Em meio à crise econômica provocada pela pandemia, governadores de seis estados anunciaram nas últimas semanas investimentos em programas destinados aos mais pobres. O pacote inclui benefícios para microempreendedores individuais — o desemprego, em alta, atinge 14,8 milhões de pessoas —, criação de restaurantes populares, doação de cestas básicas, vale gás e distribuição de absorventes em escolas. Segundo analistas, as medidas também visam a disputa eleitoral do ano que vem.

Enquanto aguarda a realização de prévias no PSDB, o governador de São Paulo, João Doria, anunciou recentemente dois programas de transferência de renda: um auxílio de R$ 300 para familiares de vítimas da Covid-19 com renda de até três salários mínimos e um vale-gás para 104 mil famílias. Segundo aliados, Doria mira o eleitorado popular, tanto para suas pretensões de ser candidato a presidente quanto para a tentativa de emplacar seu vice, Rodrigo Garcia (PSDB), com seu sucessor.

Entre as ações, há até programas identificados com a esquerda. No mês passado, o governador paulista decidiu destinar R$30 milhões para a distribuição de absorventes a 1,3 milhão de alunas da rede pública, um projeto que aparecia no programa de governo do ex-candidato a prefeito Guilherme Boulos (PSOL). O tucano anunciou o “Dignidade Íntima” em 14 de junho.

Uma semana depois, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), lançou um projeto de nome parecido, o “Dignidade Menstrual”, para 50 mil alunas. Alvo de dois pedidos de impeachment e desgastado pelo colapso da saúde pública do estado pela falta de oxigênio, no início do ano, Lima tenta reconstruir sua base para articular a reeleição. Em um aceno ao eleitorado mais pobre, disponibilizou auxílio emergencial a 260 mil famílias e distribuiu cestas básicas.

Outro que apostou em uma versão estadual do auxílio emergencial foi Romeu Zema (Novo). Eleito com a bandeira do liberalismo econômico, o governador de Minas Gerais concedeu bolsa merenda para pais e alunos.

Já o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), lançou na terça-feira um auxílio emergencial para profissionais de esporte e cultura. Ele tem feito ações de distribuição de cestas básicas.

Pressão por gastos

Com o caixa reforçado pela venda da Cedae por R$ 22 bilhões, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), foi cobrado pelos líderes do partido para lançar mão de medidas populares em diversas áreas e garantir a reeleição. Estão previstos 25 restaurantes populares (programa dos governos da família Garotinho), reforma de 50 Cieps e urbanização de favelas. A maior parte das licitações sai no próximo semestre.

Sem ter o caixa tão reforçado, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), criou um auxílio emergencial de R$ 250, em duas parcelas, para os MEIs de setores como bares, restaurantes, eventos, cultura e turismo. Em junho, propôs isenção para idosos no transporte intermunicipal.

Para opositores, as medidas podem reabilitar a imagem do governador, desgastada pelo seu apoio a Jair Bolsonaro, cuja rejeição atingiu 49% do eleitorado, segundo a pesquisa Ipec mais recente.

— Com a crise atual, em ano pré-eleitoral, vemos uma redefinição da agenda pública de figuras que entendem as vantagens eleitorais das medidas. É uma disputa. Avaliam que, se não ocuparem esses espaços, a esquerda se tornará legítima defensora dessas bandeiras — afirma Cloves Luiz Oliveira, professor da Universidade Federal da Bahia, que estuda eleições e comunicação política.

Para o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, a volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais identificado com a população pobre. fez com que governantes busquem atrair esse eleitor. Na última pesquisa Ipec, Lula tem 49% das intenções de voto, ante 23% de Bolsonaro — a maior vantagem do petista é entre os mais pobres.

— Essas medidas sociais miram em problemas concretos: desemprego, miséria, fome. E há também, claro, um cálculo eleitoral, não só porque Lula é identificado com elas, mas também Bolsonaro. Quando ele descarregou recursos em auxílio emergencial no ano passado, viu melhora nas pesquisas — afirma Melo.