Uma mulher de 50 anos foi esfaqueada por volta das 20h40 da segunda-feira, dia 4, em Santa Catarina. O autor foi identificado pela Polícia Militar como o marido dela, de 54 anos, que cometeu suicídio logo após o crime. A vítima foi socorrida a um hospital da região. Cerca de 11 horas antes, uma mulher de 54 anos foi encontrada morta pelo filho dentro da casa onde morava, no mesmo estado. No corpo, havia marcas de violência. O caso é tratado pela polícia como feminicídio.

A PMSC informou que equipes do 19º BPM foram acionadas para uma ocorrência na Rua Pedro Leopoldino Pereira, bairro Polícia Rodoviária, no município de Aranguá, onde um homem com antecedentes criminais chegou em casa com sinais de embriaguez. Após uma discussão, ele desferiu diversas facadas na mulher e começou a se ferir. Ambos foram socorridos e encaminhados para o hospital em estado grave, mas o autor não resistiu aos ferimentos.

Quando ao crime ocorrido pela manhça, policiais militares do 24º BPM foram chamados para um caso na Rua Manoel Nunes Freitas, no bairro Bom Viver, na cidade de Biguaçu. O filho da vitima contou aos agentes que não conseguia entrar em contato com sua mãe desde sexta-feira, dia 1º.

Procurada, a Polícia Civil de Santa Catarina ainda não enviou mais detalhes sobre os casos.

Feminicídios em SC nos dias 24, 25 e 30 de dezembro

Na véspera de Natal, Thalia Ferraz, de 23 anos, foi morta a tiros pelo ex-companheiro diante de parentes em Jaraguá do Sul. O homem de 42 anos se entregou à polícia cinco dias depois. Já no dia 25, Aline Arns, de 38 anos, foi baleada também dentro de casa pelo ex-companheiro, que cometeu suicídio, em Forquilhinha. No dia 30, Rosângela Aparecida de Oliveira, de 34 anos, morreu ao ser esfaqueada pelo namorado em Brusque. O autor, de 26 anos, tentou fugir, mas foi preso em flagrante.

Festas de fim de ano e isolamento social são tidos como fatores que impulsionaram violência contra a mulher

Coordenadora do Núcleo de Gênero junto ao Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público de São Paulo (MPSP), a promotora de Justiça Valéria Scarance avaliou que o período das festas de fim de ano é, culturalmente no Ocidente, uma época que provoca reflexão nos indivíduos, o que pode despertar frustrações em homens já violentos, que não conseguem manter autocontrole.

— Período de festa, Natal e Ano Novo, é para nós no mundo ocidental um período de reflexão, de análise da vida, de rever as decisões, as frustrações; é um período muito simbólico. Então homens autores de violência não lidam bem com as suas frustrações, suas perdas, não aceitam que a mulher muitas vezes os contrarie ou mesmo coloque fim ao relacionamento — explicou. — Nesses momentos, esses homens tendem a fazer também essa reavaliação. Se eles não lidam bem com as suas questões, seus sentimentos, se eles já são violentos e não conseguem racionalizar essa dor, eles podem, sim, intensificar essa violência, e isso pode levar à ocorrência de um feminicídio.

No ano de 2020, Scarance explicou que o isolamento social imposto pela pandemia acabou representando um fator que intensificou os casos de violência contra a mulher.

— No início da pandemia, se constatou um aumento dos índices de violência contra a mulher, tanto pelas prisões em flagrante, das chamadas 190 da Polícia Militar, quanto dos registros de notícias anônimas pela central 180 — afirmou.

A promotora elencou quatro indicadores de risco durante esse período impactado pela Covid-19.

— Primeiro, o isolamento forçado: a mulher se afasta das suas bases de sustentação, dos seus amigos, da sua família. Segundo, o controle: muitas mulheres vivem com os agressores, então eles têm maior controle, 24 horas de controle durante a pandemia. Também o consumo de álcool e drogas torna os homens violentos ainda mais violentos — citou, ressaltando: — É importante sempre lembrar que a pandemia não transformou homens pacíficos em violentos, mas os homens violentos tornam-se ainda mais cruéis, mais destemperados durante a pandemia em razão dessas questões: consumo de álcool e problemas econômicos, que abrem as portas para um padrão de violência que já foi incorporado ao longo da vida desse homem.

No estudo coordenado pela promotora, em 2018, já foi dito que o feminicídio “é uma morte evitável”.

“É certo que 3% do total de vítimas obteve medidas de proteção e 4% das vítimas fatais havia registrado Boletim de Ocorrência”, diz a pesquisa. “Contudo, a grande maioria de vítimas de feminicídio, consumado ou tentado, nunca registrou Boletim de Ocorrência ou obteve uma medida de proteção, o que leva à conclusão de que romper com o silêncio e deferir medidas de proteção é uma das estratégias mais efetivas na prevenção da morte de mulheres”.