A Câmara de Vereadores decidiu por 25 votos a 23 em arquivar o processo de impeachment contra o prefeito Marcello Crivella. Além do pedido de afastamento, também foi protocolada no Legislativo municipal a instalação de uma CPI para apurar as denúncias, depois das 17 assinaturas necessárias.

Foram 47 votos: 25 contra a abertura do processo e 23, a favor.

Verador Jairinho (Solidariedade) é contrário à abertura do processo: “Ora, já tem investigação na polícia, no MP, no judiciário e a Câmara já tem a CPI que é o objeto que investiga. Impeachment agora eu acho que querem ganhar a eleição no tapetão, não querem disputar a eleição”. A vereadora Tânia Bastos (Republicanos) disse que “Crivella entra para a história como prefeito mais perseguido e não houve corrupção no governo”.

Veronica Costa (DEM): “Quando o senhor tira o dinheiro dos remédios, tira médicos, equipamentos para fazer exames, você está assassinando as pessoas. Quando o senhor bota esses capangas, esses guardiões na porta dos hospitais, você está impedindo a população de ter acesso à realidade dos fatos que acontecem dentro dos hospitais”.

Vereadores favoráveis ao impeachment falam em “formação de milícia” sobre os Guardiões do Crivella e usam termos como “capangas” e “jagunços” ao referirem-se aos profissionais investigados. O cilima esquentou e teve bate-boca.

A votação no plenário está em aberto: os cálculos apontam que a oposição e a base fiel do prefeito possuem cada uma cerca de um terço dos voto e há chance de muitos não participarem.

Números finais da votação que decidiu pelo arquivamento do pedido de abertura de processo de impeachment contra CrivellaNúmeros finais da votação que decidiu pelo arquivamento do pedido de abertura de processo de impeachment contra Crivella Foto: Reprodução / TV Alerj

O que dizem os vereadores

A sessão começou às 15h e, depois de duas horas de discussões, a grande parte dos vereadores que usaram a palavra defenderam a abertura do impeachment. O primeiro a se manifestar na sessão foi Célio Luparelli (DEM), que comparou a atuação do grupo com milíciais:

— Uma verdadeira atitude de milícia. Ficou nítido o desvio de função. O objetivo incluía tumultuar o livre exercício da informação — disse.

Acompanhando a fala de Luparelli, Leonel Brizola (PSOL) ainda chamou os integrantes do grupo de “jagunços”:

— São jagunços contratados com o dinheiro público — afirmou.

Para o líder do governo, Dr.Jairinho (Solidariedade) disse que o impeachment próximo a eleição seria “tapetão” e criticou a postura de Renata Souza, autora do pedido e pré-candidata à prefeitur do Rio pelo PSOL.

— Não dá para vir à Câmara trabalhar, mas foi até o gabinete do presidente a menina lá que é candidata a prefeita pelo PSOL (Renata Souza) e protocolou um pedido de impeachment. Ora, já tem investigação na polícia, no MP, no judiciário e a Câmara já tem a CPI que é o objeto que investiga. Impeachment agora eu acho que querem ganhar a eleição no tapetão, não querem disputar a eleição. É medo da eleição? — defendeu.

O vereador Marcelo Siciliano (Progressistas) também saiu em defesa do prefeito no plenário:

— Nós temos que ter responsabilidade e não podemos acusar uma pessoa por atos de terceiro. Não podemos condenar uma administração pública por meia dúzia de pessoas que não se sabe se tomaram atitudes por ordem do prefeito. Isso é politica para sangrar o prefeito. Porque sim, se tivesse condição de instaurar e votar, tudo bem, votaria quem é a favor ou não. A polícia ainda está investigando.

Crivella também foi defendido pelo companheiro de partido Inaldo Silva (Republicanos) que adiantou seu voto contrário ao processo:

— Me indago a quem interessa esse pedido de impeachment. O Rio tem progredido e a gestão do prefeito nessa pandemia. É notório que foi uma das melhores do Brasil. Faltam menos de três meses para a eleição e um processo desse acrescentar o que? Será que estão querendo desestabilizar o prefeito? O prefeito é forte. A força dele não vem dele e sim da fé dele. Por isso que forte não é quem bate, e sim quem apanha e resiste — afirma.

Já Paulo Pinheiro (PSOL) acredita que Crivella cometeu abuso do poder político com fins eleitorais:

– Mais uma vez, tudo em flagrante. Não precisaríamos nem CPI para isso. A polícia investiga e nós temos tudo claro em nossas mãos, as imagens estão ali, cometeu pelo menos três condutas gravemente condenáveis para um administrador público como dizem que o prefeito é. Nomeação de pessoas não funcionários para o exercício de atividade ilegal. Quem nomeou esses guardiões, esses capangas para trabalhar nessa função? Tentando impedir o trabalho da imprensa e que familiares tenham informações. Servidor público era um guardião do povo, não guardião do prefeito para livrá-lo de críticas e esconder sua incompetência e gravíssimos erros administrativos.

Reimont (PT) foi outro vereador que se manifestou antes da sessão. Ele disse não acreditar que o rito seja aprovado, mas que é claro que houve crime de responsabilidade por parte do prefeito.

– Independente do resultado de hoje, que é previsível infelizmente, fica o rei nu. O rei pelado. Porque o que aconteceu flagrantemente foi um crime de responsabilidade. Nós temos princípios, e os princípios da administração pública, a legalidade, impessoalidade, moralidade, se a gente tomar esses princípios, o prefeito Crivella com o evento “Guardiões do Crivella” ele fere todos os princípios. Ele usa recurso público para pagar trabalhadores e trabalhadores, a quem não quero dar nenhum adjetivo pejorativo, porque a gente não pode confundir a lua com o dedo que aponta para ela – disse.

Reimont foi mais um parlamentar que comparou a ação dos guardiões do prefeito à ação das milícias.

– A quesão não são os que estão nas portas dos hospitais fazendo praticamente um processo de milícia autorizada, o problema é a administração da cidade do Rio de Janeiro. O problema nasce na Cidade Nova, no prédio da prefeitura.

O mesmo foi dito por Paulo Messina (MDB), ex-secretário de Casa Civil de Crivella.

– Que vergonha. Eu sinto vergonha do que virou o governo Crivella. Virou uma milícia paga com o nosso dinheiro. Com o dinheiro do povo, dos nossos filhos nas escolas, com dinheiro de imposto que o povo compra de comida, de aluguel. Virou uma milícia paga. Isso que virou o governo Crivella – disse Messina.

Ele acrescentou que sente-se feliz de ter deixado a cúpula de Crivella.

– A única coisa que me consola nesse evento trágico é ainda bem que eu dei meu basta de loucura que já tinha começado a acontecer na prefeitura desde o final das eleições de 2018. Eles estão enlouquecidos cada vez mais. Retorcidos de desejo de manutenção de poder. Quanto mais perto da eleição, mais ensandecidos eles ficam. É o vale tudo porque perderam completamente o limite, a noção da realidade. Tá todo mundo louco lá, é uma histeria coletiva, todos lá precisam de tarja preta – afirmou. – É corrupção. A diferença é que não é por dinheiro, é por poder. Estão vendendo seus princípios, a cidade do Rio de Janeiro, por interesse de poder.

A vereadora Luciana Novaes (PT) reclamou do discurso do município de dizer que há falta de dinheiro para outras ações:

— Ele só diz que não tem verba, mas como não tem se ele pagua essas pessoas? — indagou

Não para abrir o processo

Alexandre Isquierdo

Carlos Bolsonaro

Dr. Carlos Eduardo

Dr. Gilberto

Dr. Jairinho

Dr. João Ricardo

Dr. Jorge Manaia

Eliseu Kessler

Fátima da Solidariedade

Felipe Michel

Inaldo Silva

Jair da Mendes Gomes

João Mendes de Jesus

Leandro Lyra

Major Elitusalem

Marcelino D Almeida

Marcello Siciliano

Marcelo Arar

Professor Adalmir

Renato Moura

Rocal

Tânia Bastos

Vera Lins

Zico

Zico Bacana

Sim para abrir o processo

Átila A. Nunes

Babá

Carlo Caiado

Cesar Maia

Dr. Marcos Paulo

Fernando William

Italo Ciba

Jones Moura

Leonel Brizola

Luciana Novaes

Luiz Carlos Ramos Filho

Paulo Messina

Paulo Pinheiro

Prof.Célio Lupparelli

Rafael Aloisio Freitas

Reimont

Renato Cinco

Rosa Fernandes

Tarcísio Motta

Teresa Bergher

Veronica Costa

Welington Dias

Willian Coelho

Ausente

Junior da Lucinha

Thiago K. Ribeiro

Impedido por se o presidente

Jorge Felippe

‘Guardiões’ investigados

O pedido inicial de impeachment foi feito pela bancada do PSOL e pela deputada estadual Renata Souza, pré-candidata à prefeitura do Rio, e ganhará anexo de outra solicitação feita pelo vereador Atila Nunes (DEM). A vereadora Teresa Bergher (Cidadania) foi quem conseguiu as assinaturas para CPI. Crivella vai enfrentar duas outras iniciativas: o vereador Fernando William, líder do PDT, anunciou que ingressará com ação popular na Justiça. E Paulo Pinheiro (PSOL) encaminhou representação ao Ministério Público do estado.

Analítico: ‘Guardiões do Crivella’ são bomba para prefeito perto da campanha eleitoral

Para o PSOL, a denúncia da existência de grupos denominados “Guardiões de Crivella” configura flagrante inobservância dos princípios da probidade administrativa, em especial da honestidade, imparcialidade e legalidade, além de possível crime de responsabilidade. Organizar funcionários públicos, detentores de cargos de confiança, para impedir que sejam denunciadas situações de irregularidade no atendimento de saúde, e coibir, às portas dos hospitais, a atuação da imprensa, intimidando jornalistas, são práticas que apontam fortes indícios de improbidade administrativa e conduta incompatível com o cargo. As pessoas participariam, ainda, de grupos de mensagens em que há indícios da participação do próprio prefeito, vigiando e incentivando a ação dos supostos “guardiões”.