A aposentada Liliane Alves Ribeiro Portugal, 64 anos, que reside no Setor Morada do Sol, em Palmas, subiu no pequeno palco da Feira Coberta da Arno 33, na noite do  último sábado,26, para contar um pouco da sua história de vida. A situação parece comum, mas o que difere a senhora – que demostrou desenvoltura ao falar aos presentes feira – é que ela, durante muito tempo, foi proibida de falar, se manifestar e até mesmo de demostrar qualquer tipo de sentimento. Por vários anos a aposentada ficou internada em hospital psiquiátrico, os antigos manicômios, onde segundo ela foi maltratada, levou choque e sofreu muito.

Liliane contou a todos que passavam pela Feira como atualmente é acompanhada: “Quando me mudei para Palmas conheci o trabalho feito pelo Caps II, então resolvi participar. Quando cheguei lá, nem eu mesma me conhecia, não sabia de onde eu vinha e nem pra onde ia, mas graças a Deus e os anjos do Caps, hoje estou aqui, muito melhor”, conta emocionada acrescentando que o espaço é um local onde todos os usuários recebem amor, carinho e muita compreensão, “todos nós temos o prazer de conviver ao lado dos que nos olham com respeito”.

A aposentada, outros usuários, trabalhadores da saúde, familiares e as residentes em saúde mental da Fundação Escola de Saúde Pública de Palmas (Fesp) também participaram da primeira edição do Projeto Loucura Itinerante neste sábado, 26. Para chamar a atenção dos visitantes e feirantes, a organização do evento preparou várias atividades culturais, como exibição de vídeos a respeito da reforma psiquiátrica, músicas referentes ao tema, exposição dos produtos feitos pelos pacientes dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps II e AD III), como artesanatos, quadros, utensílios e peças de bordado e crochê, distribuição de panfletos, roda de conversa acerca do processo da reforma psiquiátrica e funcionamento dos Caps e luta antimanicomial.

 

A feirante Antônia Souza ficou bastante atenta a toda movimentação do grupo na Feira. De acordo com ela os depoimentos e as apresentações foram um convite para mais reflexão sobre o assunto. “Tive um filho que passou por isso. Foi usuário de álcool e drogas. Passamos muitos problemas com ele. Mas graças a Deus ele se livrou disso tudo. Então, quando eu vejo novamente tantos depoimentos assim, passa um filme na minha cabeça”, relata.

A psicóloga Stefhane Santana que é uma das coordenadoras do Projeto relembrou um pouco da história da luta antimanicomial que teve início a mais de 35 anos atrás. Stefhane contou que depois de muitas denúncias das violências praticadas nos manicômios, da questão da mercantilização da loucura, com extensa rede privada na assistência e do despreparo dos profissionais, este modelo começou a entrar em decadência. Quase uma década depois do início do movimento surgiu o primeiro Centro de Atenção Psicossocial no país (Caps), na cidade de São Paulo.

“O movimento começou com trabalhadores da área de saúde mental, mas é muito importante envolver a sociedade, levar a nossa luta para outros atores, entre os quais, os próprios pacientes, os familiares e outros atores de movimentos sociais. A gente entende que essas pessoas têm o direito de receber cuidado e tratamento adequado, mas, como todo cidadão, elas também têm o direito à liberdade e ao convívio em sociedade”, explica a profissional reforçando que o projeto visa fortalecer a articulação entre os serviços da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e a comunidade.

Além da Fesp, são parceiros no projeto a Secretaria Municipal de Saúde, através dos Caps II e AD III e do programa Consultório na Rua, a Fundação Municipal de Juventude (FJP), por meio do projeto Palmas que te Acolhe, e a Secretaria Estadual da Saúde (Sesau).

(Com informações da assessoria de comunicação)