Já faz alguns anos que a gordura deixou o posto de vilã absoluta da saúde. Sabe-se que não dá para comparar a do tipo hidrogenada, criada pela indústria para dar sabor e crocância  aos salgadinhos de pacote, por exemplo, com a monoinsaturada, que compõe o azeite de oliva. Um novo estudo, porém, identificou um grande impacto positivo no cérebro com o consumo de todos os tipos de gordura vegetal, incluindo o óleo de soja, milho, girassol e canola. O trabalho, apresentado nesta semana em uma sessão científica do American Heart Association 2021, importante congresso ocorrido em Boston, mostrou que esses alimentos previnem o derrame cerebral – mesmo em doses generosas.

De acordo com a pesquisa, que ainda não foi revisada por pares, as pessoas que consomem gorduras vegetais, independentemente da quantidade, têm um risco 12% menor de sofrer um derrame em relação a quem não tem o hábito. Por outro lado, aqueles que ingerem mais gordura saturada, como as provenientes da carne bovina, suína, bacon, embutidos e processados estão 16% mais suscetíveis a ter o problema de saúde. Foram analisados os hábitos alimentares de 120 mil profissionais da saúde para se chegar a essas conclusões.  

Em entrevista Frank Hu, presidente do departamento de nutrição de Harvard e um dos autores da pesquisa, afirmou que uma redução moderada no consumo de carne vermelha e processada, por exemplo, pode reduzir a mortalidade causada por doenças cardíacas em 14%, as por câncer em 11% e o risco de diabetes tipo 2 em 24%.

Antônio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explicita, em termos quantitativos, o ideal para ter uma alimentação saudável.

— Uma dieta equilibrada é composta com até 30% do conteúdo calórico total diário em gorduras, porém, as gorduras saturadas, especialmente as de origem animal, não devem ultrapassar 10% do conteúdo calórico total diário— diz o endocrinologista.

As gorduras no corpo humano

De acordo com o Antônio Carlos do Nascimento, as gorduras saturadas — originadas na maioria das vezes do conteúdo gorduroso de animais, quando consumidas excessivamente propiciam aumento nos níveis do LDL, o colesterol relacionado ao processo de formação de placas nos vasos arteriais, incluindo os cerebrais. De modo contrário, os óleos vegetais habitualmente promovem benefícios  vasculares.

— As gorduras insaturadas, presentes nos óleos de origem vegetal, diminuem a pressão arterial, provavelmente por relaxar a musculatura vascular. Seu consumo regular também reduz os níveis do LDL e inibe a formação de placas  — diz Nascimento.