Por volta das 7h da terça-feira (1º), um dos “Guardiões do Crivella” esteve na porta do Hospital Municipal Rocha Faria, em Campo Grande. Ele foi reconhecido por pessoas que trabalham nas imediações da unidade de saúde depois da veiculação da reportagem sobre o esquema de intimidação da prefeitura para atrapalhar reclamações de pacientes a jornalistas. O caso foi na noite desta segunda-feira (31) pelo “RJ2”, da TV Globo.

Na manhã, quem deu as caras na unidade foi José Robério Vicente Aleriano, funcionário da prefeitura desde novembro de 2018, com um salário de R$ 3229,89. É ele quem aparece interrompendo o repórter Paulo Renato Soares, da TV Globo, durante uma entrevista com um paciente na porta do Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, na segunda-feira (31).

— Chegou aqui no horário da troca do plantão, normal. Ficou um tempo e depois foi embora. Reconheci de cara por causa da reportagem — diz.

Mas a escala no Rocha Faria, geralmente, era outra. Marcelo Dias Ferreira e Luiz Carlos Joaquim da Silva ganham, respectivamente, R$ 2788 e R$ 4195, e batiam ponto diariamente na unidade.

— Não usam crachá, ficam parecendo uma pessoa comum. Desciam, tomavam um café, fumavam um cigarro. Quando aparecia alguma equipe (de reportagem), aí se reuniam e começavam a falar, atrapalhar — conta a ambulante, que já estava acostumada com a presença dos servidores públicos, mas não imaginava a real função da dupla: — Para mim era uma pessoa normal, porque tem gente que praticamente mora nesse hospital, fica dois, três meses aí dentro acompanhando paciente. Jamais eu iria imaginar.

Representação no MP

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— Eu estou perplexa com mais essa do governo Crivella. Imagina contratar pessoas com dinheiro público para impedir que o cidadão tenha acesso à informação? É revoltante! Nós vamos propor ao presidente da Câmara que este cidadão, Marcos Luciano, seja convocado porque ele precisa se explicar — diz Teresa.

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Membro titular da Comissão de Saúde da Câmara, o vereador Paulo Pinheiro (PSOL) diz que vai entrar com uma representação no Ministério Público. Ele vai solicitar a abertura de um inquérito civil público para caracterizar o quadro de improbidade administrativa realizada pelo prefeito e para punir os responsáveis.

— A atitude do Prefeito de pagar com dinheiro público a profissionais para desinformar a população, impedindo que a imprensa exerça o seu trabalho, é absolutamente irresponsável. Nós não podemos admitir isso como um caso comum. É um desserviço! É um absurdo! É inaceitável! Usar o dinheiro público não para atender a população, não para melhorar o atendimento, não para melhorar a informação, mas usar o dinheiro público para desinformar. Espero que a gente consiga colocar o prefeito Marcelo Crivella no seu devido lugar. Há a sensação de que há uma milícia na saúde — acusa Paulo Pinheiro.

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Marcos Luciano (D), vulgo ML, era o chefe do esquema dos Guardiões do CrivellaMarcos Luciano (D), vulgo ML, era o chefe do esquema dos Guardiões do Crivella Foto: Fabiano Rocha / O Globo

Para o deputado estadual Luiz Paulo (PSDB), o prefeito está cometendo crime de responsabilidade por participação ou omissão por desrespeito à liberdade de imprensa, a democracia, a princípios constitucionais e em relação ao desvio de função dos funcionários que atuam em tal deletério mister. O Crime de Responsabilidade é passível de afastamento da função e de impeachment.

— Considero um atentado à democracia funcionários com cargos de confiança nomeados pelo prefeito estejam em frente â rede pública de saúde do município da capital para impedirem cotidianamente o trabalho da imprensa e a manifestação daqueles que não recebem uma digna política pública de saúde. Sob o ponto de vista criminal parece-me peculato: funcionário pago pelo erário com desvio de função exercendo atividade inconstitucional. Quiçá aberto o prazo para as convenções partidárias em 31/08/20, tais ações não se constituíram, também, em crime eleitoral. Inaceitável sob o ponto de vista ético, moral, legal e político tais ações contra a transparência efetuadas por funcionários públicos municipais, sob orientação e coordenados pelos escalões superiores da prefeitura — ataca.

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Marcos Paulo de Oliveira Luciano, contratado desde 2017, para atuar no gabinete do prefeito ganha salário de cerca de R$ 10 mil, segundo reportagem da TV GloboMarcos Paulo de Oliveira Luciano, contratado desde 2017, para atuar no gabinete do prefeito ganha salário de cerca de R$ 10 mil, segundo reportagem da TV Globo

O deputado federal Pedro Paulo (DEM-RJ) pretende impetrar ainda nesta terça-feira uma ação popular contra Crivella, e pede uma multa pessoal de R$ 500 mil “por ato de ameaça ou constrangimento ilegal praticado”. Na ação, ele ainda perde a indenização por danos morais com o ressarcimento aos cofres públicos do valor da remuneração de todos os servidores utilizados nesta prática.

“(…) Para que o réu se abstenha de estimular incentivar ou participar de alguma forma de medidas ou práticas que tenham por objetivo inibir a liberdade de imprensa tomando ainda as medidas necessárias para assegurar que tais fatos não mais aconteçam em hospitais municipais ou qualquer órgão da administração pública do Rio”.