Povos indígenas que vivem no Tocantins estão enfrentando vários desafios por conta da pandemia da Covid-19. Mesmo fazendo parte do grupo prioritário para vacinação contra a doença, 1.198 casos já foram confirmados entre indígenas do estado. Do total, 10 acabaram morrendo. As mortes, principalmente de anciãos, afetaram o conhecimento nas aldeias e até a preservação cultural.

A fonte de renda das famílias também sofreu alterações. Artesãs da Ilha do Bananal afirmam que não conseguem mais vender as peças e muitas mulheres estão com dificuldades financeiras. Com as escolas fechadas, o aprendizado das crianças foi prejudicado.

Segundo o Governo do Estado, no Tocantins há 14.118 indígenas divididos em dez etnias. São elas: Apinaje, Xerente, Krahô, Karajá Xambioá, Karajá, Javaé, Avá Canoeiro, Krahô Kanela, Kanela do Tocantins e Krahô Takaywrá. Do total, 11.560 pessoas vivendo em terras indígenas e 2.558 fora do território.

Tuinaki Koixaru Karajá de 32 anos é da aldeia Santa Isabel, na Ilha do Bananal. O pai dela e três tios morreram após serem infectados pelo coronavírus. Dos quatro, dois estavam morando na aldeia. A primeira a não resistir foi Kuaxiru Karajá, de 65 anos, que era considerada uma das maiores artesãs da região.

Além da dor para a família, a morte dos quatro irmãos representa uma perda cultural, principalmente para os indígenas mais jovens.

“Minha tia era a maior ceramista da aldeia. Era mestre em Ritxòkò. Ela ensinava muito, e com a morte dela acabou a transmissão de conhecimento para outras gerações. E meu pai também. Ele era muito inteligente, tinha muita sabedoria. Todos os quatro sabiam fazer o artesanato do nosso povo. Meu pai sabia todos. E conhecia um pouco de tudo. Além de saber muito sobre a cultura, ele também entendia muito sobre as leis e indigenismo”, conta a Tuinaki.

Com tristeza pela perda na família tradicional Maluá, a mulher diz que e espera não perder mais ninguém para a doença.

“Agora é só saudade no peito. Não sabemos como a doença chegou. Foi muito difícil. A gente tentou fazer de tudo para tentar ajudar, mas eles acabaram não resistindo”, lamentou a indígena.

Problemas financeiros

Assim como na área urbana, a pandemia fez com que muitos indígenas enfrentassem problemas financeiros. Maxué Karajá de 43 anos aprendeu a ser artesã com a avó na aldeia Kuriala, em Formoso do Araguaia. Ela tem um emprego fixo na cidade, mas também faz parte de um grupo de mulheres que contribuem com a preservação cultural fabricando artesanatos.

São colares, pulseiras e objetos de decoração, como as bonecas Ritxòkò que foram declaradas patrimônio cultural do Brasil em 2012. A fabricação também tem o objetivo de transmitir a cultura do povo para as crianças da aldeia.

Feitas de cerâmica, as bonecas eram as mais vendidas antes da pandemia. Maxué conta que várias indígenas de Lagoa da Confusão e Formoso do Araguaia sustentavam a casa com a comercialização das peças, mas estão sem nenhuma renda. Os produtos eram vendidos em feiras e muitos eram enviadas para outros estados. Os enfeites custam de R$ 40 a R$ 150.

“É difícil para nós porque temos que ter um recurso. E com a pandemia está tudo parado. Não conseguimos vender nada. Ninguém compra, está a maior dificuldade. Para algumas famílias está faltando dinheiro para comprar comida”, lamentou.

Maxué tem cinco filhos. Duas são crianças de 9 e 5 anos e ainda moram com ela. Mesmo diante das dificuldades e sem saber quando a situação vai voltar ao normal, a mulher incentiva as meninas e outras artesãs para que a tradição não seja esquecida e tenta fazer com que as peças continuem sendo fabricadas.

Educação

A Secretaria de Estado da Educação, Juventude e Esportes (Seduc) diz que mantém 95 escolas dentro de aldeias e todas oferecem ensino bilíngue, com professores indígenas.

Por conta do coronavírus, as escolas das aldeias estão fechadas e os estudantes estão fazendo as atividades escolares em casa. Preocupados com o aprendizado na Ilha do Bananal, alguns professores chegaram a ir na casa dos alunos para explicar conteúdos.

A pedagoga Silvia Letícia Gomes da Silva Xerente dá aula em duas escolas indígenas, no município de Tocantínia. Após a pandemia, ela e outros professores passaram a levar as atividades nas aldeias para que os alunos pudessem responder, em casa. No entanto, as crianças tiveram dificuldades de se adaptar ao formato.

“Eles estavam adaptados a ter a explicação na sala de aula para que depois pudessem fazer as atividades. Por mais que nós professores nos reinventamos e colocamos as atividades da forma mais simples, nós pudemos observar que eles tiveram dificuldades por não estarem adaptados a esse novo processo de ensino”.

Vendo as dificuldades dos alunos, Silvia passou o seu número de telefone aos indígenas para que eles pudessem mandar mensagens tirando as dúvidas.

“Isso nos aproximou dos nossos alunos e sempre que surgia uma dúvida, nós estávamos em contato com eles, mesmo que à distância, por meio dessa tecnologias. Isso facilitou esse processo. Foi um ano difícil, em que tanto os alunos, como nos profissionais da educação tivemos que nos reinventar, porém precisamos preservar a vida”, destacou.

Números da Covid-19

Conforme os dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), o Tocantins já contabilizou 1.198 diagnósticos de coronavírus. Do total, 10 indígenas morreram. Desde o início da pandemia, 956 casos foram descartados.

A Sesai afirmou que o Distrito Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) já imunizou 75% do público-alvo com a primeira dose contra a Covid-19 e 57% com a segunda.

Por  G1 Tocantins.