Para o promotor Luciano Miranda Meireles, do Ministério Público de Goiás, a condenação de João Teixeira de Faria, o João de Deus, pela primeira vez por crimes sexuais, é “um marco” e demonstra que ninguém está acima da lei.

— Ainda que de primeiro grau, é uma condenação judicial. Até então não havia manifestação do Poder Judiciário decisiva a respeito dos crimes sexuais, então é um marco. Simbolicamente, a Justiça está sendo feita para essa enormidade de vítimas que acreditaram no Ministério Público, acreditaram no Poder Judiciário. E isso demonstra que não existe ninguém acima da lei, felizmente, no Brasil hoje em dia — afirma Meireles.

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O Ministério Público de Goiás ainda não foi comunicado oficialmente da condenação a 19 anos e quatro meses de prisão, por crimes sexuais cometidos por João de Deus contra quatro mulheres durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia. Portanto, ainda não é possível dizer se haverá recurso por parte da promotoria.

— Quanto às demais vítimas, a força tarefa continua. Nós ainda temos 80 vítimas, entre mulheres que foram abusadas há mais e a menos de dez anos, ou seja, entre vítimas prescritas e não prescritas, que serão objeto de análise para eventuais novas denúncias contra o senhor João Teixeira.

A expectativa de Meireles é que João de Deus, que tem 78 anos, cumpra sua pena na prisão, apesar das repetidas alegações da defesa de que ele não tem condições físicas de permanecer no Núcleo de Custódia de Aparecida de Goiânia onde está há um ano.

— Em relãção ao estado de saúde (dele) é interessante recordar que o assunto foi objeto de discussão pela junta médica do estado de Goiás, do Tribunal de Justiça, e essa junta determinou que ele apresenta plenas condições tanto psiquícas quanto clínicas de cumprir eventual condenação no cárcere. Não vejo razão alguma para que neste momento seja concedido nenhum tipo de benefício como prisão domiciliar.

O médium foi denunciado 13 vezes pelo Ministério Público de Goiás, duas delas por posse ilegal de armas. As outras 11 envolvem 57 vítimas cujos crimes de abuso sexual não prescreveram.

Mais de 300 mulheres tiveram seus depoimentos tomados pelo MP e pela Polícia Civil, em casos de estupro que vão de 1973 a 2018.

A promotoria de Goiás, que centraliza as denúncias, considera este o maior caso de abuso sexual do Brasil, quiçá do mundo, pelo espaço de tempo (45 anos) e número de vítimas (319), entre as prescritas e não prescritas registradas até agora pelo MP.

Estima-se que, somado este número ao de mulheres que não procuraram a Justiça — entre outras razões, por temer retaliações —, a quantidade de vítimas chegue a quatro dígitos.