O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, exaltou-se, em entrevista coletiva, ao falar que nunca orientou o uso de medicamentos contra a covid-19, doença que não tem remédios com eficácia comprovada. Ele afirmou que jamais autorizou o ministério a fazer protocolos nesse sentido. Entretanto, assim que assumiu como ministro interino, em maio do ano passado, a pasta elaborou um protocolo que indica o uso de cloroquina no combate ao novo coronavírus.

“A senhora nunca me viu receitar ou dizer, colocar para as pessoas tomarem este ou aquele remédio. (…) Eu nunca indiquei medicamentos a ninguém. Nunca autorizei o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos”, respondeu a uma jornalista. Antes de ser questionado, o general já havia citado a necessidade da adoção do atendimento precoce contra a covid-19. “Os senhores sabem o quanto nós temos divulgado, desde junho, o atendimento precoce. Não confundam atendimento precoce com definição de que remédio tomar. Por favor, compreendam isso e não coloquem mais errado”, criticou.

Apesar de Pazuello sustentar que a pasta apenas indica o atendimento precoce, sendo a prescrição de remédios de responsabilidade dos médicos, o Ministério da Saúde publicou — em 20 de maio, quando o general ocupava o cargo de ministro interino — orientações para tratamento medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da covid-19, que incluem cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina. Segundo o próprio documento da pasta, o protocolo foi publicado “com o objetivo de ampliar o acesso dos pacientes a tratamento medicamentoso no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde)”.

A publicação motivou a saída de dois ministros da Saúde do cargo: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos não concordavam com o protocolo cobrado pelo presidente Jair Bolsonaro, que defende os medicamentos.

Mesmo negando a prescrição, Pazuello se contradisse ao afirmar, também na coletiva de ontem, que “vários remédios deram algum tipo de resultado”. “É preciso utilizar a técnica do atendimento precoce. Temos de difundir isso todos os dias, em todos os meios de comunicação, para que a gente possa permitir que as pessoas tenham chance de não agravar. Vários remédios deram algum tipo de resultado, e os médicos sabem o que deve ser prescrito para os pacientes deles”, destacou.

O titular da Saúde também já defendeu, em julho do ano passado, em Porto Alegre, o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, como cloroquina e ivermectina, ao falar sobre o tratamento precoce da covid-19.

Questionado sobre cloroquina, ivermectina e azitromicina, ele disse que o ministério havia feito uma orientação quanto à medicação. “Não é um protocolo nem uma diretriz. Apresenta quais são os medicamentos que estão sendo utilizados pelo SUS, quais estão dando resultado, qual a melhor dosagem e momento de uso. Temos aí a hidroxicloroquina, a azitromicina e a ivermectina já listadas nessa orientação”, ressaltou, na ocasião.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não existe fármaco com eficácia comprovada contra a doença. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da OMS, afirma que “não há evidência científica, até o momento, de que esses medicamentos (cloroquina e hidroxicloroquina) sejam eficazes e seguros no tratamento da covid-19”.