O inigualável cronista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues tinha um culpado para tudo que ocorria com o Fluminense, seu time do coração: o Sobrenatural de Almeida. Esse fantasma nefasto, segundo o ilustre tricolor, faz de tudo para atrapalhar o clube: leva um craque a pisar em falso, desvia a direção da bola e até distrai o juiz.

O Tocantins parece viver esse drama de dimensões rodriguianas. Criado sob a promessa de ser a terra da “livre iniciativa e da justiça social”, o Estado ainda patina nessa empreitada. Viu o governador reeleito em 2006 cassado em 2009; o que venceu as eleições de 2010, renunciar em 2014; e o que voltou em 2015 ser novamente cassado em 2018. Agora aquele que venceu em 2018 é afastado e pode não completar o mandato. Veja só: faz 16 anos que um governador eleito não consegue concluir os quatros que recebeu do eleitor tocantinense. Além disso, ressalte-se, dois deles passaram pela prisão.

Antes da virada do século, ainda tivemos a primeira renúncia do ex-governador Siqueira Campos em 1998, o que garantiu que seu filho Eduardo Siqueira Campos pudesse ser candidato a senador. Na época, foi substituído pelo vice Raimundo Boi. Assim, de todos os governadores eleitos pela via direta, desde 1988, apenas Moisés Avelino (MDB) não foi cassado nem renunciou ao mandato.

Claro que há chance de Carlesse voltar em abril, quando termina os 180 dias de afastamento determinados pelo ministro Mauro Luiz Campbell, com aval unânime de seus colegas do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Pelo que disse Campbell no julgamento desta quarta-feira, 20, a medida pode ser encerrada mais cedo, mas também extrapolar os seis meses inicialmente previstos. No caso, por exemplo, do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, o afastamento foi prorrogado por mais 180 dias.

Se o Sobrenatural de Almeida deu mais uma estremecida no cenário político tocantinense, desse abalo sísmico fez emergir um nome que vinha tentando se colocar em evidência, mas que até então só lhe restava torcer pelas duas variáveis possíveis: a renúncia de Carlesse para concorrer ao Senado ou que o titular resolvesse ficar na gestão e apoiar seu vice em 2022. O agora governador interino Wanderlei Barbosa (sem partido), nessa virada de mesa do destino, deixa o papel de coadjuvante para ser alçado ao total protagonismo desta pré-campanha. É sobre ele que estarão todos os holofotes a partir de agora.

Afinal, a história do Tocantins, nas diversas intervenções do Sobrenatural de Almeida, mostra que o comando do Palácio Araguaia faz a diferença. Lógico: ainda que não garanta a vitória. Olhando em retrospectiva, Marcelo, em 2006, e Carlesse, em 2018, venceram. Mas Carlos Gaguim, em 2010, e Sandoval Cardoso, em 2014, perderam. Contudo, bom ressalvar, os dois primeiros colocaram a máquina na rua e foram buscar votos e suas vitórias resultaram de duas eleições diretas (Marcelo em 2002, apoiado por Siqueira Campos, e 2006; e Carlesse em junho e outubro de 2018). Já dois últimos chegaram a governador por meio de uma antipática e intragável eleição indireta.

O Sobrenatural de Almeida mudou todo o jogo de 2022, zerou todas as estratégias e os cálculos políticos terão que ser refeitos. E vai que esse fantasma volte e chute de novo o tabuleiro? A trajetória do Tocantins recomenda não descartar essa possibilidade.

E só para constar: como Nelson Rodrigues, Wanderlei também é torcedor do fluminense.