Em meio a especulações sobre o paradeiro do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, que há dias não aparece em seus órgãos de imprensa oficial, como é de costume, a agência de notícias do regime, KCNA, divulgou que ele mandou uma carta ao presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, cumprimentando-o por um feriado nacional, o Dia da Liberdade.

A carta seria datada  de abril, mas não se sabe de fato quando foi redigida ou quem a escreveu. A mensagem, afirma a KCNA, dizia que o povo coreano “desejava sinceramente ao povo amigo da África do Sul maior sucesso em seus esforços para promover a unidade nacional e alcançar o desenvolvimento socioeconômico do país”.

A mensagem diplomática não teria maior importância se não fossem os rumores de que Kim não estaria bem de saúde e a falta de uma manifestação clara de Pyongyang a respeito.

No  domingo (26) um alto conselheiro de segurança do presidente sul-coreano, Moon Jae-in, minimizou os rumores sobre a saúde de Kim.

“A posição do nosso governo é firme. Kim Jong -un está vivo e bem”, disse o conselheiro do presidente Moon sobre segurança nacional, Moon Chung-in, em entrevista ao canal de notícias americano CNN neste domingo (26).

O conselheiro disse que Kim passa uma temporada em Wonsan – um resort no leste do país – desde 13 de abril. “Nenhuma movimentação suspeita foi detectada até o momento”, afirmou.

‘Nada anormal’

Autoridades da Coreia do Sul estão enfatizando que não detectaram nenhuma movimentação anormal na Coreia do Norte e sugerindo cautela com relatos de que o ditador norte-coreano, Kim Jong Un, pode estar doente ou sendo isolado por receio do coronavírus.

Em uma reunião feita a portas fechadas no domingo, o ministro da Unificação sul-coreano, Kim Yeon-chul, encarregado dos contatos com o vizinho do norte, disse que o governo tem as capacidades de inteligência para dizer com confiança que não existem indícios de nada incomum.

O  presidente dos Estados Unidos disse que não sabe como está Kim Jong-un, mas que espera que esteja bem.

Sem aparições públicas

Especulações sobre o estado de saúde de Kim foram crescendo desde sua ausência nas celebrações, em 15 de abril, no aniversário de seu avô, Kim Il Sung, fundador da Coreia do Norte, o dia mais importante do calendário político do país.

Kim não faz aparições públicas desde que presidiu um encontro do politburo do Partido dos Trabalhadores, em 11 de abril, e no dia seguinte a imprensa estatal divulgou que ele teria inspecionado caças-bombardeiros em uma unidade de defesa aérea.

Sua ausência nas celebrações do dia 15, no entanto, deu lugar a informações não confirmadas na imprensa sobre seu estado de saúde, que autoridades em Seul já tinham tentado minimizar.

“Não temos nada a confirmar e nenhuma movimentação especial foi detectada por enquanto dentro da Coreia do Norte”, informou, em um comunicado na semana passada, o gabinete presidencial sul-coreano.

Cirurgia cardiovascular

O site “Daily NK”, um veículo on-line administrado sobretudo por críticos à Coreia do Norte, reportou que Kim estaria se recuperando de uma cirurgia cardiovascular realizada no começo do mês.

Citando uma fonte não identificada dentro do país, a matéria diz que Kim, que tem por volta de 35 anos, teria precisado se submeter à operação por fadiga, obesidade e tabagismo.

O ministro da Unificação sul-coreano questionou a reportagem sobre a cirurgia, argumentando que o hospital mencionado não tem estrutura para tal operação.

Mas Yoon Sang-hyun, que preside o Comitê de Relações Exteriores e Unificação da Assembleia Nacional sul-coreana, disse nesta segunda-feira (27) a uma reunião de especialistas que a ausência de Kim Jong Un leva a crer que “ele não está trabalho como normalmente”.

“Não surgiu nenhuma reportagem mostrando que ele tomou decisões sobre políticas como sempre desde 11 de abril, o que nos leva a supor que ou ele está doente, ou sendo isolado por causa de temores do coronavírus”, disse Yoon.

O que se sabe

Na semana passada a rede e notícias CNN reportou que Washington estava “monitorando informações de inteligência” segundo as quais Kim estaria em “grave perigo” depois da cirurgia, atribuindo as declarações a uma fonte oficial americana que teria pedido para se manter anônima.

Na quinta-feira, o presidente americano, Donald Trump, refutou as informações de que Kim estaria debilitado, mas se recusou a afirmar qual foi a última vez que entrou em contato com ele.

Na segunda-feira passada, o jornal oficial “Rodong Sinmun” reportou que Kim tinha enviado uma mensagem de agradecimento a trabalhadores do projeto turístico costeiro Wonsan Kalma.

Foi o último de uma série de informes nos últimos dias de comunicados ou ações atribuídos a Kim, embora nenhum tenha sido acompanhado de uma foto dele.

Imagens de satélite revistas pelo ‘think tank’ 38North, sediado nos Estados Unidos, mostrou um trem, provavelmente de propriedade de Kim, na estação de Wonsan na semana passada.

A organização alertou que a presença do trem não “indica nada sobre sua saúde”, mas “dá peso” aos informes segundo os quais ele estaria na costa leste do país.

Dois anos de reunião histórica

As declarações sul-coreanas foram divulgados dois anos após a primeira reunião de cúpula entre Kim e Moon na Zona Desmilitarizada que divide a península.

Seul recordou o aniversário com uma cerimônia na estação de trem mais ao norte do país, em uma tentativa de destacar seu compromisso para concretizar um projeto ferroviário entre as fronteiras.

O presidente sul-coreano Moon Jae-in (esq.) e o líder norte-coreano Kim Jong-un apertam as mãos durante encontro em Pyongyang, na Coreia do Norte. Novos acordos da reaproximação incluem o fechamento do sítio norte-coreano de testes de mísseis de Tongchang-ri, a redução da possibilidade de confrontos entre seus exércitos ao redor da fronteira que compartilham, e uma candidatura conjunta aos Jogos Olímpicos de 2032 — Foto: Pyongyang Press Corps Pool via APO presidente sul-coreano Moon Jae-in (esq.) e o líder norte-coreano Kim Jong-un apertam as mãos durante encontro em Pyongyang, na Coreia do Norte. Novos acordos da reaproximação incluem o fechamento do sítio norte-coreano de testes de mísseis de Tongchang-ri, a redução da possibilidade de confrontos entre seus exércitos ao redor da fronteira que compartilham, e uma candidatura conjunta aos Jogos Olímpicos de 2032 — Foto: Pyongyang Press Corps Pool via AP

O presidente sul-coreano Moon Jae-in (esq.) e o líder norte-coreano Kim Jong-un apertam as mãos durante encontro em Pyongyang, na Coreia do Norte. Novos acordos da reaproximação incluem o fechamento do sítio norte-coreano de testes de mísseis de Tongchang-ri, a redução da possibilidade de confrontos entre seus exércitos ao redor da fronteira que compartilham, e uma candidatura conjunta aos Jogos Olímpicos de 2032 — Foto: Pyongyang Press Corps Pool via AP

Porém, as relações entre as Coreias estão congeladas atualmente.

Estados Unidos e Coreia do Norte tampouco avançaram nos últimos meses em suas negociações sobre a questão nuclear norte-coreana.

Nenhuma informação foi divulgada sobre uma possível comemoração do encontro histórico no lado norte da península.