Em 22 de janeiro deste ano, Simone dos Santos Rodrigues surpreendeu o plenário do Tribunal do Júri de Niterói, onde era interrogada: filha biológica de Flordelis dos Santos de Souza, ela admitiu, pela primeira vez, ter planejado a morte do padrasto, o pastor Anderson do Carmo. Segundo ela, tudo ocorreu sem que sua mãe soubesse. Considerada a filha mais próxima da deputada, Simone, de 41 anos, é vista como sua fiel escudeira. Flordelis, que demonstrou surpresa com as revelações da filha, passou a apoiá-la quando Simone afirmou, primeiro, ter cometido o crime devido às investidas sexuais da vítima e, depois, por ter sofrido abusos sexuais

As declarações na tentativa de inocentar Flordelis foram repetidas por Simone no fim de abril ao Conselho de Ética na Câmara. Na próxima terça, o relator do processo, deputado federal Alexandre Leite, dará parece contra ou a favor da cassação de Flordelis.

Até alguns meses após a morte de Anderson, Simone morava na casa da família em Pendotiba, Niterói, com seus cinco filhos e o ex-marido, tendo todas as despesas custeadas por Flordelis e Anderson. No fim de 2019, ela se mudou com o caçula para a Região dos Lagos, onde passou a morar com novo companheiro.

Simone, que é chamado pela mãe de Bê ou Hebreia, nunca trabalhou fora e, antes de ser presa, em agosto de 2020, era braço direito da mãe na casa. Por semana, ganhava R$ 1,3 mil para abastecer a residência onde moravam cerca de 30 pessoas. Na casa, era comum Simone e Flordelis conversarem sozinhas. Elas chegavam a se trancar no banheiro para ficarem a sós.

Há diversos relatos de integrantes da família de que Simone e seus filhos eram as pessoas com mais privilégios na casa, contando com alimentos e roupas diferenciados. Apesar da predileção da mãe, Simone nunca teve grande atuação nas igrejas da família. Entretanto, mesmo com a pouca participação, os membros do Ministério Flordelis sabiam da posição de Simone junto à mãe.

Em 2014, quando a filha da deputada se tratava de um câncer, ficou estabelecido que todos na igreja deveriam usar lenços na cabeça, assim como ela, que perdeu os cabelos na quimioterapia. Naquele ano, Simone chegou a estrelar um clipe da mãe, “ A volta por cima”, cujo tema foi sua luta contra a doença.

No ano anterior ao crime, Simone protagonizou um escândalo na igreja, após terem vazado fotos e vídeos seus com um frequentador do templo, que era casado. Rogério dos Santos Silva revelou, na investigação, a vontade que Simone tinha de ver o padrasto morto.

Simone é filha de Flordelis com o primeiro marido, o pastor Paulo Rodrigues Xavier. São frutos da relação Adriano e Flávio, acusado de ter atirado em Anderson. Eles são os únicos filhos biológicos da deputada.

Simone foi casada com um irmão afetivo, André Luiz de Oliveira, que chegou à casa de Flordelis quando a deputada ainda morava no Jacarezinho. O casal, que começou a se relacionar no início dos anos 90, registrou como filha, em 1993, a primeira criança acolhida por Flordelis, Rayane dos Santos, que a deputada diz ter tirado de um lixão.

André e Simone casaram, tiveram três filhos biológicos e adotaram um menino de 5 anos em 2016, quando não estavam mais juntos. O casal se separou há cerca de 12 anos, mas André continuou a morar na casa da família. A criança adotada é filho de uma filha afetiva de Flordelis. André e Rayane também estão presos acusados de envolvimento na morte de Anderson.

Pastor implicava com namorados da enteada

O papel de Anderson na família, centralizando decisões e as questões financeiras, causava grande incômodo em Simone, que costumava ressaltar para Flordelis que a deputada ela e não, o marido.

Mas eram notórias, na família, desavenças entre Anderson e Simone por outro motivo: o pastor tinha implicância com namorados da enteada. Depois do crime, uma revelação veio à tona: a filha biológica de Flordelis tinha namorado o padrasto antes de ele começar a se relacionar com a mãe.

Na primeira vez em que Simone admitiu ter planejado a morte de Anderson do Carmo, a defesa de Flordelis passou a alegar que as declarações inocentavam a deputada da acusação de ser a mandante do crime, tese refutada pelo Ministério Público e pela Justiça. A juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce decidiu levar a parlamentar a júri popular a pedido do MP. A defesa da parlamentar ainda recorre da decisão.

Provas de envolvimento em crime

Contra Simone, além da própria ter admitido sua intenção de matar o padrasto, há ainda o relato de um homem com o qual ela manteve um relacionamento extraconjugal. Ex-frequentador da igreja, Rogério dos Santos Silva relatou que Simone relatou a ele que desejava matar o pastor. “Vou matar esse demônio, a gente não aguenta mais. Minha mãe não aguenta mais”, teria dito ela a Rogério.

Segundo ele, a filha de Flordelis ainda admitiu que estava tentando matar o padrasto envenenado, acusação que Simone nega. No telefone dela, foram encontradas buscas por venenos, arsênico e cianeto, antes da morte de Anderson. Além de Rogério, outras três testemunhas, integrantes da família, apontam Simone como um das responsáveis por envenenar Anderson.

Uma das testemunhas é Luã, filho afetivo de Flordelis e irmão de Simone. Ele relatou em seu depoimento, em novembro do ano passado, que Simone lhe confidenciou estar tentando matar Anderson envenenado. Luã narrou ter ouvido da irmã que o pastor era “tão ruim que não morria” e acrescentou que diante de tal dificuldade, Flordelis tinha pedido à filha que conseguisse alguém para executar a vítima. Simone teria hesitado diante da solicitação da mãe.

O relato de Luã vai de encontro aos depoimentos de Simone, que afirma ter planejado o assassinato do padrasto por vontade própria e sem o conhecimento de Flordelis. A própria deputada já admitiu, em interrogatório, que tinha conhecimento da existência de um plano de integrantes da própria família para assassinar Anderson.

Filha investigada

Lorrane Oliveira dos Santos, filha de Simone e André, ainda está sob suspeita, sendo investigada em um terceiro inquérito aberto pela DH para apurar a participação de outras pessoas no crime. No início do primeiro inquérito, a jovem chegou a ser investigada por suspeita de ter jogado um celular no mar da Praia de Piratininga, em Niterói. O aparelho teria sido arremessado durante a busca e apreensão da polícia, realizada na casa da família de Flordelis no dia 18 de junho, dois dias após a morte de Anderson.

Os celulares da vítima, de Flordelis e de Flávio nunca foram encontrados pelos investigadores. Em janeiro deste ano, em seu interrogatório na Justiça, Simone também assumiu a culpa pelo desaparecimento dos aparelhos. Ela relata ter jogado os telefones no mar, em Piratininga.

Outro filho de Simone, Ramon, também esteve na mira do investigadores. O rapaz foi o responsável por conversar pelo telefone com um médico do Corpo de Bombeiros logo após Anderson ter sido baleado. Em depoimento à Polícia Civil, o profissional de Saúde relatou que Ramon se recusou a prestar os primeiros socorros à vítima, conforme sua orientação.

De acordo com o médico, Ramon aparentava estar muito calmo e alegou que o pastor já estava morto. Em seu depoimento à polícia, o filho de Simone alegou que chegou a fazer um dos procedimentos solicitados pelo socorrista, mas se negou a fazer a massagem cardíaca, pois acreditava que o avô já estava sem vida.

Depois da ligação feita para o 190, Anderson ainda chegou a ser levado para o Hospital Niterói D’Or, onde já chegou morto.