Pouco antes de morrer, aos 65 anos, no começo de maio, Eli da Silva Chaves, o Eli Tricolor, deixou para o filho Fabiano Carlos Gomes Chaves, de 36, a missão de atender três desejos dele. Dois eram relacionados ao Fluminense, seu time do coração, e o terceiro, considerado mais complicado pelo rapaz, era localizar um antigo amigo cadeirante, como o pai, para fazer a doação de uma cadeira de rodas motorizada, que tinha sido dele e na loja custava cerca de R$ 10 mil. A localização que parecia impossível aconteceu de forma inusitada, com a ajuda das redes sociais, acabando com uma busca que já durava quase quatro meses.

Uma postagem feita pela filha do outro cadeirante, anunciando que seu pai estava vendendo pão de queijo nas ruas de Bangu foi compartilhada por páginas de bairro na internet e viralizou, ajudando na aproximação com o doador. Fabiano contou que ao ver a foto achou a pessoa parecida com a que procurava, mas só teve certeza ao ler nos comentários que o vendedor ambulante tinha sido cobrador de ônibus. Por coincidência, sua banca fica perto do trabalho da noiva do rapaz.

— Foi triste saber que o Tricolor, nosso grande amigo, faleceu. Ele (Fabiano) falou que o pai sempre teve o desejo de me ajudar a adquirir uma cadeira motorizada, já que tinha mais conhecimentos do que eu. Ela (a cadeira de rodas) significa um troféu para mim. Uma lembrança do meu grande amigo. É um presente marcante que vai facilitar a minha locomoção — agradeceu o ambulante José Luiz da Silva Santos, de 50 anos, que perdeu o movimento das pernas aos 4 anos, após contrair poliomielite.

Ele contou que morava próximo de Eli, em Senador Camará, e ficaram amigos porque passava sempre por sua casa e parava para conversar. Porém, perdera o contato com o amigo há pouco mais de um ano e meio, depois de se mudar para outro endereço mais distante, embora no mesmo bairro.

Casado e pai de duas filhas adolescentes, João Luiz recebe uma pensão de cerca de R$ 1 mil e só conta com a ajuda da mulher que é auxiliar de serviços gerais e também ganha valor semelhante. Ele começou o negócio na semana passada para ajudar nas finanças. A postagem feita pela filha mais velha, de 18 anos, era para alavancar as vendas do pão de queijo, que custa R$ 1, a unidade. Ele tem vendido uma média de 60 por dia.

Para comprar o carrinho e o forno, que consumiram em torno de R$ 4 mil, João Luiz contou com a ajuda de parentes. A massa do pão de queijo ele compra pronta e armazena no freezer em casa. Diariamente leva apenas um balde para vender. Seu desejo é comprar um carro para poder levar seu equipamento de trabalho para casa todos os dias e, assim, se livrar do pagamento do aluguel do depósito, que consome R$ 30 semanais. A reforma da cadeira manual, que o acompanha há cinco anos e precisa trocar peças, agora poderá esperar.

— Vinha tentando consertar há dois anos, mas ia gastar uns R$ 4 mil. Pretendo fazer isso mais tarde, porque há locais que não vai dar para ir com a motorizada. Mas pelo menos agora dá para esperar — disse.

A cadeira motorizada, da marca Freedom, pertenceu a Eli, que teve as duas pernas amputadas, por conta de complicações com a diabetes. O presente ainda não tem data para ser entregue. Apesar do pouco uso, estava com o antigo dono há dois anos, Fabiano pretende fazer uma pequena reforma, colocar pneus novos e trocar os comandos de lado, já que seu pai era canhoto e João Luiz, destro. O rapaz contou que ficou muito feliz por realizar um desejo do seu pai.

— Antes de morrer meu pai fez alguns pedidos. Parecia até que sabia que partiria logo. Um deles foi ajudar esse rapaz que sempre passava por aqui em frente à minha casa e virou amigo. Mas com esse negócio da pandemia ficou difícil de encontrar. Muita gente aqui tinha morrido de coronavírus e esse era o meu medo. Mas, vi as postagens e reconheci o rapaz que ficava com meu pai. Tomado de surpresa chorei muito quando vi a publicação com a minha noiva e agradeci a Deus por essa oportunidade. A gente já estava sem esperança — relatou.

Tricolor fanático sonhava com homenagem póstuma do clube

As outras duas vontades têm a ver com o Fluminense, time do coração do Seu Eli: ele pediu para receber uma homenagem póstuma do time tricolor, que segundo seu filho já estaria encaminhada junto a um assessor da direção do clube. O outro desejo vai ter de esperar um pouco, O torcedor pediu para quando seu corpo for exumado seja feita a incineração dos ossos e as cinzas jogadas em volta do gramado do clube, em Laranjeiras, onde ele trabalhou entre 1994 e 1998 como segurança e cujas arquibancadas frequentou a vida toda.

— Meu pai era muito fanático pelo Fluminense e passou isso para a gente. Agora é esperar esses três anos (tempo mínimo) para poder fazer a exumação, cremar (os ossos), pedir autorização da presidência do time e dar uma volta nas Laranjeiras jogando as cinzas do meu pai para que ele possa repousar onde sempre quis, dentro do clube que mais amou — afirmou Fabiano.

Torcedor fanático, Eli Tricolor costumava dizer que suas três paixões começavam com a letra F: família, Fluminense e Fred. O carinho pelo artilheiro era recíproco. O jogador chegou a presenteá-lo com duas cadeiras de rodas. Encontrar sua casa em Senador Camará era fácil. Escudos do time e uma grande bandeira tricolor não deixavam dúvidas.

No dia 4 de maio, dois dias depois do torcedor ilustre ter morrido de infarto, o presidente do clube, Mário Bittencourt, prestou uma homenagem numa rede social. “Hoje recebi a notícia de que no dia 2 de maio faleceu o meu amigo Eli da Silva Chaves. Seu Eli, como era carinhosamente chamado por todos, era um grande tricolor e frequentava semanalmente o treinos quando eram realizados em Laranjeiras. Cadeirante, ele saía de casa sempre com o apoio de amigos e parentes para acompanhar os treinos e os jogos do nosso tricolor”, escreveu sobre o torcedor que foi sepultado com uma camisa do time que mais amou. Uma bandeira tricolor cobriu o caixão.