Da arte rupestre no sul às pirâmides ao longo do rio Nilo, o homem tem deixado suas marcas no continente africano há milênios. Entretanto, os efeitos das mudanças climáticas — nas quais o papel das intervenções humanas têm cada vez mais sido demonstrado — colocam estas próprias marcas culturais em risco.

Em uma publicação científica recente, pesquisadores do Reino Unido, Quênia e Estados Unidos afirmam que é necessária uma “mobilização significativa” para salvar patrimônios culturais de eventos climáticos extremos, como o aumento do nível do mar e tempestades.

E, nas últimas semanas, o alerta tem se materializado em um exemplo: arqueólogos do Sudão estão se esforçando para impedir que enchentes do Nilo cheguem às ruínas de al-Bajrawiya, considerado um Patrimônio Mundial pelas Nações Unidas.

O rio inunda todo ano, mas pessoas da região relatam que o nível nunca esteve tão alto.

A equipe de cientistas que escreveu recentemente sobre ameaças como essa listaram alguns patrimônios que também estão em risco na África.

Suakin, no nordeste do Sudão, já foi um porto muito importante no Mar Vermelho.

Sua história começou há 3 mil anos, quando faraós egípcios transformaram o local estratégico em porta de entrada para o comércio e outras formas de exploração.

Mais tarde, Suakin se tornou um lugar de passagem para peregrinos muçulmanos a caminho da Meca e desempenhou um papel significativo no tráfico de escravizados do Mar Vermelho.

Também foi parte do Império Otomano, embora tenha perdido sua proeminência depois que o Porto Sudão foi construído mais ao norte no início do século 20.

Grande parte de Suakin está em decadência, mas ainda contém belos exemplos de casas e mesquitas, diz a organização cultural das Nações Unidas, a Unesco.

Joanne Clarke, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, está atualmente trabalhando para quantificar a velocidade com que o aumento do nível do mar e a erosão costeira podem afetar o patrimônio — possivelmente, de forma irreversível.

“O que sabemos é que a costa do Mar Vermelho será afetada nas próximas décadas, o que significa que o que atualmente está de pé será perdido [sem intervenções]”, diz Clarke.

A cidade velha de Lamu guarda o assentamento suaíli mais antigo e mais bem preservado da África Oriental, de acordo com a Unesco.

Ao contrário de outras cidades e vilas ao longo da costa da África Oriental, muitas das quais foram abandonadas, Lamu é habitada continuamente há mais de 700 anos.

Também se tornou um polo significativo para o estudo das culturas islâmica e suaíli, acrescenta a ONU.

Entretanto, Lamu é “severamente afetada pelo recuo da costa”, o que significa que a proteção natural antes oferecida pela areia e vegetação foi perdida.

Isso aconteceu em parte pela mudança nos níveis do mar, mas Clarke também culpa a construção do enorme porto de Lamu ao norte da cidade velha, “que está destruindo os manguezais que protegem a ilha de inundações”.

“Portanto, muito do que chamaríamos de patrimônio natural é uma proteção ao patrimônio cultural. E à medida que destruímos o patrimônio natural, também deixamos os patrimônios culturais expostos.”

Construções costeiras, Comores

Comores, um arquipélago vulcânico na costa leste da África, tem várias construções antigas bem preservadas, incluindo uma medina e um palácio com centenas de anos de idade.

Mas é um dos lugares “mais ameaçados” pelo aumento do nível do mar na África, aponta Clarke.

Em um cenário possível de emissões globais de carbono moderadas a altas, “partes significativas da zona costeira africana serão inundadas até 2100”, de acordo com o estudo.

“Em 2050, Guiné, Gâmbia, Nigéria, Togo, Benin, Congo, Tunísia, Tanzânia e Comores estarão todos sob ameaça significativa de erosão costeira e aumento do nível do mar.”

Fortes e castelos costeiros, Gana

A costa de Gana é cheia de entrepostos comerciais fortificados, fundados entre 1482 e 1786, que se estendem por 500 km ao longo do litoral.

Os castelos e fortes foram construídos e ocupados em épocas diferentes por comerciantes de Portugal, Espanha, Dinamarca, Suécia, Holanda, Alemanha e Reino Unido.

Essa infraestrutura desempenhou um papel importante no comércio de ouro e, posteriormente, na ascensão e queda do tráfico de escravizados entre a África e as Américas.

Mas os fortes estão localizados em áreas altamente vulneráveis a tempestades e à elevação do nível do mar.

Clarke diz que algumas pérolas dessa arquitetura, como o Forte Prinzenstein, estão sendo “erodidas pelo mar”.

Comparando as imagens atuais do forte com as tiradas há 50 anos, é possível ver como a estrutura já foi deteriorada.

Arte rupestre em Twyfelfontein, Namíbia

As mudanças climáticas podem aumentar a umidade em áreas relativamente áridas e, com isso, criar condições para a proliferação de fungos e micróbios nas rochas.

É o que está acontecendo em locais como Twyfelfontein, na Namíbia, que tem uma das maiores concentrações de arte rupestre da África.

A Unesco descreve o lugar como um “registro extenso e de alta qualidade de práticas rituais de caçadores-coletores há pelo menos 2 mil anos”.

Djenné, Mali

As cerca de 2 mil casas de barro de Djenné formam um dos cartões postais mais icônicos do Mali. Habitada desde 250 a.C., Djenné era uma cidade mercantil e um importante elo ponto na rota do ouro transaariana.

Nos séculos 15 e 16, foi um dos centros de expansão do Islã na África Ocidental.

Mas a mudanças climáticas estão afetando a disponibilidade de lama de alta qualidade usada pelos residentes originais para essas construções.

A população local, que também viu sua renda cair com safras ruins na agricultura, acaba recorrendo a materiais mais baratos — o que “está mudando radicalmente a aparência da cidade”, diz o estudo.

‘Lugar inacreditavelmente maravilhoso’

Alguns países estão em melhor posição para lidar com o impacto das mudanças climáticas em seu patrimônio.

O Egito, por exemplo, fica em uma região de baixa altitude sob “grave risco de enchentes nas próximas décadas”, mas tem mais estrutura para lidar com alguns dos desafios.

Há por outro lado lugares que podem desaparecer “sem quase ninguém saber”, diz Clarke, como pinturas rupestres na autodeclarada Somalilândia. Arqueologicamente, trata-se de um lugar “inacreditavelmente maravilhoso”, diz a professora — mas pouco conhecido em outros continentes e carente de recursos para sua proteção.