O médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho (sem partido), foi indiciado pelo crime de lesão corporal no âmbito da violência doméstica praticado contra uma de suas ex-namoradas, Debora Mello Saraiva. As investigações da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV) concluíram que o parlamentar agrediu a estudante em pelo menos quatro ocasiões. Em uma das brigas do casal, em um hotel na orla da Barra da Tijuca, que teria ocorrido em dezembro de 2016, a moça chegou a ter um dedo do seu pé direito fraturado após chutes do então namorado. Ele já havia sido indiciado, no último dia 1º, por torturar o filho dela, um menino de 3 anos à época, que teve o fêmur quebrado em uma das sessões de violência.

De acordo com o delegado Adriano França, titular da DCAV, as provas colhidas durante o inquérito mostraram que, embora o relacionamento entre o casal tenha tido início em 2014, apenas a partir dos anos seguintes Jairinho passou a apresentar comportamento violento, tendo a primeira agressão ocorrido dentro de um apartamento em Jacarepaguá. Na ocasião, após ver no celular do vereador mensagens entre ele e a ex-mulher, a dentista Ana Carolina Netto, ela o acordou. Ele teria então ficado “transtornado” e “tomado” seu telefone.

Ele “fez menção de que estaria ligando para uma outra pessoa e disse para a declarante que iria sumir com a declarante, jogar sua bolsa e seu celular em algum lugar, ligar para a mãe da declarante e dizer que ele e a declarante teriam brigado e que a declarante teria saído sem rumo”, destaca um trecho do relatório da DCAV ao qual O GLOBO teve acesso com exclusividade. Após verificar que nenhum conteúdo havia sido encaminhado, Jairinho então teria segurado o pescoço de Debora com as duas mãos, a jogado no sofá e a sufocado, dizendo que iria matá-la.

No segundo episódio de agressão, o casal estava hospedado em um hotel quando, na cama, começaram a discutir. Para encerrar a briga, a estudante teria coberto a cabeça com um travesseiro. O vereador então lhe deu um chute, rachando o osso do quarto dedo de seu pé. Levada por ele a um hospital particular na Zona Norte do Rio, a moça recebeu uma imobilização e colocou uma bota ortopédica. Ao analisar o boletim de atendimento médico da unidade, um perito do Instituto Médico Legal (IML) constatou existir “vestígio de lesão à integridade corporal ou à saúde” da estudante com possíveis nexos causal e temporal ao evento alegado”, concluindo que a lesão foi causada por “ação contundente”.

Em outra ocasião, na casa de praia da família de Jairinho, em Mangaratiba, no ano passado, ele aplicou um mata-leão em Debora e lhe deu três mordidas. Já a quarta sessão de agressões teria acontecido na porta da casa de Debora, onde Jairinho puxou seu cabelo e lhe deu um soco no rosto. Um policial militar, que passava pelo local, chegou a abordar a estudante no carro e perguntar se algo havia acontecido. Em depoimento na DCAV, ela disse que, por medo, negou.

Ao retornar a residência, a irmã de Debora percebeu as lesões em seu rosto e passou a enviar mensagens para o então cunhado: “Nunca mais toca na minha irmã, porque eu não aceito mais isso; ela amanhã pode estar bem com você, aceitando tudo o que você faz com ela, mas agora vou responder por ela, já que ela não responde; não toca mais nela; estou te pedindo; some da vida dela; vai viver sua vida e deixa ela em paz; não quero saber de nada; ela está com o rosto inchado; mesmo que amanhã ela esteja bem com você, como sempre acontece, o que tem acontecido não aceito mais; de verdade; não quero o seu mal; mas o bem dela pra mim é acima de tudo; por favor segue sua vida e deixa ela em paz”.

Jairinho então respondeu, também por aplicativo: “Peça desculpas a todos ai, mas não foi o que aconteceu. Também acho que chegou no limite, mas está dito”. Os prints das telas, que mostram os escritos, foram anexados ao inquérito.

Ainda segundo o delegado Adriano França, Jairinho será indiciado com base na Lei Maria da Penha. Para os outros crimes, como calúnia, injúria e difamação, além de ameaça, já houve a extinção da punibilidade em razão do tempo decorrido. Foi pedida ainda uma nova prisão preventiva contra o parlamentar. Ele é réu por homicídio triplamente qualificado contra Henry Borel de Almeida, filho da namorada Monique Medeiros da Costa e Silva de Almeida, e está preso no Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, no Complexo de Gericinó, em Bangu, desde 8 de abril.