A rotina de plantão é um desafio diário. São 12 horas de trabalho em um turno diurno, e no dia seguinte mais 12 horas no noturno. Depois do segundo dia de trabalho, são 72 horas de folga. Aos 27 anos, a técnica em eletrotécnica Camilla Falcoeiras integra um time formado por 120 trabalhadores que estão de prontidão no Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Eles são responsáveis por manter o abastecimento e a transmissão de energia na casa de milhões de brasileiros, e também nos hospitais, clínicas, laboratórios, pronto socorro, supermercados, farmácias e em outros estabelecimentos comerciais. Os operadores estão distribuídos em quatro centros de comando e controle, no Rio de Janeiro, em Recife (PE), Florianópolis (SC) e Brasília.

Eles são personagens do capítulo de hoje da série “Os Essenciais”, na qual o EXTRA mostra os desafios enfrentados por quem tem que trabalhar em meio à pandemia do novo coronavírus para levar até a casa de milhões de brasileiros os serviços de primeira necessidade.

Antes do avanço da doença no país, a jornada de trabalho destes operadores era de 8 horas diárias, mas por medida de segurança, e para evitar uma exposição ainda maior dos funcionários, um dos turnos foi suprimido.

– Estou orgulhosa por saber que prestamos um serviço muito importante para a sociedade. Como seriam os hospitais sem energia? As pessoas em casa fazendo isolamento social sem luz? Estamos dando o nosso máximo. Temos um papel na sociedade, controlando e coordenando a energia no sistema interligado nacional. É uma responsabilidade muito grande. Tento ficar de maneira mais tranquila, mas não é fácil – relata Camilla.

O Brasil possui hoje cerca de 80 milhões de Unidades Consumidoras (UC) (ponto de entrega de energia com medição individualizada e correspondente a um único consumidor). A maior parte das Unidades Consumidoras (85%) são residenciais, contudo, a indústria é responsável por 35% do consumo de energia elétrica no país.

Desafio profissional, isolamento familiar

Além do desafio profissional, o coronavírus impôs uma dose extra de sacrifício à Camilla e aos seus familiares. Ela decidiu sair da casa dos pais, onde também vivem o irmão e uma avó de 82 anos, para morar sozinha e evitar uma contaminação da família. Ela era a única que precisava sair para desempenhar um serviço essencial à população e temia expor os familiares ao risco de contágio da doença. Agora, 35 quilômetros que a separam dos parentes. Ela conta que foi uma opção pessoal, mas nem por isso menos dolorosa manter um distanciamento dos parentes. A Páscoa, por exemplo, ocorreu com um almoço virtual para manter a tradição de reunir a família em torno da mesa e matar as saudades:

– Nunca pensei que passaria por isso. Minha avó, com 82 anos, diz que nunca conviveu com uma situação como esta. Era inimaginável. Nunca imaginei passar por isso. A Páscoa passei sozinha e encomendei almoço fora. Almoçamos juntos via chamada de vídeo. Foi uma experiência bem diferente. A minha família é bem tradicional. Todos os anos passamos juntos, mas desta vez o almoço foi separado, e estávamos separados e isolados – conta Camilla.

No Rio de Janeiro, mais de 3.300 trabalhadores estão na linha de nas ruas de 66 dos 92 municípios abastecidos pela concessionária de energia Enel. Eles são os trabalhadores responsáveis pela manutenção das redes e por atender aos chamados emergenciais dos mais de três milhões consumidores da empresa. Outras 230 pessoas fazem a operação e controle da rede 24 horas por dia. Com as lojas de atendimento fechadas por medida de segurança, a empresa tem reforçado o atendimento na central telefônica, pelo site e pelo aplicativo, sendo que a 70% dos profissionais de telemarketing estão trabalhando remotamente.

Artur Manuel Tavares Resende, presidente da Enel, afirma que a empresa implementou uma série de mudanças operacionais, ofereceu equipamentos e reforçou as orientações sobre higiene para tentar conter casos de contaminação nas equipes que precisam permanecer com atuação nas ruas.

– As trocas de grupos e turnos ocorrem sem interação entre os funcionários no centro de operações. Aumentamos a segmentação dos trabalhadores que trabalham em campo. Além disso, estamos evitando que os trabalhadores precisem ir para base para depois serem distribuídos. Eles agora saem de casa e dividimos cada grupo em menores células. Temos sempre foco em segurança para todas as pessoas que estão lá trabalhando na manutenção de emergência. Estamos tentando evitar que o cliente ligue para nós, por isso tentamos investir em prevenção e manutenção. Mas também precisamos manter equipes para fazer leitura, entrega de conta, religação. Para isso, é preciso dar máscaras, equipamentos especiais de proteção, álcool em gel e orientar o distanciamento social – ressalta o executivo.

Autoleitura em implantação

A Enel está preparando a implantação do processo de autoleitura do medidor para os consumidores residenciais e pequenos comércios do Rio de Janeiro, durante o período de isolamento social. O mecanismo está disponível para os clientes de cidades de São Paulo e Goiás.

O serviço permitirá reduzir o número de leituristas nas ruas, protegendo clientes e colaboradores. Como ocorre em outros estados, os clientes que não fizerem a autoleitura terão a conta de energia calculada pela média de consumo dos últimos doze meses, conforme regra anunciada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Nesse caso, a diferença entre o valor faturado e o que realmente for consumido será compensada na conta de energia quando for retomada a leitura.

Mapeamento de clientes eletrodependentes

Artur Manuel Tavares Resende, presidente da Enel, observa que entre as prioridades da empresa, no momento, estão a realização de manutenção preventiva das redes para evitar desabastecimento dos clientes e um mapeamento detalhado dos consumidores eletrodependentes. A lista de clientes “mais sensíveis” inclui não somente hospitais mas também residências que possuem aparelhos de respiradores ou home care:

– Fizemos uma solicitação para as prefeituras, que são gestores de programas em saúde, para que nos ajudassem a mapear os clientes eletrodependentes, ou seja pessoas com respirador em casa, equipe de sobrevida e hospitais. Estas pessoas são prioridade máxima para que possamos saber e dar atendimento prioritário – explica ele.