Mais de 1.100 quilômetros separam a Rua Barreiros, em Ramos, na Zona Norte do Rio, da cidade de Florianópolis. Foi na via do subúrbio carioca, numa noite em setembro de 2016, que o coronel Pedro Chavarry Duarte, então presidente da Caixa Beneficente da Polícia Militar, viu desmoronar a imagem de bom samaritano que ele vinha tentando construir nas duas décadas anteriores. Flagrado no carro com uma menina nua, de apenas 2 anos, o oficial foi preso.

Na distante capital catarinense, um jovem de 20 anos, estudante do 3º período de Jornalismo, estava prestes a gestar uma obsessão sem precedentes pelo caso. Cinco anos depois, a compulsão obstinada daria origem ao livro “O coronel que raptava infâncias”, de Matheus de Moura, obra recém-lançada pela editora Intrínseca.

Para conseguir contar a história de Chavarry, que conheceu a partir de uma reportagem do “Fantástico” no domingo seguinte à prisão, Matheus, ainda universitário, mergulhou de cabeça na trajetória do coronel. Mesmo à distância, fez contatos e conseguiu os primeiros materiais. Mas não era o bastante: em 2018, mudou-se para Niterói, onde mora até hoje, e passou a peregrinar por endereços de vítimas, parentes e pessoas ligadas ao oficial. Leu quase 20 mil páginas de processos, que chegava a passar um mês inteiro fotografando, e gravou centenas de horas de entrevistas.

— Fiquei realmente fissurado. Antes mesmo de vir para o Rio de Janeiro, passei a acompanhar absolutamente tudo, fazia anotações. Eu pensava: uma pessoa que sugere suborno com a naturalidade que ele propôs, em uma situação tão tensa, deve ter feito isso muitas vezes — lembra Matheus, hoje com 25 anos, referindo-se a um vídeo gravado por um policial no momento do flagrante, no qual Chavarry tenta se valer da patente alta e oferece dinheiro e vantagens para “acabar a ocorrência”.

Infância ultrarreligiosa

O resultado de tanta pesquisa veio na forma de detalhes nunca antes revelados sobre a vida do PM, como a infância ultrarreligiosa numa casa simples de Bonsucesso, bem perto de onde ele viria a ser preso seis décadas mais tarde, e a relação peculiar com a mãe, que casou grávida de 3 meses de Pedro, o primogênito de quatro filhos. Semanas antes de ser jogado nos holofotes pela cena abjeta registrada em Ramos, Chavarry passou a tarde contando piadas e rindo na sala ao lado do velório da mãe, como conta uma passagem do livro. Ele sequer chorou.

A obra também destrincha o primeiro escândalo no qual o coronel se envolveu. Autorizado pelo Tribunal de Justiça do Rio, Matheus foi a primeira pessoa fora dos autos a colocar as mãos no processo que tratava de uma acusação de tráfico de bebês surgida em 1993, da qual o PM foi inocentado.

Na ocasião, uma recém-nascida foi encontrada sozinha em um imóvel que pertencia a Chavarry em um conjunto habitacional de Bangu. O oficial alegou cuidar do bebê de 3 meses, que estava medicado com o calmante Lexotan, tendo a permissão da mãe dela, uma moradora de comunidade muito humilde — mesmo argumento que o oficial viria a usar dali a duas décadas.

As semelhanças entre o episódio da casa 183 e a prisão em 2016 são vastas. Os menores que passaram pelas mãos de Chavarry, antes ou depois, eram sempre de famílias paupérrimas, convencidas de que as crianças estariam seguras em creches que não existiam. Eram “maternidades insalubres demais para serem guiadas sozinhas”, escreve o autor.

Crianças doadas a outras famílias

Muitas crianças chegaram a ser entregues pelo PM a outros casais, sem a anuência dos pais. Alguns nunca mais viram os filhos. A menina achada nua no carro dele também tem a curta história contada no livro, desde a barriga de uma adolescente que viraria mãe zelosa até ser levada por uma parente usuária de crack ao encontro do coronel.

— Ele sabia perfeitamente o que fazer. Só frequentava comunidades que não tinham tráfico forte nem associação de moradores, porque isso tornava as vítimas mais vulneráveis — explica Matheus, que utilizou a primeira versão do livro como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e hoje colabora com vários veículos.

De Tim Lopes a Castor

Na obra, personagens simbólicos da história do Rio surgem volta e meia, ligados de algum modo a Chavarry. Estão lá, entre outros, o repórter Tim Lopes, o ex-deputado Paulo Melo, o senador Flávio Bolsonaro e o bicheiro Castor de Andrade, de quem o coronel teria recebido constantes propinas.

O convívio com figuras proeminentes ajuda a explicar como Chavarry conseguiu passar de policial acusado de sequestrar crianças, em 1993, a oficial respeitado até voltar a ser preso 23 anos depois. Enquanto ascendia social e profissionalmente, ele trocava de perfil de acordo com a conveniência, indo de oficial progressista favorável à inclusão de mulheres na tropa e crítico de mazelas sociais a candidato a deputado, em 2014, pelo conservador PSL , que viria a abrigar Jair Bolsonaro.

— Quanto mais poder ele tivesse, mais blindagem conseguiria, vide o posto na Caixa Beneficente — diz Matheus.

Condenado em maio de 2017 a 11 anos de reclusão por estupro de vulnerável e corrupção ativa, Chavarry havia sido solto e só voltou para a cadeia em 2019, quando outra acusação de abuso surgiu. Ele está detido na Unidade Prisional da PM, corporação da qual ainda faz parte. Embora o chamado Conselho de Justificação tenha optado pela expulsão, o processo tramita na Justiça. Desde a sentença de 2017, o coronel recebeu mais de R$ 1,9 milhão em salários.