Exercícios na academia improvisada, leituras, discussão com outros presos por causa da esposa e até desmaio com uso de antidepressivos. Esses fatos e outros detalhes, que marcam a vida do ex-governador Sérgio Cabral no cárcere, podem ser conhecidos no livro “O carcereiro do Cabral — Verdades e mentiras sobre a vida do ex-governador em Bangu 8”, com edição impressa lançada este mês pela editora Máquina de Livros.

A obra é escrita pelo policial penal e jornalista Anderson Sanchez, que passou, em 1997, no concurso para agente de segurança penitenciária com a intenção de pagar seus estudos. Em 2015, passou a trabalhar na administração em Bangu 8, para onde Cabral foi levado. Incomodado com notícias falsas sobre a prisão, Sanchez buscou esclarecê-las com o livro, que conta com histórias presenciadas por ele, mas também relatos de outros colegas.

Após a confirmação da prisão de Cabral, o grupo dos servidores da unidade no WhatsApp já estava lotado de comentários sobre o assunto, conta o jornalista. Ao chegar à cadeia, o ex-governador teve o prontuário preenchido em 15 minutos e foi recebido em Bangu 8 pelo diretor Alex Carvalho. Apesar de ter na mochila par de óculos de sol Cartier, medalha francesa, carteira com R$ 1.000 (o valor permitido para os presos é de R$ 100 por semana), cartões de crédito e talões de cheques, o ex-governador só pôde entrar na unidade com remédios e um livro.

Em sua primeira noite em Bangu 8, Cabral chorou. Ainda na cela da triagem, o político escutava os 17 minutos de reportagens no “Jornal Nacional” sobre a sua prisão. Após o baque inicial, começou a puxar conversas e lembrar aos policiais que, se tinham bons salários, era graças ao governo dele. O próprio autor do livro votou em Cabral duas vezes e, depois, em Pezão.

Segundo o livro, Cabral lamentava não poder acompanhar a primeira comunhão do filho mais novo. No dia seguinte à prisão, a capela da igreja foi um dos primeiros locais procurados pelo ex-governador.

Outros lugares bastante frequentados por Cabral eram a biblioteca e a academia. Quando fazia musculação, tinha um personal trainer informal, um profissional de Educação Física preso que lhe dava orientações. Foi na academia que Cabral teve um dos seus desentendimentos com outros detentos. Os presos colaram uma charge sobre a ex-primeira-dama, Adriana Ancelmo,, em uma parede. Ele se revoltou e pediu para falar com o diretor da cadeia, que não o atendeu. Policiais contornaram a situação.

O autor não associa a perda de peso do político com a depressão, e sim com os exercícios físicos. Mas Cabral usou antidepressivos. Em fevereiro de 2017, chegou a ingerir o dobro da quantidade dos remédios receitada e desmaiou. Na queda, machucou o rosto e o braço, sendo levado numa cadeira de rodas à UPA do complexo penitenciário.

Um colega de presídio que incomodou o ex-governador foi Evandro Bertino Jorge, o Evandro Capixaba, ex-prefeito de Mangaratiba. condenado por fraude em licitações e falsidade documental, Jorge costumava fazer imitações do jeito de Cabral caminhar e colocar a mão na cintura. O ex-governador não tinha boa relação com o companheiro de cela e brigou porque Jorge, supostamente, ele teria urinado na tampa do vaso.

Em Bangu 8, Cabral deu algumas carteiradas. Usava o refeitório dos funcionários para se encontrar com deputados e advogados. Alegava que não podia ficar no parlatório, como os outros presos, porque tratava da sua delação. O ex-governador chegou a pedir um laptop para escrever a delação, e teve o pedido negado. Mas a permissão para que sua mulher o visitasse saiu em menos de dez dias. O prazo costuma levar de dois a três meses. Só em 2019, os dois tiveram visita íntima.

Com o decorrer das investigações, Adriana também foi para a cadeia. Esse episódio levou o ex-governador às lagrimas. Depois de se despedir do pai, Marco Antônio Cabral foi informado que Adriana acabara de ser presa. Ele voltou à prisão para avisar ao ex-governador, que “começou a gritar, como se estivesse desesperado”.

Sanchez acompanhou a vida do político na cadeia por seis meses. Hoje, faz assessoria de imprensa para sindicatos e atua como pesquisador. Após votar em Cabral, ele diz não ter pena do ex-governador e reconhece alguns dos privilégios recebidos pelo político na prisão. Preso desde novembro de 2016, Cabral teve 14 condenações na Lava-Jato e sua pena passa de 294 anos.