Regimes “iliberais” estão mais poderosos e almejam redesenhar as instituições internacionais. Para promover sua própria versão de direitos humanos e liberdade de expressão, países como a China buscam influenciar democracias liberais usando agentes políticos e econômicos.

Esse risco, como no suposto envolvimento russo nas eleições de 2016 nos EUA, é tema de particular importância para Thorsten Benner, cofundador e diretor do Global Public Policy Institute de Berlin, que veio a São Paulo para palestra na Fundação Getúlio Vargas em janeiro.

Como os europeus veem a situação política do Brasil?

Por um tempo, o Brasil era considerado potência emergente; hoje é visto como um país atarefado com seus próprios problemas. No entanto, para os alemães, o Brasil continua a ser um parceiro importante no Conselho de Segurança da ONU. No debate sobre a governança da internet, o Brasil mostrou potencial para ser um parceiro construtivo, crítico da posição dos EUA, mas também da Rússia e da China.

O Brasil tem perdido oportunidades na política externa?

Uma participação mais decisiva na crise de refugiados teria sido uma vitória de soft power [poder de influência]. O acolhimento em massa de refugiados sírios traria riscos muito baixos e benefícios diplomáticos muito altos. O governo alemão tende a recompensar quem divide esforços.

Como o próximo governo do Brasil deve abordar as relações com a União Europeia?

Brasil e UE devem trabalhar juntos para limitar a influência crescente de regimes iliberais autoritários nas instituições internacionais no campo dos direitos humanos e da liberdade de expressão.

O Brasil pode ser alvo de interferência externa nas eleições?

Se optar por uma agenda forte de direitos humanos, liberdade de expressão e internet livre, o Brasil enfrentará oposição de regimes que tendem a interferir na política doméstica, como Rússia e China, por meio de agentes econômicos e de influenciadores na imprensa, nas universidades e nos centros de pesquisa.

A China busca controlar a forma como é vista nos países onde tem interesses. E o debate sobre a China no Brasil crescerá. Cedo ou tarde, o Brasil terá de discutir seu lugar no mundo co-hegemônico.

 

Há casos de influência chinesa na política doméstica?

O mais visível é a Austrália, que depende da China por exportar matéria prima. A influência chinesa aumentou com os investimentos. Nas ultimas eleições, 80% das doações políticas eram ligadas à China. Recentemente, uma editora desistiu de uma obra sobre a China por temer retaliação.

No Brasil, a China pode tentar expandir a sua influência política por setores econômicos?

Basta olharmos para a Europa. A China comprou os principais portos da Grécia na crise da dívida. Desde então, a governo grego passou a barrar resoluções de direitos humanos contra interesses chineses no Conselho Europeu.

Como a sociedade civil pode monitorar essa influência?

Todo investimento de um país é político. As economias devem ser abertas, mas a presença da China em alguns setores estratégicos pode se revelar preocupante. É importante que o Brasil desenvolva conhecimento independente da agenda de governos e empresas que investem no país.