O Reino Unido deu na semana passada a largada oficial da vacinação contra a Covid-19 ao começar a imunizar, em caráter emergencial, sua população com o produto da Pfizer/BioNTech. A decisão foi seguida e ampliada por Estados Unidos, Canadá e Arábia Saudita, que concederam à fórmula aprovação regular. Uma segunda vacina, a da chinesa Sinopharm, recebeu aprovação regular nos Emirados Árabes.

Há 14 vacinas que chegaram à fase 3, a mais avançada de testes. Seis delas saíram na frente e já apresentam resultados, ainda que não definitivos.

Mas existem ainda questões fundamentais sobre como as vacinas funcionam. Por isso, o EXTRA preparou este guia prático que reúne tudo o que você precisa saber sobre a imunização contra Covid-19.

Para elaborar o guia, foram consultados a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações (PNI) de 2011 a 2019; Herbert Guedes, professor do Instituto de Microbiologia da UFRJ e especialista em vacinas; a virologista da UFRJ Clarissa Damaso; e a virologista e imunologista Luciana Barros de Arruda, do Instituto de Microbiologia da UFRJ. Confira as perguntas e respostas sobre o assunto.

1 – Por que só vacinas podem controlar com eficiência uma pandemia?

Porque podem interromper a circulação do vírus de forma controlada e sustentada. Mas isso só ocorre quando uma parcela significativa da população for vacinada — em torno de 70%, se a eficácia das vacinas for acima de 90%, explica a epidemiologista Carla Domingues. Com a vacinação em massa da população, o coronavírus não encontra hospedeiros, observa o imunologista Herbert Guedes.

2 – Como funciona uma vacina?

As vacinas usam o próprio sistema de defesa humano para nos proteger. Quando uma pessoa é vacinada, seu sistema de defesa é “apresentado” de forma segura a um vírus ou bactéria. Ele passa então a reconhecer o patógeno e produz anticorpos, proteínas dedicadas a combater doenças. Mas os anticorpos são apenas parte da proteção oferecida pela vacina. Ela também estimula células do sistema de defesa a “lembrar” do vírus e de como devem combatê-lo. Se a pessoa imunizada for exposta ao vírus, ela terá as defesas prontas antes que uma infecção possa se instalar.

3 – Como vacinas são desenvolvidas?

O desenvolvimento de uma vacina costuma ser um processo longo, cujo prazo médio chega a dez anos. Com a pandemia, esse prazo foi comprimido, mas nenhuma etapa foi eliminada. O desenvolvimento começa com testes em culturas de células, depois em animais, para investigar a segurança e os benefícios. Se aprovada, ela segue para ensaios em seres humanos, divididos em três fases. Se obtido sucesso na fase 3, os laboratórios pedem a autorização de uso às agências reguladoras dos países. Há uma quarta fase, mas que avalia a vacina já em uso.

4 – É possível uma vacina causar a Covid-19?

Não, porque nenhuma das vacinas em fase avançada de desenvolvimento usa o vírus Sars-CoV-2 de forma atenuada, que seria a única possibilidade, ainda que remota, de haver reversão para a forma ativa.

5 – As vacinas são contra o novo coronavírus ou contra a Covid-19?

A vacina ideal será aquela que prevenir tanto a infecção pelo novo coronavírus quanto a doença que ele causa, a Covid-19. Mas a professora Clarissa Damaso explica que é provável que as primeiras vacinas impeçam a Covid-19, mas não a infecção. De qualquer forma, a pessoa não vai adoecer, o que, sim, já é um enorme ganho.

6 – Isso significa que mesmo vacinada a pessoa ainda poderá ser infectada e transmitir o SARS-COV-2?

É uma possibilidade. Os testes das vacinas focaram na capacidade de evitar que as pessoas adoeçam com a Covid-19. A capacidade de impedir a infecção não está sendo avaliada pela maioria dos testes clínicos porque isso demora e demanda ainda mais esforços. Por isso, ainda não se sabe se uma pessoa vacinada que seja infectada poderá transmitir o Sars-CoV-2 de forma assintomática.

7 – Vacinas são seguras?

Sim. Todas as vacinas passam por ensaios clínicos rigorosos, sendo que o ensaio de fase 1 verifica a segurança. Conforme vai progredindo para as outras fases (2 e 3), a segurança da vacina continua sendo avaliada. Cientistas, autoridades e organizações de saúde pública continuam a coletar dados na chamada fase 4, de farmacovigilância, quando o imunizante começa a ser usada na população.

8 – Por que uma vacina pode estimular a produção de defesas com mais eficiência do que a infecção natural pelo coronavírus?

Primeiro, porque as cargas virais de exposição são diferentes, e as rotas de entrada no organismo também. O coronavírus entra pelo sistema respiratório e ativa uma imunidade relativamente fraca. É basicamente o que se chama de imunidade de mucosa, menos potente. Há uma resposta com produção de anticorpos neutralizantes de duração ainda incerta, mas já se sabe que ela não é nada duradoura. As vacinas também têm adjuvantes (reforços) para estimular o sistema imune. Além disso, na infecção natural, o sistema imunológico é pego desprevenido e sai em desvantagem, porque tem que combater uma infecção que já se instalou. Ele precisa convocar suas forças, um verdadeiro exército de variados tipos de células de defesa, para debelar o vírus invasor. Com a vacina, quando o vírus entra nas vias respiratórias, o organismo já tem as armas a postos e o ataca com mais eficiência.

9 – Como a eficácia de uma vacina é demonstrada?

De forma geral, a eficácia de uma vacina é demonstrada com a comparação do número de doentes do grupo vacinado em relação ao grupo placebo, aquele que recebeu um outro tipo de substância apenas para controle. Quanto menor o número de doentes no grupo vacinado em relação ao de controle, maior é a porcentagem de proteção. Mas isso só pode ser feito nos estudos que usam o sistema duplo-cego (quando ninguém sabe quem tomou vacina ou placebo antes do fim do ensaio) e que são randomizados (escolha aleatória) e multicêntricos (feitos em mais de um lugar).

10 – Por que é tão importante que os resultados dos testes sejam publicados em revistas científicas?

Porque o trabalho é revisado por cientistas qualificados e independentes do estudo. Isso garante a confiabilidade dos dados e também evita que o responsável pela vacina diga que ela funciona sem apresentar provas.

11 – Uma vez que uma vacina receba a aprovação para uso emergencial, ela ainda continuará a ser testada?

Sim. Mas haverá desafios. Especialistas discutem, por exemplo, se é ético manter os grupos de controle, não vacinados, após o imunizante estar disponível. Outra dificuldade é encontrar voluntários para os exames clínicos e, assim, analisar a segurança e a duração da proteção, porque a maioria vai preferir tomar a vacina já em uso, para não ter o risco de cair no grupo de controle.

12 – Quantos tipos de vacina estão em desenvolvimento contra a Covid-19?

Há mais de 270 vacinas em desenvolvimento contra a Covid-19, e 71 delas estão em testes clínicos, isto é, com seres humanos. Destas, 14 estão na fase 3, a última antes do pedido de autorização de uso. Estão em estudo vários tipos de estratégias e plataformas para os imunizantes. As mais usadas são as de vírus inteiro inativado, as genéticas (RNA e DNA), as de vetor viral e as de proteínas.

13 – Como funcionam os imunizantes com o vírus inativado?

Esse tipo de vacina (que inclui, por exemplo, a CoronaVac, que está sendo produzida pelo Instituto Butantan, em São Paulo) é bem conhecido e tem como base um vírus que passou por um tratamento químico que o torna incapaz de se replicar — por isso, chamado de inativado. Herbert Guedes explica o processo: o vírus é isolado de um paciente, propagado através de cultura de células, inativado quimicamente (para perder a capacidade de infectar), filtrado e combinado a um adjuvante (molécula que estimula a resposta imune). Clarissa Damaso destaca: o vírus inativado não consegue invadir nossas células, portanto, ninguém poderá ter a Covid-19 devido à vacina. Suas proteínas, porém, ainda conseguem estimular nosso sistema imunológico, que se torna capaz de reconhecer e combater o vírus. É o caso da vacina Salk, contra a pólio, que está no calendário de vacinação infantil.

14 – E os imunizantes com o vetor viral não replicante?

Esse é o caso das vacinas da AstraZeneca/Universidade de Oxford (imunizante que será produzido pela Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, graças a um acordo do laboratório britânico com o Ministério da Saúde), da Janssen/Johnson & Johnson e do Instituto Gamaleya (Sputnik V), da Rússia. É uma estratégia ainda inédita em seres humanos. Ela usa um adenovírus inofensivo para nós (capaz de causar resfriado em macacos, mas geneticamente modificado para não se replicar) como meio de transporte para uma proteína do Sars-CoV-2, a espícula S, chave que o coronavírus usa para invadir as células humanas e, por isso, o alvo de várias das vacinas em teste. Herbert Guedes explica que o contato com o adenovírus permite ao organismo criar armas (resposta celular e anticorpos) contra a proteína. Se a pessoa for infectada, o Sars-CoV-2 será atacado.

15 – E as vacinas com o uso do RNA mensageiro?

As vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna são baseadas no uso do RNA mensageiro ou mRNA. É uma nova tecnologia, que oferece a vantagem de ser rápida de produzir. Porém, devido à fragilidade do mRNA, é preciso manter as doses em temperaturas muito baixas, impossíveis de se obter em freezers comuns, o que torna o seu armazenamento e a sua distribuição mais complexos. A função do mRNA é transportar a mensagem genética dentro das células. Ele leva o código expresso pelos genes para as estruturas que produzem as proteínas. Clarissa Damaso ressalta que, por todos os dias de nossas vidas, as células fazem milhares de mRNAs, para que possamos produzir as proteínas de que precisamos. Para cada gene, um mRNA diferente. Este tipo de vacina é constituído do mRNA que leva a mensagem do gene da proteína S do Sars-CoV-2 para as células. Ela é produzida e ativa a resposta imune do nosso corpo.

16 – As vacinas de RNA mensageiro podem alterar nossos genes?

De maneira alguma, frisa Clarissa Damaso. O mRNA não altera o genoma, não causa mutação nem danos genéticos. Portanto, é impossível que nos modifique.

17 – E como agem os imunizantes com proteínas virais?

Vacinas também podem ser produzidas com proteínas do vírus ou pedaços delas — as “subunidades”, como se diz no jargão científico. Há mais de uma forma de desenvolver imunizantes com proteínas específicas do vírus. Em comum, a certeza de que também não podem causar Covid-19 porque não são o coronavírus, mas apenas uma parte dele.

18 – Qual a melhor vacina contra a Covid-19?

A que conseguir eliminar a transmissão do coronavírus, tiver maior eficácia de proteção e maior alcance na população sem efeitos adversos, diz Clarissa Damaso.

19 – Quantas vacinas estão em teste no Brasil?

Quatro. São as vacinas da Sinovac/Instituto Butantan (CoronaVac), da AstraZeneca/Universidade de Oxford, da Pfizer/BioNTech e da Janssen/J&J.

20 – Estamos atrasados na corrida da vacinação?

Sim. O Brasil está em desvantagem porque entregou somente neste sábado (12) o seu Plano Nacional de Imunização (PNI). Nele, o governo assegurou a vacinação no ano que vem por meio de três acordos: Fiocruz/AstraZeneca, com entrega de 100,4 milhões de doses até julho; Covax Facility, com 42,5 milhões de doses; além da negociação de 70 milhões de doses da Pfizer.

21 – Os estados também estão fazendo acordos?

Sim. São Paulo é o único com data anunciada de início da imunização (25 de janeiro), utilizando a CoronaVac, mas ainda faltam etapas para sua aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em outros estados, as negociações estão menos avançadas. O Paraná, por exemplo, trata com a Rússia para ter a Sputnik V.

22 – Por que o Brasil não desenvolve sua própria vacina?

O Brasil é um grande fabricante de vacinas, mas jamais desenvolveu um imunizante nacional, apenas reproduz o que é criado fora. Luciana Barros de Arruda diz que o país tem cientistas, mas não dispõe de infraestrutura, sequer tem técnicos suficientes e laboratórios adequados para tanto.

23 – Existem mecanismos para autorização sem avaliação da Anvisa?

A chamada Lei Covid prevê que os desenvolvedores de vacinas possam pedir uma licença em caráter emergencial para aquelas já aprovadas em outros países. A Anvisa terá, então, 72 horas para responder ao pedido, caso contrário, a vacina será automaticamente aprovada.

24 – Quais grupos devem receber a vacina primeiro pelo plano de vacinação?

A primeira fase do plano contemplará trabalhadores de saúde, idosos acima de 75 anos, idosos com mais de 60 anos que estejam em asilos e população indígena.

25 – Se eu não me enquadrar em nenhum dos grupos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, quando devo ser vacinado?

Não há data. Especialistas dizem que dificilmente a maior parte da população terá acesso a um imunizante antes do segundo semestre de 2021.

26 – Clínicas particulares também vão poder oferecer a vacina?

Não há previsão para esse tipo de imunização e o foco será nos grupos prioritários.

27 – Quais efeitos colaterais são esperados para quem se vacinar?

A vacinação é segura e os efeitos colaterais, em geral, são leves e temporários, como dor localizada onde é aplicada a injeção e febre baixa. Efeitos colaterais mais graves são extremamente raros em vacinas de forma geral, informa a Organização Mundial da Saúde (OMS).

28 – Quais efeitos adversos graves podem ocorrer?

Não existe uma definição de quais efeitos graves podem ocorrer, diz Herbert Guedes. Até o momento, eles são raros e os pesquisadores ainda avaliam se podem ter relação com a imunização. Será necessário mais tempo para identificar o risco.

29 – Qual o risco de reação alérgica grave, como os dois casos já reportados no Reino Unido, com a vacina da Pfizer?

A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia diz que ainda é cedo para saber se algum componente da vacina causou a reação. Pessoas com alergias severas devem procurar orientação médica antes de tomar qualquer imunizante, porque podem sofrer reações causadas por componentes das vacinas.

30 – As vacinas são eficazes para os idosos?

Para a maioria das vacinas em fase avançada, os resultados obtidos para idosos de até 85 anos têm sido semelhantes ou apenas um pouco inferiores aos obtidos para pessoas mais jovens. Ainda assim, os resultados são bastante protetores e bem maiores do que o esperado. Ainda não há dados conclusivos para pessoas acima de 85 anos.

31 – E para as crianças?

Não há previsão de quando crianças serão incluídas na vacinação. Elas não são do grupo de risco para a Covid-19 e, antes que se pense em usar qualquer vacina no público infantil, será necessário ter estudos mais prolongados sobre a eficácia dos imunizantes. Alguns imunizantes, como o da Pfizer/BioNTech, têm sido testados em maiores de 12 anos, mas ainda não há previsão de quando serão aprovados para eles.

32 – E para as grávidas?

Nenhuma vacina foi testada em gestantes e isso não está previsto para acontecer por enquanto. Será necessário ter mais dados de estudos em animais para saber se os imunizantes podem ter qualquer impacto sobre a gestação antes de se planejar testes com grávidas.

33 – E para as pessoas com comorbidades?

Todas as vacinas em fase avançada têm sido testadas também em pessoas com comorbidades, como obesidade, câncer, hepatite, diabetes, HIV e cardiopatias. A resposta tem sido igual à dos demais grupos.

34 – É possível garantir que toda pessoa vacinada estará protegida da Covid-19?

Não. Não se sabe por que algumas pessoas não respondem a determinadas vacinas. Mas as taxas de eficácia de 95% obtidas pela vacina da Pfizer/BioNTech, por exemplo, são muito boas.

35 – Depois que eu for vacinado, poderei parar de usar máscara?

Não. Teremos que continuar a usar máscara e a fazer distanciamento social por um bom tempo, até haver uma redução drástica dos casos. Primeiro, porque apenas parte da população será vacinada. Além disso, não se sabe se as vacinas vão conseguir impedir a transmissão e tirar o novo coronavírus de circulação ou se apenas impedirão que as pessoas vacinadas adoeçam com a Covid-19, alerta Carla Domingues.

36 – Quando uma vacina começa a fazer efeito?

Alguns imunizantes começam a fazer efeito dez dias após a primeira dose. No entanto, o efeito completo é esperado em 15 a 30 dias após a segunda dose. E existem variações entre as vacinas, afirma Herbert Guedes.

37 – Por quanto tempo estarei protegido?

Não se sabe essa resposta para nenhuma das vacinas em desenvolvimento. Os voluntários das vacinas mais avançadas tomaram a segunda dose há apenas quatro meses. Os imunizados durante os testes clínicos continuarão sendo acompanhados e, então, será possível determinar o tempo de proteção. A OMS considera aceitável o prazo mínimo de seis meses de proteção.

38 – Teremos que tomar a vacina todos os anos, como a da gripe?

Existe essa possibilidade. Tudo depende do tempo de proteção oferecido pelas vacinas e se o coronavírus sofrerá mutações significativas, diz Herbert Guedes. O Sars-CoV-2 parece mais estável do que os vírus da gripe. Mas, se ele mudar significativamente, as vacinas perderão a eficácia, terão que ser atualizadas e todos deverão se vacinar de novo.

39 – Terei que tomar quantas doses?

Para a maioria das vacinas apresentadas até agora, são necessárias duas doses com intervalo médio de 20 dias.

40 – Já tive Covid-19 e tenho anticorpos, preciso me vacinar?

Segundo Herbert Guedes, a princípio, quem teve Covid-19 não terá problema se tomar uma vacina e ainda poderá ser beneficiado com o aumento da resposta do sistema imune. O impacto da vacinação em pessoas previamente infectadas deve ser avaliado numa nova fase dos diferentes estudos.

41 – Tomei a vacina de um fabricante. Posso tomar a de outro?

Não. Herbert Guedes frisa que, primeiramente, não existem vacinas para todos, portanto, deve-se tomar apenas uma. Além disso, os efeitos da combinação de diferentes estratégias em termos de segurança não foram avaliados. Portanto, é melhor não correr o risco.

42 – Quais questões fundamentais ainda estão em aberto?

Luciana Arruda diz que não se sabe quanto tempo dura a imunidade, tampouco qual a quantidade de anticorpos neutralizantes é preciso ter para assegurar uma proteção, e a resposta celular não tem sido medida. A pandemia tem um ano, as vacinas estão em teste há seis meses, o tempo é curto demais para saber.