrigues, o ZD — outro alvo da ação do dia 25 — domina a venda de drogas no Morro do Gama, uma das comunidades do município. Até 2017, quando estava solto, ele se dizia integrante da segunda maior facção do Rio. No Complexo de Gericinó — onde cumpre uma pena de mais de 20 anos — ZD foi batizado e virou membro da facção paulista.

A PF descobriu que, hoje, ele é o segundo homem da hierarquia da quadrilha no Rio: segundo a investigação, ele integra o grupo “Geral do Sistema da Sintonia RJ”, responsável pela gestão dos interesses da facção no sistema penitenciário. Entre suas incumbências, estão a procura e batismo de demais integrantes e ajuda a outros membros — cujos parentes estejam passando por dificuldades financeiras, por exemplo.

Da cadeia, ZD segue chefiando o tráfico em sua cidade natal: numa ligação interceptada pela polícia, o traficante determinou que câmeras sejam instaladas na comunidade para monitorar a movimentação da polícia.

A PF esteve na Penitenciária Bandeira Stampa, onde Da Leste está presoA PF esteve na Penitenciária Bandeira Stampa, onde Da Leste está preso Foto: Divulgação

Em Paraty, na Costa Verde, a facção quer aumentar seus domínios. Em abril de 2019, PMs prenderam, numa pousada, cinco paulistas com drogas e um colete balístico. Um dos chefes do grupo era o traficante Stênio Nazareth. Aos agentes, eles afirmaram que estavam no local a mando da facção para matar o chefe do tráfico de Trindade e assumir a venda de drogas.

Células da quadrilha expostas

Em janeiro de 2016, Romeu Ramos da Silva Junior foi preso numa operação da Polícia Civil em Volta Redonda, Sul Fluminense. Ele foi encontrado numa casa com outros três comparsas e 10 quilos de cocaína. A ação fez parte de uma investigação que desbaratou uma célula da facção paulista que fornecia drogas para Volta Redonda e outras duas cidades da região, Pinheiral e Barra Mansa. Romeu, hoje preso na Penitenciária Jonas Lopes de Carvalho junto a outros integrantes da facção, era responsável por adquirir a droga de um comparsa em Pernambuco e distribuir pelo Sul Fluminense.

Na mesma cadeia, cumpre pena Emerson Douglas Rocha dos Santos, oriundo de Campinas, em São Paulo. O traficante integrava outra célula da quadrilha paulista na Região dos Lagos. Ele foi preso em 2016, quando a PM recebeu uma denúncia de que criminosos de outro estado usavam um veículo preto para distribuírem drogas no bairro Boa Vista. O carro foi localizado e Emerson foi preso, com outros dois homens, numa casa com três quilos de maconha, um revólver e uma escopeta.

Ao longo da investigação que culminou na Operação Expurgo, a PF conseguiu identificar 74 membros ativos da facção paulista no Rio, sendo 38 presos — em seis cadeias do estado, quatro no Complexo de Gericinó, uma em Niterói e uma em Campos.

‘Mulas’ viram chefes

Investigação da PF também revelaram que antigas “mulas” da facção, que eram responsáveis por transportar drogas de São Paulo para o Rio, subiram na hierarquia do grupo após serem presas. Como já eram membros da facção, podiam batizar outros integrantes na cadeia. É o caso do paulista Luciano Iatauro, o Da Leste, preso em janeiro de 2018 num ônibus de passageiros em Barra do Piraí, no Sul do Rio.

Na ocasião, um cão da Polícia Rodoviária Federal (PRF) acusou a presença de droga numa bagagem, e o motorista apontou que Iatauro era o dono. Na mala, foram encontrados 44 quilos de maconha.

Ele afirmou que receberia R$ 2 mil da maior facção do tráfico de São Paulo para transportar a mala até a Rodoviária do Rio. Hoje, segundo a PF, Iatauro, preso na Penitenciaria Industrial Esmeraldino Bandeira, no Complexo de Gericinó, é o homem forte da facção no Rio.

Ligações telefônicas interceptadas pela PF mostram que ele é responsável por mediar a logística de fornecimento de drogas e armas da facção paulista para a quadrilha parceira do grupo no Rio.

 “Aqui o espaço que ele tem é grande. Dentro da Maré, aqui em cima, em Volta Redonda. Dali ele distribui, de dentro do Complexo da Maré, ou vende lá dentro mesmo”, afirmou a um comparsa. Foram flagradas conversas sobre vendas de drogas da facção de São Paulo ao Complexo da Maré, Vila Aliança, Dendê e favelas de Angra dos Reis, todas dominadas pela facção aliada.

Da Leste também organiza as remessas de drogas da facção que são entregues entregues na capital. “Melhor mandar em quantidade de uma vez, vamos supor, uns 10, uns 15, é melhor, porque vem numa forma. A gente tem que pensar bem, para não ficar indo e vindo toda hora”, afirma o criminoso.

Outras “mulas” da facção presas no Rio são Jeferson Moura Silva Santos e Anderson Richieri Nicolau, ambos presos emntre 2017 e 2018 em Itatiaia, quando levavam cargas de droga de São Paulo para Minas Gerais.

Segundo a PF, a presença de integrantes da quadrilha na capital se limita a “bairros adjacentes ao Complexo de Gericinó, com disponibilidade para atendimento de demandas criminosas ou apoio a integrantes presos”.