“Fui usado”. A frase é do pedreiro e pintor Antônio Luís de Sousa. No papel, ele e a mulher são donos da construtora ALSD, que recebeu por serviços realizados dentro de obras milionárias no Tocantins. A empresa é uma das investigadas na operação Via Avaritia, que apura desvios em contratos da Agência Tocantinense de Obras (Ageto).

Tanto Antônio Luís quanto a Polícia Civil apontam o mesmo homem como verdadeiro dono da ALSD. O ex-superintendente de obras da Ageto, Geraldo Pereira da Silva Filho. Ele, a mulher e a filha foram alvos da Via Avaritia. Foi na casa da família que a polícia encontrou um caderno de orações repleto de confissões a Deus.

“Somos corruptos e ladrões e queremos justificar nossos pecados”, diz um trecho. Para a polícia, os textos foram escritos pela mulher de Geraldo, Rosivânia Ribeiro Cunha. Segundo o pedreiro que aparece como dono da construtora, ela também estava envolvida no esquema.

“Na realidade a esposa dele que era… que cuidava da parte financeira”, diz o homem. Além da ALSD, outras empreiteiras também respondem pelo caso. Os contratos foram fechados em nome de uma construtora chamada Prime, mas parte dos recursos teria sido desviado para outra empresa: A Proplan.

“O núcleo operacional desse grupo criminoso era liderado pelo superintendente da Ageto. O qual constituiu uma empresa em nome da filha para centralizar os recursos de origem ilícita”, diz o delegado Guilherme Rocha, que abriu a investigação sobre o caso. A empresa a que ele se refere é a Proplan, que está em nome de Maria Fernanda Cunha, filha de Geraldo e Rosivânia.

Os contratos investigados somam R$ 50 milhões e a polícia acredita que pelo menos R$ 8 milhões foram desviados.

“O primeiro contrato de reformas de órgãos públicos, aonde tem, como contratada, a empresa Prime Construções, e o outro contrato, de fornecimento de pavimentação asfáltica, que é a Brasil Pavimentações”, explica o delegado Guilherme Rocha. “A Proplan, ela seria um… uma empresa que centralizava a lavagem do dinheiro. Aonde ela recebia recursos sem qualquer tipo de justificativa tanto da Prime Construções como da Brasil Pavimentações”.

No caso da ALSD, a polícia encontrou até comprovantes de que despesas pessoais de Geraldo foram pagas pela empresa. “O dinheiro era pra fazer uma coisa, e quando o dinheiro caiu na conta que era pra fazer isso, ele pediu o dinheiro pra fazer outra coisa, a gente não sabe o que ele fez com o dinheiro”, explica a esposa do pedreiro Antônio Luís. “Tive só prejuízo”, completa.

Afastamento dos delegados

O esquema de corrupção começou a ser desmontado na Operação Via Avaritia, mas os delegados responsáveis pelo caso foram removidos dos cargos antes mesmo de poderem interrogar os suspeitos.

“Fica claro que, em decorrência aí da prisão do superintendente de obras do estado, houve um endurecimento na perseguição dos delegados de polícia civil”, diz o presidente do sindicato que representa a categoria, Mozart Félix. “Pra isso, eles removeram mais de 100 delegados no estado inteiro, tentando disfarçar essa perseguição”.

O Ministério Público Estadual entrou com uma ação para tentar impedir as remoções. “E nós esperamos que aqui no estado do Tocantins as instituições funcionem livremente”, diz o promotor de Justiça Edson Azambuja. “O que se vê na história do estado do Tocantins, são atos de corrupção, é um estado patrimonialista, que precisa avançar muito ainda no sentido de termos um estado moderno”.

Outro lado

O Governo do Tocantins disse, em nota, que a Polícia Civil conta com apoio irrestrito nas investigações das supostas irregularidades e que exonerou o servidor investigado, e fortaleceu o combate à corrupção criando a Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado e a Divisão de Combate à Corrupção.

O governo também afirma que a redistribuição dos delegados de Polícia Civil abarcou todas as unidades policiais da instituição e que as substituições não causaram prejuízo pois todas as investigações da Polícia Civil são sempre acompanhadas pelo Ministério Público e submetidas à apreciação do Poder Judiciário.

A empresa Prime disse que todos os serviços prestados são aferidos por meio de medições, tendo ainda os pagamentos registrados na forma exigida pela lei.

A Brasil Pavimentação afirmou que não existe qualquer irregularidade nos contratos que firmou com o Poder Público e que a relação dela com Geraldo sempre foi institucional, pública, proba e necessária.

A defesa de Geraldo Pereira, Rosivânia Ribeiro Cunha disse que não vai se manifestar. O Fantástico tentou falar com Maria Fernanda Cunha, dona da Proplan, mas não teve retorno.

As informações são do  G1 Tocantins.