Mensagens obtidas pela PF (Polícia Federal) mostram que ex-titular da Secom (Secretaria de Comunicação), Fabio Wajngarten, pediu ajuda para o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos para divulgar uma nota oficial defendendo a secretário de acusações feitas em uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo. As informações constam em relatórios do inquérito dos atos antidemocráticos que se tornaram públicos por determinação do ministro Alexandre de Moraes.

Os diálogos foram obtidos durante buscas da Operação Luma na residência do blogueiro Allan dos Santos, do canal Terça Livre. Na ocasião, o telefone dele foi apreendido.

 “Me ajuda nas redes, por favor”, escreveu Wajngarten, depois de compartilhar uma nota que dizia: “O Secretário Fábio Wajngarten não cometeu qualquer crime contra o erário público ao destinar verbas publicitárias para agências e veículos de comunicação que tem sua empresa como fornecedora”.

O Relatório da PF aponta que Allan dos Santos foi incluído em um grupo de WhatsApp chamado “Mídia Pensante“. Foi apresentado aos participantes pelo então secretário da Secom, Fabio Wajngarten, que o chamou de “brilhante“.

Um integrante do grupo chamado “Jorge” sugeriu a Wajnganten a criação do setor para “assessorar o presidente“. A conversa é datada de 14 de abril de 2019. Eis a íntegra do diálogo:

JORGE: Fábio, aquela ideia de comunicação estratégica e contra informação. Na minha opinião, você deve criar um departamento para isso. Você já até concordou com a ideia. Vamos implementá-la?

JORGE: Fábio, veja a minha sugestão. Nós podemos fazer um upgrade diferente para o nosso Brasil. Me responda, por favor

MATOS: Gosto muito dessa ideia. Alguém que tenha experiência em estratégia política e conheça bem a mídia e os stakeholders da comunicação.

WAJNGARTEN: Bom dia, assim que minimamente estruturada a SECOM vamos implementar. No momento, todos os funcionários estavam desmotivados e sem direcionamento. Nesses 3 dias que passamos por lá o orgulho, a motivação, a alegria de trabalhar estão sendo resgatados.

A PF não identificou quem seriam os interlocutores “Jorge” e “Matos”. O Poder360 entrou em contato com o ex-secretário da Secom Fabio Wajngarten que afirmou que nunca compareceu em reuniões com o blogueiro Allan dos Santos e que só teria se encontrado com ele no máximo em 5 ocasiões. Wajngarten também disse que não houve “ingerência” na gestão dele e que pisou apenas 3 vezes na TV Brasil em 2 anos.

CRÍTICAS E COBRANÇAS

Outras trocas de mensagens entre Wajngarten e Allan dos Santos também foram listadas pela PF. Em uma delas, datada de 6 de maio de 2019, o blogueiro critica o então ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, e sugere: “Coloca o Carlos no lugar dele“. Wajngarten responde: “Quem tem essa caneta?“.

Há também registros de cobranças de Allan dos Santos sobre acesso a vídeos da TV Brasil. Em conversa datada de 30 de junho de 2019, o blogueiro reclama: “Há um canal que consegue antes de qualquer um. NÃO É NO SITE!“.

Wajngarten responde: “Deixa comigo. Já pedi para a Secom entender o funcionamento e distribuição desses vídeos“.

Em outro diálogo, Allan encaminha ao secretário vídeo publicado no canal bolsonarista Folha do Brasil sobre um discurso de Bolsonaro no dia 7 de julho de 2019. “Por que só eles, Fabio? Meu amigo estava no evento e não havia ninguém lá, a não ser o próprio governo filmando“, reclamou o blogueiro.

Wajngaten explica que o canal consegue os sinais da EBC como as emissoras tradicionais. “O sinal está disponível. Ele não tem prioridade em nada“, afirma.

PF MIROU SECOM; PGR BARROU

Em junho do ano passado, a PF solicitou ao ministro Alexandre de Moraes que autorizasse buscas contra a Secom e a casa de Wajngarten. Os investigadores queriam aprofundar as apurações sobre suposto repasse de verbas federais a sites e canais bolsonaristas que difundiam mensagens consideradas antidemocráticas.

Na ocasião, a delegada Denisse Dias Ribeiro afirmou que havia plausibilidade de ação ou omissão de integrantes da Secom para a distribuição indireta de verbas aos canais. A investigação apurava se foram criados filtros que impedissem a exibição de publicidades do governo federal nos canais, que recebiam verbas por monetização após exibir esses conteúdos.

A CPMI das Fake News tentou avançar nessa linha e cobrou dados da Secom, segundo registrou Denisse, mas obteve dificuldades em obter as informações.

“Esse dado, se analisado em conjunto com o vínculo pessoal já demonstrado entre Allan dos Santos e o então secretário da Secom, Fabio Wajngarten, demonstra a imprescindibilidade de aprofundamento da investigação em relação à conexão entre esses atores“, afirmou a delegada.

O pleito, porém, recebeu parecer contrário da PGR (Procuradoria Geral da República). O órgão afirmou que, ao invés de buscas, mostrava-se mais adequado ao momento da investigação requisitar documentos à Secom sobre as campanhas publicitárias e o planejamento de mídia da pasta.

Em parecer, o vice-procurador-geral, Humberto Jacques de Medeiros, disse que o avanço das apurações contra a Secom “sem um lastro mínimo concreto” poderia configurar “extrapolação de atos investigativos”.

ENTENDA O INQUÉRITO

O inquérito dos atos com pautas consideradas antidemocráticas foi aberto em abril de 2020 com base na Lei de Segurança Nacional. O pedido de investigação foi feito na esteira de atos que defendiam o fechamento do STF e do Congresso e uma nova edição de decreto similar ao AI-5 (Ato Institucional), medida que endureceu a ditadura militar no Brasil.

A investigação colheu depoimentos de congressistas e empresários aliados do Planalto e também blogueiros e youtubers bolsonaristas, como Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio. Filhos do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) também foram ouvidos.

Na última 6ª feira (4.jun), a PGR pediu o arquivamento do inquérito. Em parecer, o vice-procurador-geral, Humberto Jacques de Medeiros, afirmou que diligências conduzidas pela PF não encontraram indícios de envolvimento dos congressistas nos fatos apurados.

O ministro Alexandre de Moraes vai avaliar o pedido. Na 2ª (7.jun), o magistrado pediu informações da PGR antes de decidir sobre o arquivamento das investigações.