Declaradamente ateu, o ator Flávio Migliaccio, que foi encontrado morto em seu sítio em Rio Bonito estrelou uma peça em 2017 em que seu personagem tinha uma conversa com Deus. Em “Confissões de um senhor de idade”, com texto escrito e dirigido por ele mesmo, Migliaccio contava suas histórias de mais de 60 anos de carreira e oito décadas de vida. Em entrevista ao EXTRA na ocasião da estreia, ele comentou que o espetáculo não o fez rever suas convicções religiosas:

— Nos ensaios, Deus não conseguiu me convencer do contrário. E olha que ensaiei bastante (risos). Mas temos uma relação saudável. O homem transforma tudo numa coisa espiritual. A figura de Deus é uma energia bonita que existe na natureza.O detalhe importante é que eu não acredito nele, né? A partir daí, um começa a falar da vida do outro. É bem engraçado. Se não tiver bom humor, fico mal-humorado (risos).

Flávio Migliaccio  já recebeu prêmio de pijama em 2018

O veterano, que já tinha confidenciado ter sido assediado sexualmente por um padre quando criança, no colégio, confirmou que a experiência traumática contribuiu para a sua descrença, completando:

— Aconteceram muitas coisas que fizeram com que eu me tornasse ateu. Usam a religião para ganhar dinheiro. Você pode ter religiosidade e não ter religião. Eu tenho amor pelo próximo, pela natureza, procuro viver em sintonia com o lugar em que vivo. Quando o bicho pega para o meu lado, procuro analisar os acontecimentos e resolver através da natureza. Se você está triste, anda numa praia com o vento batendo no rosto que isso pode curar.

Questionado sobre o que lhe aconteceria depois da morte, ele respondeu, com bom humor:

— Vou virar pó e ficar girando com o universo. É uma tremenda adrenalina (risos)!

Na mesma entrevista, Migliaccio afirmou que sua idade avançada não era motivo de desrespeito na TV.

— Não! Pelo contrário, ela tem muito respeito. Eu sou um exemplo disso. Acho que a televisão tem preconceito contra os maus atores, com quem sacaneia. Quem respeita tem retorno — argumentou ele, que era casado há seis décadas com a mesma mulher: — Os dois têm que se respeitar. Isso não pode se perder. O sexo se faz de várias maneiras. Olhares, palavras, aperto de mão… Você descobre formas de fazer com que o amor se transforme em prazer.

Sobre planos profissionais a serem realizados, ele citou a vontade de escrever um seriado chamado “Os filhos de Shazan e Xerife”, derivado da bem-sucedida parceria com o amigo Paulo José na TV, na década de 1970:

— Pegaria dois atores de “Malhação” e eles sairiam pelo mundo, como os pais fizeram. Sabe que a grande qualidade do ator é se transformar no personagem? Mas eu faço ele se parecer comigo. Não tenho vergonha de confessar isso. Como tenho dificuldade de me aproximar do papel, faço o caminho inverso. Acho o Xerife a minha cara!